OPINIÃO

O vírus da humanidade

Foi numa das minhas viagens de metrô até o trabalho, que ousei ouvir um diálogo baixinho que acontecia próximo a mim… Dessas vontades que a gente tem, especialmente quando se está só, de observar a vida dos outros…ou de fuxicar mesmo, como diria minha avó paterna, Dona Dione, que adorava esse esporte…

Meu ouvido parou atentamente numa voz macia, de uma menina que devia ter uns 11 anos, e que respondia, com todo o carinho, às constantes perguntas do irmão, de uns 8 anos, idade que não se contenta com poucas explicações…

Dividiam o mesmo banco, ela quase caindo do assento a cada freio que o metrô dava ao chegar nas estações… Ele, esparramado na janela, olhando o mundo lá fora com fome de cada detalhe, que não passava despercebido de seus comentários, como “olha, o carro tá andando pra trás”…

Corpos franzinos, roupas simples, chinelos nos pés…

Foi quando o mais novo indagou:

– O que você faria se ganhasse 50 reais? – assim, desse jeito serelepe, como se fosse uma fortuna da mega-sena!

A pergunta, como todas as outras, foi prontamente respondida pela irmã mais velha:

– Eu daria 20 reais para quem precisa…

– Então dá pra mim, eu preciso! – devolveu o garoto, mais que depressa, fazendo graça.

Com um meio sorriso, a menina explicou:

– Não. Eu tô dizendo que eu daria às pessoas de uma creche, de um orfanato…

Ele não riu. Apenas olhou pra ela e entendeu.

Calou, com a certeza nos olhos de um aprendizado pra vida toda…

Assim como eu…

Em seguida, desceram, com a mãe, que estava com o caçula no colo no banco em frente a eles, na estação do shopping, mais ricos do que se tivessem ganhado na mega-sena…

E pra quem escutou ou lê agora essa história, contagiado pelo sopro de bondade, já pode espalhar por aí o tal vírus da humanidade…

 

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