DEMOCRACIA

Operação fura-fila: vereador acusado de chefiar esquema tinha senha do sistema e empregou até a mãe como “fantasma”

O vereador de Parnamirim Diogo Rodrigues da Silva (PSD), preso nesta terça-feira (20) suspeito de chefiar um esquema de corrupção que fraudava o sistema de regulação de exames e consultas pelo Sistema Único de Saúde, empregava parentes como servidores fantasmas em municípios e recolhia os salários assim que o dinheiro caía na conta. A informação foi repassada pelos promotores de Justiça responsáveis pela operação Fura-fila, deflagrada na manhã de hoje em 10 cidades do Rio Grande do Norte e São Paulo.

Em coletiva de imprensa, os investigadores detalharam o esquema e citaram a mãe e uma concunhada de Diogo como familiares dele usados no esquema. O parlamentar chegou a receber a senha do sistema SIGUS e tinha total autonomia para incluir quem desejasse e no lugar da fila que escolhesse. Conversaram com os jornalistas os promotores de Justiça Fausto França, Rafael Galvão, Kalina Filgueira, Luciana Maciel e Sérgio Gouveia:

– A mãe conseguiu cargos e uma concunhada também, esses eram os familiares mais próximos. E não trabalhavam. Identificou-se que assim que o dinheiro caía o Diogo já sacava os valores”, disse o promotor Sergio Gouveia.

O líder da organização criminosa denunciada pelo MP também recebia propina de gestores das prefeituras que aceitaram entrar no plano. Amigos e parentes de políticos eram beneficiados passando na frente de pacientes comuns que aguardavam o lugar na fila. Ele manteve um contato estreito com secretários de saúde e de assistência social de pelo menos cinco municípios, todos afastados dos cargos a pedido do MP por, pelo menos, seis meses.

Mandados de prisão e apreensão material foram cumpridos em 10 municípios do RN e em São Paulo / foto: cedida

Também por recomendação do MP, a Justiça estadual bloqueou R$ 107 mil de Diogo Rodrigues. As propinas eram pagas pelos gestores, em troca de lugares na fila:

“Diogo era conhecido como a pessoa que fazia a fila andar”, destacou Rafael Galvão.

Além dele, outras duas pessoas foram presas: Monikely Nunes Santos, mulher do vereador; e Bruno Medeiros, ex-sócio da empresa Medeiros e Rocha LTDA, que operava o sistema SIGUS, utilizado em todo o Rio Grande do Norte. No entanto, nesta primeira fase das investigações, apenas 9 municípios foram alvo do inquérito: Parnamirim, Mossoró, Caicó, Monte Alegre, Areia Branca, Brejinho, Frutuoso Gomes, Rafael Godeiro e Passa e Fica.

Só a análise dos documentos apreendidos na operação vão dizer se há outros municípios atuando de forma ilegal, adiantaram os investigadores.

“O caldo vai engrossar e vou precisar de gás”, disse Diogo a deputado Souza Neto em mensagem

Deputado estadual Souza Neto, do PSB, foi um dos alvos da operação Fura-fila / foto: Eduardo Maia

Outro personagem importante no esquema, segundo os promotores, era o deputado estadual Souza Neto (PSB), que indicou vários nomes a Diogo de pessoas que deveriam passar a ser prioritárias nas filas de exames e consultas.

– O deputado utilizava esquema do Diogo para os fins mais variados possíveis, para furar a fila do SUS. Era amigo de político, parente. Por isso não teve foro considerado pelo Tribunal de Justiça”, disse o promotor Fausto França.

Em uma conversa por aplicativo de mensagens no dia 18 de fevereiro de 2020, Diogo reforçou com Souza sobre uma possível blindagem contra a investigação do MPRN: “O caldo vai engrossar e vou precisar de gás”, escreveu o vereador ao deputado, sugerindo que estaria envolvido em alguma situação difícil ou complicada e que precisaria da ajuda da Assembleia Legislativa do RN.

Uma das formas dos promotores chegarem aos envolvidos no esquema foi através da interceptação de mensagens. Só com a secretária municipal de Saúde de Brejinho, Gleicy da Silva Pessoa, Diogo Rodrigues teria trocado 8.006 mensagens.

Os promotores revelaram ainda que o esquema contava com a parceria de um médico, que não prestava integralmente o serviço, mas ajudava Diogo Rodrigues a fraudar o sistema. Esse médico, no entanto, morreu no decorrer do processo e, em razão disso, não teve o pedido de prisão pedido nem o nome revelado no inquérito.

Acusado de chefiar o esquema tinha a senha do sistema

Diogo Rodrigues é vereador em Parnamirim e tinha acesso ao sistema por meio de senha repassada pelo dono da empresa / foto: cedida

Uma das informações mais relevantes no inquérito era a relação próxima entre Diogo Rodrigues e o empresário Bruno Medeiros, que operava o sistema SIGUR. De acordo com os promotores, Diogo chegou a receber a senha do sistema para ele mesmo incluir na fila por exames ou consultas as pessoas que desejasse.

Antes de se eleger vereador em 2020, Diogo Rodrigues dirigiu a central de regulação de consultas e exames de Parnamirim, na administração do atual prefeito Roseno Taveira (PRB).

– As pessoas de Parnamirim procuravam Diogo e ele atendia essas pessoas. Ele conseguia a senha do sistema e atendia. Como forma de favorecimento político. Ele vendeu esse serviço e ofereceu aos municípios essa facilidade. Para os gestores de outros municípios porque ele tinha essa solução de fazer a fila andar”, afirmou

Empresário preso na operação ameaçou apagar dados de pacientes do RN caso valor do contrato não fosse reajustado

O Ministério Público convidou os secretários municipal de Saúde George Antunes e o estadual Cipriano Maia para participar da entrevista coletiva. Maia explicou que o SIGUS é um sistema utilizado pelo Governo do Estado e que abrange todo o Rio Grande do Norte.

E revelou que chegou a ser ameaçado pelo empresário Bruno Medeiros, preso na operação Fura-fila, quando rejeitou uma proposta para reajustar o contrato entre a empresa e o Estado.

– O empresário tentou inflacionar o contrato em quase quatro vezes e dissemos que só aceitávamos reajustar a partir da inflação. E ele ameaçou suspender o serviço em todo o Estado”, disse o titular da Sesap.

Os promotores não souberam informar quantas prefeituras do Rio Grande do Norte mantém contratos com a empresa Medeiros e Rocha LTDA para aquisição do sistema SIGUS. De forma específica, até o momento, o MP tem ciência de 9 prefeituras, mas o dano é sentido em todo o Estado.

 

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"