OPINIÃO

O velho do Cachimbo

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Estou de volta para contar mais um capítulo da minha série “As histórias que não contaria aos meus netos”. Algumas, confesso, até contaria sim para darmos, juntos, boas risadas. A de hoje é uma delas. Vocês notaram que no meu abre nem falei do genocida, tá, acabei falando, diante do que acontece nesse país precisamos falar sempre, em cada oportunidade que tivermos. Bom, minha historinha hoje é de um treinador muito singular, o homem do cachimbo. Isso mesmo, ele dava preleções, ia dormir e já acordava com um cachimbo na boca. Deveria ter perguntado de onde ele trouxe esse modelo.

A história começa com o homem do cachimbo me provocando um prejuízo. Eu estava em boa fase no Alecrim, era meu segundo ano no time verde e depois de vários jogos despertei o interesse do Central de Caruaru. Naquela oportunidade uma força do futebol pernambucano, com seu estádio Lacerdão, muito bonito, centro de treinamento, restaurantes e lojas ao redor. Não sei se ainda é assim hoje.

Pois bem. A viagem que fizemos a Caruaru para um amistoso tinha dois motivos: acertar minha negociação, por empréstimo, e a contratação do treinador, o homem do cachimbo Pedrinho Rodrigues (já falecido). Jogamos, perdemos de 2 a 1 se não me engano, tive uma ótima atuação e estava certo de já ficar em Caruaru, já me imaginando com o pacote de dinheiro das luvas no bolso. Após a partida, entranhei. Ninguém me falou mais nada sobre o interesse do Central. Depois fiquei sabendo que a transação estava quase concluída quando o técnico Pedrinho Rodrigues disse não.

“Eu vou precisar desse jogador. Vocês não podem emprestá-lo. O objetivo do Alecrim não é ser campeão, então como vocês podem aceitar se desafazer, emprestar o melhor jogador do time ?”, teria questionado ele ao dirigente João Bastos de Santana, de saudosa memória. “Seu” Bastos teria aceitado as ponderações do novo comandante do time e não quis mais me emprestar ao Central. E voltamos para Natal já trazendo na bagagem o treinador que garantia levar o Alecrim ao título que não conquistava desde 1968.

Pedrinho Rodrigues chegou com toda a moral. Teve inclusive, a ousadia de barrar da equipe titular o capitão Nilson Beckembauer, até então imexível na camisa de número 5 e da braçadeira de capitão. Nilson Mário, minha saudade, minha homenagem ao grande amigo que já está em outro plano. Na vaga de Nilson, vejam só as coisas do futebol, o homem do cachimbo efetivou um volante fraco, que só rodava com a bola, mas que falava pelos cotovelos. Pense num sujeito chato. O jogo começando e ele querendo ainda passar instruções como se fosse técnico. Bom, deixa ele pra lá.

Outra mexida estranha na equipe titular. Ele sacou o goleiro Índio, conterrâneo de Caruaru, inclusive uma das pessoas que incentivaram sua vinda. Ele não mudava por maldade, isso é certo, mas me aparecia absolutamente equivocado. Índio ficou muito chateado e dessa barração uma história muito engraçada dentro dessa história.  Vou contar: depois de uma sequência de jogos, o time teve uma folga na tabela de uma semana. Índio pediu licença para ir a sua terra. No mesmo instante, Pedrinho Rodrigues liberou e já pediu uma carona no carro do goleiro, afinal ele também era do mesmo lugar. E foram. Antes, deixe eu dizer. Além da história do cachimbo na boca, Pedrinho Rodrigues, ex-jogador profissional, tinha um defeito na perna direita, que era muito entortada por uma cirurgia de joelho mal feita. Por isso, o pobre homem mancava. Durante a viagem, na BR, no ermo, ele pediu ao seu goleiro para dar uma paradinha para se aliviar, queria fazer xixi. Pararam no acostamento, e nesse acostamento havia um declive de mato que, no escuro, nem dava para ver direito. Isso já é o meu colega goleiro contando. “De repente, Edmo, ouvi foi um barulho como se fosse um deslizamento de terra…escutei o grito de “Seu” Pedro: Índio, me acuda aqui”. corri para onde vinha a voz, o velho tinha desabado ladeira abaixo.

“E na mesma hora, Deus me perdoe, pensei: velho safado, bem feito para não fazer tanta maldade. Pensei isso, mas logo me arrependi, mas confesso que até demorei um pouquinho a acudir ele, perguntando onde ele estava. Desci o declive e ele, coitado, caído, ainda de pernas para cima, todo cheio de espinhos na roupa, quase chorando pedindo ajuda. Levantei-o e conseguiu arrastá-lo para cima, Deus me perdoe de novo, com uma vontade muito grande de rir”, concluiu o nosso goleiro que, naquela época, era chamado de “Padre” Índio, pois vivia na igreja e muita gente apostava que ele se ordenaria.

