CULTURA

#OcupaCarrefour: beijaço LGBT foi divisor de águas e resistência à homofobia

Beijaço ocorreu em 2016 e foi divisor de águas

Em agosto de 2016 o estacionamento do Carrefour serviu de pano de fundo para um ‘beijaço’ LGBT. O evento, convocado através das redes sociais, aconteceu após uma transexual ter sido agredida verbalmente dentro do supermercado por um homem, que era proprietário de um quiosque abrigado dentro da própria loja.

Segundo testemunhas, a transexual estaria utilizando o banheiro quando começou a ser xingada. O caso ganhou forte repercussão nas redes sociais e obrigou o Carrefour a expulsar o comerciante agressor do local. O ‘beijaço’ é visto como um divisor de águas para a transformação do estacionamento em espaço de resistência LGBT.

São poucos os espaços em Natal onde há presença tão marcante de gays, lésbicas, bissexuais e travestis, sobretudo às sextas-feiras.

Eduardo (nome fictício), de 19 anos, participou do ‘beijaço’ em 2016 e, desde então, costuma frequentar semanalmente o estacionamento. Conversa, bebe, come, fuma e beija como fazem praticamente todas as outras pessoas que utilizam o local como espaço de entretenimento. “Aqui não tem brecha para preconceito. Ninguém fica vigiando o que você faz ou deixa de fazer. A gente só vem e se diverte”, comenta.

Eduardo pediu para não ter a sua identidade original revelada. Ele afirma ser bissexual e diz que nunca foi alvo de preconceito no Carrefour. “Algumas pessoas, principalmente os mais velhos que fazem caminhada aqui, às vezes olham pra gente meio torto. Mas não ligamos. Vamos permanecer aqui porque é nosso espaço”.

A rede Carrefour, inclusive, tem uma cartilha específica que é distribuída aos funcionários com orientações para tratamento à comunidade LGBT. O documento trata não só da orientação sexual, mas do próprio gênero das pessoas. A cartilha reforça que, se um homem decidiu se assumir mulher, ou o contrário, deve ser tratado pelo sexo e nome que foi escolhido, ainda que não conste em seu documento de identidade. “É uma questão de respeito e independe de decisão judicial ou cirurgia para mudança de sexo”, afirma o manual. Outras questões abordadas são o direito de pessoas do mesmo sexo se beijarem em público, usarem o banheiro apropriado à sua identidade sexual e o respeito a todos independentemente da religião.

Em contato com a reportagem da Agência Saiba Mais, a assessoria de imprensa da rede Carrefour reforçou que preza pelo respeito às várias comunidades que utilizam a loja como local de convivência social e disse ainda que “mantém relação próxima e reconhecida com as comunidades locais”.

 

 

#OcupaCarrefour: juventude troca liberdade por convivência vigiada

 

Ronda policial não garante segurança plena

 

Apesar da grade metálica que isola o Carrefour do ambiente externo e da presença de vigilantes fazendo rondas constantes, há relatos de crimes que acontecem na área do estacionamento. A grande maioria está vinculada a furtos e roubos de objetos pessoais, como celulares e bolsas.

O estudante universitário Lenny Vezedek, de 22 anos, conta que teve o celular furtado enquanto conversava com amigos há cerca de dois meses. Segundo a versão de Lenny, o aparelho estava no chão, próximo a sua bolsa, quando desapareceu. O estudante acredita que um homem levou o smartphone enquanto ele estava distraído.

Já o relato do também estudante e consultor de vendas Luiz Felipe Moura, de 19 anos, é mais violento. Ele garante ter sido abordado por um casal armado dentro do estacionamento. Os criminosos teriam o conduzido discretamente para a área externa do supermercado e praticado o roubo do seu aparelho celular e de uma quantia de dinheiro.

O setor de vigilância do Carrefour não quis comentar os casos. No entanto, em função da ocorrência de crimes deste tipo e também do consumo de drogas no local, rondas da Polícia Militar na área da loja – um espaço privado – têm acontecido com frequência na área.

Seguranças privados da loja, que não quiseram gravar entrevistas e pediram para não ser identificados, explicam que as rondas policiais acontecem principalmente nos fins de semana, quando há maior presença de pessoas no local. Sobre o assunto, a assessoria de comunicação do Carrefour limitou-se a informar que “em linha com seu compromisso com a segurança dos clientes que frequentam suas unidades, reforça que conta com vigilância homologada e mantém contato com as autoridades locais, a fim de contribuir com a resolução de eventuais problemas de segurança pública”.

Consumo excessivo de drogas e bebidas, além de confusões eventuais, estão entre os principais problemas relatados por frequentadores do espaço à reportagem. O Carrefour não quis comentar o assunto, mas explicou que, seguindo a legislação, não pratica venda de bebidas alcoólicas para menores de idade e colabora com as autoridades de segurança.

 

* A série de reportagem “#OcupaCarrefour: liberdade vigiada” foi uma das vencedoras da 1ª edição do Mais Repórter, iniciativa pioneira no Rio Grande do Norte financiada exclusivamente pelos leitores assinantes da Agência Saiba Mais. Contribua para que outras reportagens inéditas, como a produzida pelo repórter Norton Rafael, continuem dando visibilidade às narrativas silenciadas da sociedade. Apoie o jornalismo independente: www.saibamais.jor.br/assine.  

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Repórter