OPINIÃO

Orelha de Pau

Boa parte da quebra do jejum matinal do globo terrestre se dá a partir do consumo de carboidratos. Isso não é lá um segredo para ninguém. Pão de trigo, de centeio ou de cevada por toda Europa, norte da África e oriente médio. Bolinhos à base de arroz de tudo que é textura e gosto tomam conta de parte considerável do oriente.

Atravessando o atlântico norte, apesar da consensual mistura proteica do bacon com ovos que por sua vez é uma herança dos breakfast’s britânicos, o estadunidense consome em seu café da manhã o waflle e a famosa panqueca com melado. A título de curiosidade, “panqueca” vem de “pancake” que literalmente significa bolo (cake) de panela (pan).

Até pensei em fazer um juízo sobre a nutrição do café da manhã dos EUA, mas depois lembrei da quantidade de picado, sarapatel e buchada que já comi de manhã ao longo da vida e desisti do passamento. Portanto, voltemos aos carboidratos matinais.

Por aqui, comemos bolos, pães, tapiocas, e toda sorte de biscoitos, broas e bolachas. Do tareco ao cocorote. Em quase todo o território nacional os indígenas comiam o beiju, de várias formas de preparo.

Carboidrato quando quebrado por nossos sucos gástricos, viram açúcar e por consequência energia. A sabedoria nutritiva humana não deve ser desprezada. Mesmo sem o conhecimento científico, sempre soubemos que aquilo nos “enchia” e nos dava a força necessária para aguentar o dia.

Aqui em nossa província do Potengi adaptamos, como quase tudo que comemos, esse movimento energético subjetivo de forma muito interessante. A “urêa de pau” faz parte de nosso cotidiano. A bem da verdade com vários nomes, tipos e formatos.

Orelha de pau, de padre, de velho, da vovó, beira seca, bolo de caco, chapéu de couro, e na periferia de Mossoró algumas famílias a chamam de picanha. Já explico a tese de Marcos sobre essa última nomenclatura.

Fato é que não existe uma receita específica para essa preparação, o único consenso é seu formato em disco e a forma de como é frita no óleo em frigideira quente. O que torna especial a “urêa de pau” é que ela simboliza, digamos, uma ideia que alimenta.

Descobri esses tempos que o seu nome se deve à sua aparência com o Pycnoporus sanguineus – urupê, ou orelha de pau – fungo responsável pela decomposição de troncos caídos, que é endêmico no Brasil, principalmente na região nordeste. Há registros de seu emprego na medicina tradicional do gentil brasileiro. De fato, o fungo é muito, muito, mas muito parecido com os discos dourados que comemos em nossos cafés e merendas.

A orelha de pau é uma comida que, acredito, tenha sido desenvolvida em período de escassez e depois adaptada e incrementada para virar guloseima. E essa escassez pode ser a explicação, segundo Marcos, do nome ‘picanha’ adotado em Mossoró. Ele pensa que algum gaiato quis fazer uma piada sobre a substituição da carne mais nobre no imaginário popular pela preparação mais rústica e dependendo do tempo, apática.

“Urêa de pau” é um convite para um bom café e uma ótima companhia (foto: Max Medeiros)

Apesar de ser basicamente água, farinha e açúcar ou sal, há diversas variantes: com ovos, bananas, leite, canela etc. Ou mesmo com farinha de milho no lugar da farinha de trigo. Já o pessoal mais ‘prafrentex’ coloca aveia e outras fibras para a deixá-la mais fit. Tentei resgatar na minha memória qual havia sido minha primeira experiência gustativa com as “ureias de pau”. Dona Teresinha, avó de dois amigos de infância, morava no caminho da escola que eu estudava quando eu era criança, na rua Machado de Assis, e era a responsável pelo meu fastio na hora do almoço. Mamãe nunca soube disso, mas me empanturrava de ureia de pau de Dona Teresinha antes de chegar em casa.

Modo de preparo

Nunca foi uma coisa que eu fiz, mas sempre que tenho oportunidade eu me lasco de comê-las, e para a minha sorte minha anfitriã de quarentena é uma “ureieira” de mão cheia. E agora compartilho com vocês uma das 10 formas que Fernanda faz a ureia de pau, que por sinal é a minha favorita.

Vou dar as proporções para 8 disquinhos: uma xícara de farinha de trigo, meia xicara de cuscuz seco, um ovo, uma colher de chá de sal, duas colheres de sopa de açúcar e meio copo americano de água.

Mistura tudo em um refratário adequado, ou seja, qualquer um que você tenha em casa à disposição. O ponto da massa lembra bastante a da panqueca. Em uma frigideira, coloque uma colher de chá de óleo vegetal (para cada disco). O segredo mora na temperatura da frigideira, que precisa estar muito quente. O ponto é a cor, dourada em ambos os lados.

Por favor, faça um bom café para acompanhar, por que “ureia de pau’ casa bem demais com café, e café casa com companhia. A alquimia da comida é o amor por compartilhar sorrisos que alimentam o bucho e alma. Nada melhor para começar bem o dia.

 

 

 

 

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