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Obstinada, Leilane conviveu na academia entre saberes e preconceitos

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Quando iniciou o doutorado, Leilane fez a seleção para professora substituta na UFRN. Passou na primeira fase e seguiu para a etapa seguinte, quando o concorrente precisa dar uma aula e é avaliado por uma banca pela prática didática. Após cumprir o cronograma e finalizar a aula, a historiadora saiu da sala, foi ao encontro da orientadora Conceição Almeida e desabou num choro compulsivo.

Leilane contou que passou o tempo da aula como se não houvesse ninguém na sala, tamanho o desprezo com que a banca a assistia. A professora Conceição Almeida conta que foi um choque:

– Depois de três ou quatro anos, logo no começo do doutorado, Leilane fez uma seleção e na hora da aula da prática didática me confessou chorando que tinha dado todo o conteúdo, na segunda fase, como se não tivesse ninguém na sala, ela ficou muito chocada. A comissão julgadora sequer a olhava. É como se tivessem se deslocado dela. Isso fez muito mal para Leilane porque foi como se ela não estivesse ali. São sintomas de uma sociedade que tem suas fobias, seus preconceitos e age dessa forma, desconhecendo uma presença.

 Se pudesse resumir Leilane Assunção em uma palavra, Conceição Almeida não demora muito a responder: obstinação. Ela lembra que mesmo vivendo numa sociedade excludente e com poucas chances para as minorias sociais, Leilane nunca pareceu sucumbir ou aceitar as imposições da sociedade:

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 – Convivi com Leilane durante quase quatro anos como orientadora e nesse tempo de convivência fica para mim a imagem dela como o exemplo de uma pessoa obstinada, corajosa, no sentido de que ela tem foco na vida, sempre teve. O sonho de ser acadêmica… ela fez tudo para caminhar em busca desse horizonte. A gente sabe que vive numa sociedade onde tudo é difícil, a chegada na academia, as chances na vida… e Leilane não tinha esse sentido do impedimento, isso não era forte para ela. Leilane sempre correu atrás, sempre acreditou que estava no lugar que ela quisesse, como a universidade. Acompanhei as vezes em que ela fez concurso para a universidade e não foi aprovada. E ela demonstrava essa dor, isso era uma coisa que doída nela e chegou a ser traumático.

Defesa da tese de doutorado sobre Clara Nunes. À esquerda, a orientadora Conceição Almeida

Clara Nunes como referência da diversidade

Conceição Almeida é antropóloga, professora do Departamento de Educação da UFRN e também se recorda de ter sugerido a troca do tema de doutorado a Leilane, que pretendia continuar o trabalho defendido no mestrado, baseado na obra do historiador e filósofo alemão Oswald Spengler, autor do clássico “O declínio do Ocidente”. Como percebeu, durante as orientações, que Leilane tinha obsessão pela cantora mineira Clara Nunes, a professora convenceu-a da troca:

– Ela entrou com o projeto, mas com a nossa convivência vi que ela gostava muito de arte e tinha obsessão por Clara Nunes. Então eu provoquei e sugeri que ela trocasse o projeto por outro sobre Clara Nunes. Ela fez uma pesquisa interessante, mostrando uma Clara Nunes, de um certo tempo pra cá, defensora da diversidade, ligada à resistência. Minha experiência orientando dezenas de estudantes mostra que trabalhar com coisas que dão prazer e que de certa forma tem a ver com obsessões ajudam. E Leilane era uma pessoa focada, ia atrás do que queria.

A antropóloga se diz feliz por ter acolhido e compreendido a aluna:

– Eu vi Leilane começando no doutorado e fico feliz pelo fato de ter conhecido e acolhido Leilane sem nenhum preconceito. Muito alegria, faço uma avaliação muito realista. Sempre digo que quando o preconceito respinga para o preconceito teórico… quando a pessoa tem um desrespeito pelo que é o outro, essa pessoa não consegue avançar no nível crítico.

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Supervisor de pós-doutorado cita paixão de Leilane pela pesquisa

O sociólogo Orivaldo Lopes Jr. foi o supervisor de Leilane Assunção durante o pós-doutorado que a historiadora não conseguiu concluir após suspensão da bolsa. Ela vinha desenvolvendo uma dissertação sobre a banda Reflexus, da Bahia, focada na líder do grupo Marinez.

O episódio da perda da bolsa, inclusive, deixou a historiadora abalada. Ela acusou a banca de perseguição e não aceitou o resultado. Orivaldo Lopes acredita que houve um mal-entendido:

– Houve um mal-entendido. Leilane acabou ficando chateada por não ter conseguido a pontuação necessária para renovar a bolsa, mas estávamos amarrados ao processo. Depois nos afastamos um pouco por conta disso e infelizmente ela não conseguiu recuperar a bolsa a tempo.

Orivaldo Lopes se sente privilegiado por ter sido supervisor do pós-doutorado de Leilane Assunção. E destaca a paixão dela pela pesquisa:

Tive o privilégio de ser o supervisor do pós doutorado de Leilane. Sempre me impressionou sua dedicação e paixão com que tratava seus empreendimentos de pesquisa. Ela aplicava isso em todos os aspectos de sua vida. Mergulhava de cabeça nos seus estudos. Teve uma sólida formação em história. Isso afetava o modo como fazia seus estudos. Ao mesmo tempo, tinha uma militância constante frente aos desafios das minorias, as quais ela representava e se unia. Jamais tergiversava diante da injustiça. Deixa para seus amigos e amigas um exemplo e uma causa. Uma perda que nos deixa muito pobres e tristes num momento tão desesperador da história nacional.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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