OPINIÃO

Os abraços interrompidos

Eu pensei em escrever o texto dessa semana sobre os intestinos do despresidente, que ora funcionam, ora não, o levando a se internar e fazer o mimimi que tanto condena nos outros. Também comecei a rabiscar texto sobre o bolsonarismo em estado de tensão no Rio Grande do Norte, com Fábio Farias, Rogério Marinho e outros nomes menos ilustres se digladiando politicamente em busca de espaço ou de sobrevivência política em 2022. Mas uma cena que testemunhei por acaso me levou a deixar para semana que vem as análises políticas tão frequentes neste espaço e me deter sobre devaneios mais, digamos, poéticos.

No sábado eu estava em uma lanchonete esperando minha panqueca de carne quando percebi na mesa ao lado um rapaz, de não mais de vinte e cinco anos. Não bebia nem comia nada, estava de máscara. De repente, entra no ambiente uma moça, de igual idade, exuberante em sua beleza, como a Monica Belucci em “Malena”, e se aproxima do rapaz, que, como a esperava, se levanta educadamente. Quando pensei, e todos na lanchonete, que iam se abraçar, ele se retraiu. Ela fez o mesmo, os corpos se afastaram um pouco e ela disse: “Hoje a gente não sabe se pode abraçar ou não”. O rapaz pareceu sorrir e estendeu a mão com o punho fechado, no que ela cerrou a mão e o cumprimentou, como pedem estes tempos atuais ainda pandêmicos. Em seguida ela se sentou à frente dele e eu deixei de ser indiscreto e me voltei para meus escritos e para a panqueca que chegava à mesa.

Pessoalmente, passei por essa situação algumas vezes nos últimos tempos. Quando encontrei algumas pessoas queridas, fiz menção do abraço no que fui rechaçado. “Sem abraços, olha o vírus”. Outras vezes, o contrário: Estendi a mão fechada, como manda o figurino sanitário, e a outra pessoa: “Deixa disso e me dê aqui um abraço!”.

Desde que começou a pandemia e em sequência a necessidade de confinamento, a tensão e as regras sanitárias, que os afetos têm sido duramente atingidos. Em universos onde as pessoas são mais expansivas, a mudança de comportamento é visível, mais que isso, gritante. Como no Beco da Lama e adjacência, lugar que frequento, onde as pessoas se abraçam como não se existisse amanhã e são extremamente sinestésicas, para usar uma das palavras da moda. Hoje, os encontros “bequianos” com as auto restrições tem um quê de interrupção, de decepção, como se não estivessem realmente acontecendo.

A pandemia afetou tanto os afetos físicos como os emocionais. Antes do vírus, mesmo situações sem contato físico eram desenvolvidas de maneira, digamos ainda, externa. Fosse numa admiração platônica, em um contato de longe, na presença onde outra(s) pessoa(s) estivesse, na simples saída para um bar “para desopilar” ou para “ver gente”. Perdemos parte disso durante este ano e meio.

Interrompemos os abraços, que nos foram interditados, salvo em riscos que assumimos contrariando o bom senso e as recomendações. Também interrompemos afetos de diversas maneiras, casais que moram em cidades diferentes que tiveram a pandemia como um fosso medieval. Turmas e confrarias que se viam com frequência e que tiveram a dinâmica esfriada pela necessidade de não aglomerar. Tudo bem que a tecnologia ajudou a dar uma sensação de distâncias diminuídas, mas papos por vídeos e reuniões pelo zoom não são a mesma coisa do olho no olho, do brinde com amigos, de um cheiro no cangote ou flerte com a pessoa simpática da mesa ao lado.

Com a vacinação adiantando sonhamos com um pós-pandemia, um novo-normal, louvado por uns e rechaçado por outros. Esperemos. Por ora, recolhemos os casos do que nos foi quebrado ou interrompido. Que o casal da lanchonete, que não sei se ficantes, paqueras, amigos, colegas, possa em breve se abraçar, sem medos, sem máscaras, sem pensar nos riscos e se o álcool em gel está lá na mesa.

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