OPINIÃO

Os filhos do golpe

O historiador Durval Muniz escreve aos domingos na agência Saiba Mais

Quarta-feira passada. Meu primeiro dia de férias. Preciso atravessar a cidade para resolver questões particulares, no bairro de Petrópolis. Pouco depois do shopping Midway Mall, o trânsito na avenida Salgado Filho, praticamente para. Metade da pista está tomada por uma manifestação de servidores da saúde do Estado, que reivindicam o pagamento de seus salários atrasados. Vejo enfermeiras e médicos, vestidos com suas roupas brancas, seguindo bandeiras vermelhas de sindicatos e centrais sindicais, portando uma faixa onde cobram seus direitos conspurcados por um governo incompetente. Lembro então que, há menos de dois anos, os profissionais médicos se reuniram em frente ao mesmo shopping center, para iniciarem uma passeata a favor do impeachment da presidente de Dilma Rousseff. Lembro que os homens e mulheres de branco e verde-amarelo não queriam saber das bandeiras vermelhas dos mortadelas, símbolos da esquerda e dos governos petistas.

No retorno para casa, vim pela avenida Prudente de Morais. Desde a Praça Cívica, praticamente em cada esquina, mulheres jovens e velhas, acompanhadas de crianças pedem auxílio a quem passa de carro. Nas imediações da loja da Tim, uma família inteira se reúne em torno de um colchão, colocado no canteiro central da avenida. Cenas que não víamos nessa cidade, há praticamente dez anos, voltam a desfilar sob os nossos olhos incrédulos. Diante de uma senhora, que parecia ser avó de duas crianças, que mal os carros pararam no sinal, correram para entre os carros, para pedir, podendo ter sido atropeladas, me veio inicialmente uma indignação: como uma avó poderia usar assim suas netas para pedir? Imediatamente o discurso classe média vem a nossa cabeça: mas essa senhora não podia estar trabalhando, ao invés de estar pedindo e explorando crianças! Mas em seguida começo a me perguntar: De onde, de repente, saíram essas pessoas, que não víamos, há anos, em nossas esquinas? Por que, cenas que não víamos há muito tempo, estão se generalizando, em cada esquina, na cidade? O que aconteceu para que tanta gente volte aos sinais para pedir, para vender todo tipo de bugiganga, para limpar para-brisas?

Essas mães e avós, que aparecem agora com suas crianças, para pedir um auxílio, são, possivelmente, algumas de milhares de famílias que foram desligadas do Bolsa Família, desde que o golpe aconteceu e o governo golpista iniciou o desmonte dos programas sociais. As crianças, que antes estavam na escola, obedecendo uma das condicionalidades para receber o benefício do governo federal, que lá estavam comendo merenda e tendo um mínimo de acesso a educação, estão agora nas ruas servindo de argumento para o pedido de ajuda. Daqui há alguns anos, muitas delas, só terão como alternativa de vida o mundo do crime.  Serão então encarceradas, violentadas, e não terão direito sequer aos direitos humanos, por serem “meliantes”.  A violência que é uma criança passar o dia sob o sol quente, se alimentando mal, passando sede, ameaçada de ser atropelada, exercendo a humilhante tarefa de esmolar, não será lembrada na hora que devolver para a sociedade, em forma de violência, rancor e raiva, tudo o que está sofrendo ainda tão pequena.

Para a minha pergunta classe média, por que essas pessoas não estão trabalhando?, a resposta é óbvia: simplesmente porque não existe emprego, não existe trabalho para pessoas como elas. A seca no interior do estado, com a redução das políticas sociais, que vinham mantendo as pessoas em seu lugar de origem, mesmo depois de cinco ano de estiagem, começa a provocar o êxodo rural e, até mesmo das cidades pequenas para a capital. Com a promessa de no próximo ano (segundo o orçamento que foi enviado pelo governo golpista ao Congresso Nacional) se reduzir ainda mais os recursos para o atendimento às populações atingidas pela seca, podemos ver nas capitais acontecer cenas que há muitos anos, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, não se via: invasões de cidades, saques, famílias inteiras morrendo de fome perambulando pelas ruas. Aquela família e seu colchão de casal colocado sob uma árvore no canteiro da av. Prudente de Morais pode ser apenas umas das primeiras a chegar e instalar publicamente a sua miséria nas artérias da cidade.

