OPINIÃO

O zap que afaga é o mesmo que apedreja

Qualquer pessoa com o mínimo de percepção da realidade sabe que a eleição presidencial foi, em grande parte, decidida por informações falsas, as Fake News, transmitidas por grupos de Zap. Após as eleições, descobrimos que esse surto de notícias falsas e sua disseminação não eram orgânicas, mas, sim planejadas, sistematizadas e dentro de uma estrutura cara e bem montada com origem nos EUA e ramificações mundiais.

Basta lembrar da atípica e suja campanha eleitoral, onde o candidato do PT, Fernando Haddad e sua assessoria passavam mais tempo desmentindo Fake news do que fazendo campanha. Teve de tudo, das imensamente divulgadas e de infalível cunho sexual “Kit gay” e “mamadeira de piroca” até non-sense como a informação que Haddad tinha uma Ferrari amarela. E foi desta forma, somado ao sentimento antiPT, à comoção da facada sofrida pelo “mito” e do desgaste de partidos de centro-direita como PSDB, que Bolsonaro venceu uma improvável eleição.

Contudo, antes mesmo de tomar posse, Bolsonaro, que mantém postura pessoal e nas redes sociais de quem continua em campanha, e sua entourage estão vendo que pode se ganhar uma eleição com Fake news em grupos de Zap, mas não terá como administrar e fazer política com elas.

Mais que isso. A própria narrativa dos famigerados “grupos de Zap” pode estar rapidamente se reinventando e, quem diria, com potencial para se voltar contra o próprio “mito” e sua trupe.

Claro que o mecanismo de difamação, matérias falsas e disseminação via robôs em grupos de Zap continua, mas, após as denúncias e com maior preocupação das plataformas, perderam parte da força, incluindo aí a surpresa.

Mas, a própria narrativa no Zap parece estar lentamente revertendo, ou, pelo menos, sendo repaginada. Mostra disso é o surgimento de memes e informações falsas ou pelo menos difusas sobre Bolsonaro e família. Na campanha, a produção de memes era praticamente território dos bolsominions, e sempre contra Haddad, Lula, Dilma e PT. Com Lula preso, Dilma e Haddad fora dos holofotes e sem um inimigo direto a enfrentar (o “comunismo” é vago demais) os grupos de Zap começaram a ser invadidos por memes e piadas com o presidente eleito, sua atrapalhada família e suas equipe, incluindo aí o outrora santificado e incólume Sérgio Moro.

Ouvi depoimentos de amigos e amigas que participam de dezenas de grupos de que mesmo eleitores de Bolsonaro compartilham informações que ele julgam relevantes, como a necessidade que o motorista Queiroz explique o dinheiro na conta ou fazem piada com o fato de um homem deixar que um motorista deposite dinheiro na conta da esposa.

Eram pessoas que na campanha defendiam Bolsonaro com unhas e dentes, brigavam pela sua honestidade e viam no PT o mal maior do Brasil. Hoje querem saber da conta de Michelle Bolsonaro e fazem piada com o “Posto Ipiranga” Paulo Guedes.

Também achei sintomático Flávio Bolsonaro ter saído de um grupo de Zap de apoiadores e equipe, após alguns terem cobrado explicações sobre os depósitos de Queiroz. Um Bolsonaro sair de um Grupo de Zap…  Os ventos podem, sim, começar a mudar na rede;

E ainda faltam 11 dias para começar o Governo Bolsonaro. Muita água ainda pode rolar. Muito Zap-Zap também.

 

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *