OPINIÃO

Ontem sonhei com meu pai

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Ele estava triste. Não exatamente triste: frágil. Havia desaparecido e ninguém o encontrava. Eu poderia aqui dizer seu nome, quando nasceu, as coisas que amava, sua risada inconfundível, o modo único de apertar a mão com firmeza, e encarar, olho no olho, a vida, mas meu pai esteve perdido em meus sonhos noite passada e eu ainda não o encontrei.
No sonho, alguns amigos o viram de longe, num terminal rodoviário, ofereceram-lhe carona, mas ele recusou. A fala móvel, trêmula: era um homem com receio da própria voz. Quando vivo, não era assim. Era falante até demais. Meu pai falava pelos cotovelos, e às vezes era difícil ouvi-lo. Então ele gritava. Sempre quis ouvidos e corações dispostos, mas muitas vezes foi complicado entender.
Como todo ser humano julgado diferente dos padrões de normalidade, meu pai seguiu a vida rompendo as bolhas que o cercavam. E isso lhe causou extrema fragilidade no fim de sua vida. Tanta energia dispensada aos outros buscando reconhecer-se e saber-se reconhecido, custou-lhe nuvem branca sobre a cabeça, braços caídos ao longo do corpo indócil, pés pra que lhes quer, se ele tem asas pra voar?
Meu pai era grande, era grande meu pai. Lembro-me de quando o vi dentro do caixão. Como meu pai pôde ficar tão pequeno? Que estranho feitiço foi aquele que encolheu seu corpo pra caber entre paredes de madeira insólita? Caber, caber, ele que nunca coube, e que soube, com a altivez e o mistério de judeus errantes, escrever uma história única, curvilínea e bela pelas estradas por onde passou.
Quando eu era criança e íamos aos domingos tomar banho no açude, meu pai me levava nos braços até o fundo. Eu não nadava, até hoje não nado, sereia das águas impossíveis. No entanto, entre os braços do meu pai, o medo não tinha vez, e a sua voz tinha eco entre as maretas, ele ria, conversava, mas não perdia aquele vinco na testa de quem calculava o próximo passo: “pra onde vou viajar próxima semana? o caminhão precisa de revisão. como meu amigo pôde fazer isso comigo?! o pagamento atrasou de novo. por que ela está tão triste? por que eu estou tão triste?
Entre os peixes do açude escuro, meu pai tinha o mundo nas costas, mas sua única missão ali era me segurar pra eu não cair. Meu pai era grande, era grande meu pai. E ontem eu sonhei com ele tão minúsculo. Tão frágil e solitário num terminal rodoviário. Ele sempre estava indo e vindo. Só que agora ele foi e não voltou. Continua desaparecido entre sonhos e pensamentos, dentro de uma saudade confusa, doída e triste, de quem é tão parecida com ele, de quem tem tanto medo de ser tão parecida com ele.
Quando contei do meu sonho para uma amiga que não acredita em vida após a morte, e lhe disse que iria rezar pelo meu pai, ela me falou: “morrer, morreu, a alma já foi. talvez o sonho tenha sido pra lhe falar de outra pessoa, um aviso, um alerta”. Talvez o sonho fosse pra falar de mim. Frágil, perdida na estrada, estranha, sem querer voltar. Um dia não voltarei, mas estou aqui. Acho que meu medo de sair do chão, de um lugar seguro, seja um medo de ser como meu pai, livre. Porque quem é livre, incomoda. Quem é livre, corre o risco. E eu gosto de ser terra, os pés fincados, uma índia colonizada pelo medo.
Hoje à noite, durante o sono, se eu encontrar meu pai, vou dizer que foi bonita sua ousadia e pedirei perdão por não tê-lo seguido nas travessias, ou, pelo menos, por não ter aceitado seu jeito de ser. Mesmo que esse jeito atormentasse seu equilíbrio, por vezes, era esse seu destino. Se eu encontrar meu pai nos meus sonhos essa noite, vou dizer que valeu a pena sonhar, que valeu a pena viver. Que suas filhas estão aqui, seu amor está aqui, e se às vezes fomos tristes, foi porque a vida quis assim: vida, vida, noves fora zero. A conta fechou, papai. Família é isso.
E se não era ele no meu sonho? E se foi um aviso? Eu digo: se hoje à noite eu encontrar a mim mesma, poderei dizer que valeu a pena o medo, Iara, valeu sim. Porque o medo é coisa incompreensível, mas é o medo que salva as pessoas sem limites. E a vida real não é como os sonhos, voar sem voltar significa não viver. Se eu pudesse escolher ser pássaro, eu seria como no dia em que sonhei que pulava tão feliz, tão leve, que comecei a voar, numa velocidade ainda não imaginada. Eu voava pelo céu de Currais Novos até chegar onde o vento fazia a curva. Eu voava como quem nadava. Nesse dia, encontrei Iara. Foi tão bom.

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