CULTURA

#OcupaCarrefour: juventude troca liberdade por convivência vigiada em Natal

Estacionamento do Carrefour vira espaço de convivência em Natal

Matheus e André sentam no cimento ainda morno e passam algumas horas conversando amenidades para esquecer os transtornos da atabalhoada vida universitária. Lenny larga do estágio às 17h e corta a metade da cidade de ônibus para se encontrar com amigos e aproveitar as primeiras horas da noite. Maíra, pernambucana radicada em Natal há um ano e meio, foge do aperto de seu quitinete e, sozinha, procura um espaço para refrescar o corpo e a mente em dias de intenso calor.

De domingo a domingo, a partir do entardecer, o estacionamento do Supermercado Carrefour, na zona Sul de Natal, deixa de ser um espaço reservado apenas a guardar veículos e se transforma em área de convivência social. São centenas de jovens e novos adultos que se aglomeram naquele espaço cinzento para escapar da rotina diária. A graça é deixar de lado os problemas e aproveitar a noite, sempre regrada à música, bebida e o som das risadas estridentes.

Nos dias de maior movimento, geralmente sextas e sábados, o espaço chega a receber mais de 300 pessoas. Os seguranças do supermercado acompanham os jovens à distância. Quando alguma movimentação suspeita é detectada pelos vigilantes, revistas são feitas. Os patrulheiros costumam entrar em ação para impedir pequenos delitos, o consumo de bebidas alcoólicas por menores de idade e, eventualmente, o uso de drogas ilícitas. Batidas são raras por ali.

 

Insegurança nas ruas levou jovens a se encontrarem diariamente sob proteção da vigilância privada

 

A vigilância não parece incomodar os frequentadores do estacionamento. Pelo contrário. É justamente a sensação de segurança que leva a maior parte daquelas pessoas a estarem ali, depois de um dia longo de estudo ou trabalho, para passar o tempo.

 

Um local para chamar de meu

Há um ano e meio, a vestibulanda Bárbara Beatriz Alves, de 19 anos, decidiu reservar um dia da semana para se encontrar com amigos e quebrar um pouco da rotina intensa de estudos. Desde então, pelo menos uma vez a cada sete dias, o grupo se reúne no estacionamento do Carrefour para conversar, comer e beber.

 

Os amigos Bárbara e Miguel marcam uma vez por semana para coloca a conversa em dia

Bárbara costuma fazer sempre o mesmo roteiro: pega o ônibus perto da sua casa, desce na parada do Natal Shopping, caminha pela marginal da BR-101, sobe os cinquenta degraus da longa escada de cimento que dá acesso ao estacionamento, vai até o interior loja, compra refrigerante e salgadinhos, volta ao lado externo e procura um local agradável para sentar e aproveitar a brisa leve que corre no fim da tarde.

 

Naquela tarde de segunda-feira do mês de fevereiro, ela estava acompanhada do amigo Manoel Felipe Soares, de 17 anos. Os dois chegaram ao supermercado pouco depois das 17h e só retornaram para casa algumas horas depois do pôr-do-sol. “A gente chega, compra alguma coisinha que acompanhe a conversa e depois fica de bobeira, olhando o movimento. Não tem muito segredo”, sintetiza Bárbara.

Bárbara e Manoel contam que o movimento no local havia reduzido nos dias que precederam nosso encontro. Eles atribuem à queda no fluxo de pessoas dois motivos diferentes: as férias escolares e as fortes chuvas que caíram em Natal durante a primeira quinzena de fevereiro.

As duas hipóteses fazem sentido. Isso porque a parte onde as pessoas costumam ficar aglomeradas é descoberta e o público que frequenta o estacionamento é basicamente formado por secundaristas e universitários. Logo a união de chuvas com férias resulta em redução drástica de movimento. Ainda assim, há um número razoável de pessoas naquela segunda.

No extremo oposto a Bárbara e Manoel estão sentados os estudantes de Ciência e Tecnologia da UFRN Matheus Costa e André Rubens. Colegas de curso, eles começaram a frequentar assiduamente o Carrefour depois que ingressaram na universidade. Os dois comentam que ‘descobriram’ o local por acaso. Certo dia, enquanto voltavam para casa, viram a aglomeração de pessoas no desfiladeiro e foram “ver o que estava acontecendo”. “Desde então, vir pro Carrefour se tornou uma extensão da aula”, brinca Matheus.

Situação semelhante acontece com a mestranda em Engenharia de Produção Maíra Sidrim, de 26 anos. Egressa da pequena cidade de Cedro, no sertão pernambucano, Maíra desembarcou de mala e cuia em Natal há um ano e meio para cursar mestrado. Após idas e vindas em busca de um lugar para morar nas proximidades da UFRN, acabou alugando um quitinete apertado no bairro de Mirassol. Maíra confessa que ainda não conseguiu se adaptar à nova rotina em Natal. “Me sinto muito sozinha quando estou em casa. Então, venho aqui pro Carrefour e fico um tempo olhando a cidade e pensando na vida”, descreve.

 

“Chegamos aqui quando só havia mato”

 

Grupo de amigos começou a frequentar o espaço para andar de skate e viram o local se transformar com o tempo

 

É praticamente impossível precisar quando o estacionamento do Carrefour passou a ser ‘ocupado’ pela população. A maioria dos atuais frequentadores chegou ao local após a área ter sido devidamente desbravada. No entanto, o estudante Gilson Farias, de 18 anos, reivindica a descoberta do local.

Ele garante ter feito parte do grupo que começou a ocupar o espaço, ainda que timidamente e de forma completamente distinta do que acontece hoje. Começou em 2011, quando o estudante, acompanhado de alguns amigos, passou a utilizar o estacionamento para praticar manobras de skate. À época, relembra o estudante, ainda não havia uma pista de cooper nem academia no entorno do supermercado, que ajudaram a popularizar o espaço.

“Na área onde hoje tem a academia, antes tinha uma parte de cimento. Eu e alguns amigos, depois da aula, vínhamos para cá andar de skate. Depois, outras pessoas da escola foram vindo para cá e o público foi aumentando”, relembra. Gilson, no entanto, não acredita ter sido o responsável pelo sucesso atual do local. “Não. Outros grupos começaram a vir pra cá também. Algumas pessoas que se reuniam na praça do CEI (colégio particular que fica em Mirassol) também vieram para cá, assim como muitos alunos da UFRN e do Floca (escola estadual localizada em Mirassol)”, aponta.

Andar de skate pelo cimento do estacionamento ficou cada vez mais difícil a partir de sua popularização. Por isso, Gilson raramente volta ao local. “Raramente a gente vem praticar skate aqui. Hoje preferimos ir para alguma praça ou para a área do DAD (Divisão de Atividades Esportivas, em Candelária) por ser mais tranquilo. Fico triste porque esse espaço foi meio que descoberto por mim e por alguns amigos meus e hoje não podemos mais usá-lo como antes”, lamenta Gilson Farias.

 

* A série de reportagem “#OcupaCarrefour: liberdade vigiada” foi uma das vencedoras da 1ª edição do Mais Repórter, iniciativa pioneira no Rio Grande do Norte financiada exclusivamente pelos leitores assinantes da Agência Saiba Mais. Contribua para que outras reportagens inéditas, como a produzida pelo repórter Norton Rafael, continuem dando visibilidade às narrativas silenciadas da sociedade. Apoie o jornalismo independente: www.saibamais.jor.br/assine.  

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