Longa, né? Mas é mesmo. Segue o jogo. A próxima vítima do velho do cachimbo seria eu, o jogador que ele não podia prescindir. Na véspera de um clássico contra o América, o danado me barrou, me tirou do time titular e efetivou o lateral esquerdo Noronha no meio-campo, vejam só. Fez a relação dele, concentrou 17 jogadores como sempre fazia. No dia da partida, antes de ir para o estádio, ele diria quem sobrava da relação, coisa que causava sempre muita irritação no escolhido. O melhor vem agora. Para escolher esse “excluído”, o velho do cachimbo tinha um jeito muito peculiar. Terminada a preleção, ele dava duas tragadas no seu cachimbo, com o lado quente, isso mesmo, com o lado quente, onde ficava o fumo, e lascava na barriga do escolhido. “Hoje quem vai sobrar do banco é você”, dizia, e tome cachimbo no escolhido.

Um dos jogadores mais chateados com isso era o ponta esquerda Soares. Vocês vão lembrar dele, querido amigo, outro querido ex-companheiro que já está em outro plano (que triste, nessa história cito pessoas que já se foram, mas é a vida), ele foi do ABC em 1972, fez um grande Campeonato Nacional, chegou a ser contratado pelo Botafogo do Rio, mas não se adaptou e retornou a Natal. Naquele dia “Sussu” me disse: “Galego, se esse velho vier com esse cachimbo na minha direção, hoje vai ter confusão, hoje eu não aceito”, disse. O meu craque já tinha sobrado em dois jogos seguidos, parecia até pirraça, pois dava show de bola nos treinos.

Chegou a hora da preleção. Fomos todos para a parte da sede Campestre (antiga, na Estrada de Macaíba), lá embaixo, onde fazíamos nossas refeições, pois a parte de cima, usada anos depois, era somente para os sócios. Depois de falar como queria seu time e definir os titulares, eu fora, chegou a hora da decisão. Eu, despreocupado, chateado por perder a vaga no time titular, mas conformado, já pensando no que Soares tinha me dito. E, coincidentemente, fiquei perto do “premiado”. E lá vem o velho com seu cachimbo na mão na direção de Soares…”e hoje vai sobrar de novo meu jogador que ainda não  está no melhor de sua forma física” foi dizendo e já tascando o cachimbão na direção da barriga do ponta esquerda. Para surpresa geral, Soares se desviou do cachimbo, tirou a mão do velho e disse com raiva: “hoje não, vou pro jogo, quero jogar, não sou palhaço não…”, o velho, surpreso, mas macaco velho, refeito na hora, não perdeu tempo e virou o cachimbo, puta que pariu…na minha direção. “Hoje vai sobrar você meu louro, pra descansar um pouco e voltar com tudo no domingo”, foi falando e, claro, sacudindo o cachimbo no meu bucho…

Rapaz, fiquei tão puto da vida que desviei do cachimbo, joguei o copo de de vidro, ainda com café no chão do salão, foi caco de vidro para todos os lados e saí furioso em busca do quarto onde estava minhas coisas. Peguei minha bolsa e fui saindo, fui saindo, era noite, já passava das sete, o jogo seria às 20h30 ou 21h, não lembro. Fui para a BR esperar um ônibus, nem quis entrar no Periquitão e nem atender aos apelos dos colegas. Mas, ainda na pista, Sansão, motorista (outro querido amigo que já faleceu, que tinha sido ex-goleiro do Alecrim) parou perto de mim, desceu do ônibus e quase me obrigou a subir, “não vou deixar você aqui no meio da pista, você é doido”, dizia. Os companheiros também fizeram coro. Subi, nem olhei pra cara do treinador, sentei lá atrás. Na chegada ao Castelão, olhei para Sansão e disse: “enquanto esse treinador b….. tiver aqui no Alecrim eu não jogo mais e fui embora para casa”, disse.

Cabeça fria depois, convencido por “Seu” Bastos, sempre ele, e Ranilson Cristino, sempre ele, acabei aceitando voltar. Joguei ainda algumas partidas até que o velho do cachimbo nos “traiu” e foi para o América. No fim, não lembro direito de, naquele ano, foi ele o comandante rubro na conquista do bicampeonato. Pesquisei na história e não achei registro.

PS: essa história do treinador do cachimbo, me atrapalhei todo, foi anterior aos fatos narrados envolvendo Hélio Lopes, o da briga em frente à sede. Minhas desculpas.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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