OPINIÃO

Oração para os corações desesperados

Cheguei em casa quase meia-noite. Tinha sono, frio e fome, como qualquer cidadão médio do Brasil. Bem, posso comer e capotar de vez na cama. Mas, espera, tem gente lá fora tomando chuva. Chove há uma semana nesta cidade. Amanhã quando ligar a TV, os meteorologistas dirão que choveu o esperado para o mês todo. Chuva, fome, frio e desamparo. É meia-noite e vinte e eu me desespero pela primeira vez.

A cabeça dói. Mas dói mesmo ou só está trabalhando demais? Melhor não arriscar, já li sobre pessoas que tiveram mal súbito aos vinte e poucos. Cadê o celular? Preciso de ajuda. O calendário só diz que já é maio, nada diz sobre mim. Mas como assim, o ano já vai acabar? É uma da manhã e me desespero pela segunda vez.

Eu devia dormir, esquecer os derrames imaginários, as penúrias do mundo e o noticiário meteorológico. Que eu durma o suficiente para ter sonhos inventivos e descolados da realidade. Há dias que não sonho. Acho que tenho uma peça quebrada na cabeça. Já não tenho mais sono. Já não tenho fome. Só esse desespero.

Se nada fizermos, em breve os desesperados serão maioria no mundo. Além de causas clássicas como dívidas, violência urbana e doenças, os cientistas já relacionam a síndrome do desespero com a exposição frequente da felicidade alheia em ferramentas como Instagram e Facebook. “Todo mundo é feliz e bonito? Não é possível!” É o que lamentam os mais aflitos.

Não vou esperar até encontrarem uma cura. Farei uma oração. Uma oração por mim e por todos os corações desesperados. E eu que nunca soube rezar, salvarei a estirpe dos desolados. Faço uma reza contida, abafada pelo barulho da chuva. Abro a janela e um vento frio enche a sala, vasculha os cantos, como se procurasse algo, como se buscasse alguém. São três da manhã e já não tenho mais desespero. É incrível, chega um momento em que fica tudo bem. Já disse a canção.

Logo mais, os desesperados sairão às ruas novamente. Nos jornais, os especialistas dirão que essa gente de coração carregado já se angustiou em um dia o esperado para o mês todo.

 

Leia outros textos de Ana Clara Dantas:

Dor crônica

Você precisa saber

A espiral do silêncio

Artigo anteriorPróximo artigo
Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

1 Comment

  1. Pingback: 56, via Costeira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *