CIDADANIA

Ocupação na Ribeira completa um ano e moradores seguem sem assistência da prefeitura

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A única janela do quarto de Lucineide Costa, 39 anos, dá para um espaço de cerca de um metro quadrado lotado de plantas que ela mesma organizou. Vendedora de cosméticos autônoma, Lucineide compõe uma das 20 famílias que moram há pouco mais de um ano no antigo Albergue Municipal 09, em homenagem a um antigo militante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que faleceu pouco antes de conquistar sua casa própria.

O prédio foi abandonado em 2014, quando as funções do albergue foram transferidas para outra estrutura no bairro Cidade Alta. Lucineide conta que as famílias que hoje ocupam o espaço foram as responsáveis pela limpeza do lugar largado às moscas. “Isso aqui antes era atolado de lixo, de gente que entrava pra se drogar, a gente chegou e limpou tudo, tirou mais de 10 sacos enormes de sujeira e depois cada um foi organizando seu cantinho”, relembra a autônoma, mãe do casal Ana Ruth e Lucas, que moram com ela em um quartinho onde cabem uma cama de casal, televisão, fogão e outros utensílios domésticos.

“Eu sempre tive um sonho sabe? Ter meu canto, porque a gente faz as coisas pensando nos filhos e é por eles que eu to aqui lutando pra deixar pelo menos um cantinho pra eles antes de eu morrer. Aqui a gente não vive, a gente sobrevive do jeito que vai dando, sempre que pega um dinheirinho compra comida, tentando sempre não deixar faltar o necessário para as crianças”, disse Lucineide, beneficiária de programas de assistência à população de baixa renda, como Bolsa Família e Programa do Leite.

Vendedora autônoma Lucineide e os filhos Lucas e Ana Ruth vivem na ocupação há um ano e um mês

No final de março do ano passado, a Prefeitura do Natal entrou com um processo de reintegração de posse do antigo albergue, mas teve o pedido negado. Na época, o juiz Artur Cortez Bonifácio argumentou que o espaço estava sendo ocupado pela ausência de moradia digna, direito que deveria ser garantido pelo poder público.

A maioria dos quase 50 moradores do espaço localizado na rua Câmara Cascudo, na Ribeira, é de mulheres, em sua maioria negras e mães solteiras, como a própria Lucineide. O dia a dia da casa é coletivo, a segurança, a limpeza e o único banheiro são divididos, assim como o café partilhado religiosamente aos fins de tarde. Os integrantes do MLB e moradores da ocupação realizam reuniões frequentes no prédio para definir suas agendas de luta. O grupo participa dos Conselhos da Cidade do Natal e de Habitação e Interesse Social, como diz a manicure Teciana Bezerra, moradora do albergue desde o início da ocupação.

“A gente participa das reuniões do Plano Diretor, dos conselhos da cidade, por que lutamos pra ter direito não só à moradia, mas também à saúde, educação, segurança, alimentação. O nosso dia a dia é de lutas, alguns saem pra trabalhar, outros trabalham aqui dentro ou estão desempregados, mas a gente se fortalece junto com o movimento”, explica.

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Reunião dos moradores e militantes do MLB no prédio da ocupação

Teciana também é mãe de um casal de crianças, Thainá e Thalisson. Os três vivem no primeiro quarto do albergue e sofrem bastante quando chega a época de chuvas, onde a água entra e alaga o prédio. “Quando enche a maré, os bueiros enchem, quando chove o odor é horrível, aparecem ratos, esses são alguns dos problemas aqui, não é um mar de rosas, mas é o que temos e estamos lutando, estamos no calcanhar do governo, incomodando como uma pedrinha no sapato, até que haja uma solução pra nós”, descreve a manicure.

Teciana e Lucineide são cadastradas no Programa Minha Casa Minha Vida, assim como todos os outros moradores da Pedro Melo. “A gente sempre procura a Secretaria de Habitação da cidade, eles estão cientes da quantidade de famílias aqui, nós já participamos de audiências no Tribunal de Justiça também. Nós sabemos que existem muitos prédios em Natal sem gente e gente sem casa, o Governo e a Prefeitura poderiam se unir e reorganizar essa desigualdade, a gente luta por uma causa justa e tendo uma moradia garantida a gente pode lutar por outros direitos”, finaliza Lucineide.

Teciana e os filhos Thainá e Thalisson

O Albergue Municipal foi construído para abrigar homens e mulheres maiores de 18 anos e menores de 69, que necessitam de um espaço para dormir, além do amparo social, higienização e alimentação. Inicialmente, o albergue foi projetado para abrigar 72 pessoas e foi inaugurado em 2011, na gestão da ex-prefeita Micarla de Souza. Abandonado em 2014, a prédio em que se encontra a ocupação não recebeu nova função e se tornou mais um prédio dentre outros tantos históricos e sem reparos no bairro da Ribeira.

 

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