OPINIÃO

Os dias de cão acabaram? Não, mas isso não é algo ruim

João Victor escreve aos sábados

Uma vez li um artigo, maravilhoso,  de Eliane Brum que falava da geração que foi ensinada que a felicidade era um caminho obrigatório, onde as frustrações não faziam parte da construção de uma vida plena. Nossos pais, para garantir proteção sempre, estimularam a ideia de que a vida seria menos cruel conosco do que fora com eles  e que cumprida algumas etapas, as benesses seriam sem fim. Não é bem assim, ainda bem.

A geração nascida nos anos 90, que hoje tem entre 18 e 27 anos, não enfrentou a hiperinflação, as crises cambiais, a ditadura militar ou qualquer tensão nuclear entre superpotências ideologicamente opostas. Isso é ótimo. Cada tempo com seus marcos, certo?

Crescemos, na medida do possível, sob o signo da estabilidade política e econômica. Mesmo sem ninguém ter desafiado os interesses do topo, tivemos acesso ao consumo, a um número maior de vagas no ensino superior, a formas mais eficientes de comunicação e a tecnologia simplificou processos. No meio disso, cresceu junto a  defesa de pautas identitárias, de gênero e um culto à diferença.

Também se levantaram vozes na tentativa de calar essa onda de mudança nos costumes, ao mesmo tempo que uma educação para o respeito à diversidade passou a ser ainda mais demandada. Obviamente, não foram os nascidos nos 90 que inventaram tudo isso, seguimos apenas o curso de uma história onde a “tradição” é se opor aos ideais conservadores, acreditando na evolução das relações.

Acabamos, no meio dessa onda positiva, criando sobre todos nós uma expectativa  naturalmente exagerada pelos resultados. Passamos a  querer cada vez mais garantias de sucesso absoluto, mas ainda não lidamos muito bem com a rejeição e a frustração das nossas ideias. Louvamos o sucesso, ao passo que temos dificuldade para aceitar o processo até chegar nele. Cresceu junto com a gente uma ansiedade pelo futuro que não chega. Adoecemos juntos.

Em linhas gerais, os últimos anos, foram os primeiros que essa geração noventista, agora jovem adulta, começou a confrontar aspectos não tão gloriosos das complexidades cotidianas. Um discurso de ódio  que tenta se apoderar da política e dos indivíduos, os golpes, ameaças globais e o revés econômico.

O desemprego entre jovens é o maior dos últimos 27 anos, um em cada quatro está sem trabalho no Brasil. Temos, por conta de crise econômica, uma legião de recém-formados que não conseguem colocação nas suas áreas, e o suicídio já é quarta causa de morte entre pessoas dessa faixa etária. Sem máscaras, ou afagos que escondam o pior dos nossos olhos, fomos tragados para a realidade que sempre estava longe no horizonte, mas que agora anda ao lado.

Aprender a lidar com as frustrações de momento pode fazer com que essa geração alcance uma nova consciência sobre si, amadureça, entenda seus limites e não deixe de cultivar seus sonhos, talvez aprenda que eles podem ter um ou outro desvio por conta dos trajetos naturais da vida. Definitivamente, não será uma estrada em linha reta.

Não estamos numa disputa com aqueles que enfrentam o mesmo, mas num processo agressivo de autoconhecimento, onde nossas verdades amam o conflito e nossas crises nos levam a um novo entendimento sobre a vida. Passei a tentar não ser tão agressivo com o momento que vivo, isso a partir de uma crise de identidade que tive aos 25. Parece algo bobo ter crise aos 25, mas elas existem.  Olhei em perspectiva o processo que vivia e como era ridículo me forçar a ter garantias numa idade em que estava ainda tentando figurar como entender a minha própria cabeça. O que ainda sigo tentando fazer.

Precisamos ser menos agressivos quando não atingimos aquilo que dizem que deveríamos ser, enquanto tentamos ser mais conscientes daquilo que somos agora.  Meu maior desejo para 2018.

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Jornalista e militante de direitos humanos