Nesse momento lembrei de uma imagem tão distinta, que presenciei logo que cheguei a Natal, no ano de 2004, no bairro da Praia do Meio. Um grupo de crianças, todas vestidas com as camisetas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, passavam em conversas animadas em frente ao prédio onde eu morava, indo em direção a uma escola pública ali perto. Meninos que, antes, perturbavam cada comensal de restaurante ou bar por uma sobra de comida, que suplicavam para que alguém os deixassem engraxar seus sapatos com suas caixinhas toscas e precárias, que comumente eram escorraçados pelos proprietários das casas comerciais como cães que tivessem entrado pela porta da igreja, iam todas alegres em busca da educação. Lembro que, durante o governo FHC, não consegui almoçar num restaurante que ficava próximo à Lagoa Solón de Lucena, em João Pessoa, constrangido pela quantidade de crianças a me pedir um pouco da minha comida. Cenas que nunca mais haviam acontecido e que retornarão com força, graças a um golpe que desmoralizou as instituições e levou ao poder um governo ilegítimo para aplicar uma política económica, para tomar decisões que não foram referendadas nas urnas e que só atendem os interesses do capital estrangeiro e nacional.

Decorridos quase dois anos que tomaram de assalto o poder (e assalto aqui não é uma mera figura de linguagem), os golpistas vêm desmontando pedra por pedra um projeto de afirmação nacional que se veio estruturando, na última década. Seu intento claro é, seguindo os interesses internacionais, notadamente norte-americano, destruir qualquer possibilidade de um desenvolvimento minimamente autônomo do país. Nesse final de ano, acelera-se o leilão de nossas principais empresas e de nossas riquezas. A mudança da legislação trabalhista leva milhares de pessoas a serem demitidas e/ou assumir condições de trabalho bastante precárias. A renda cai vertiginosamente, as distâncias sociais voltam a se aprofundar, milhares de famílias voltam para a pobreza absoluta. E eles continuam, na maior cara de pau, a querer nos convencer que foi o governo Dilma, que foram os governos do PT que nos deixou essa herança quando, cinicamente, tratam de desmontar a verdadeira herança deixada pelos governos petistas. As elites brasileiras, umas das mais mesquinhas e tacanhas do mundo, assiste ao desmonte do país, das políticas públicas, ao empobrecimento generalizado da população, sem esboçar qualquer crítica ou reação. Assistem, com prazer cínico, o futuro do país ser definitivamente posto em perigo. Participam com entusiasmo da adoção de medidas regressivas, reacionárias e que, com o passar do tempo, serão um desastre para elas mesmas.   Em nome do atendimento de seus interesses mais imediatos e mesquinhos se penhora o futuro do país e, portanto, delas mesmas. O caráter predatório de nossas classes dirigentes nunca ficou tão patente.

Nesse mesmo dia, quando ia saindo de meu prédio, fui alertado pelo porteiro que não deveria sair, que não era seguro, pois a polícia estaria em greve e a cidade entregue aos bandidos. Embora o que presenciei de anormal na cidade fosse o crescimento assustador e ostensivo da miséria, boatos davam conta de arrastões por toda parte, do comércio do bairro do Alecrim ter fechado as portas depois que um arrastão saqueou lojas e supermercados. Fiquei pensando o que era esse país há três anos atrás. A esperança que quase todo mundo tinha de comprar sua casa própria, de ter o seu carro, de atender às suas necessidades de consumo, de ter um emprego melhor, de melhorar de vida. A diferença entre o Natal de 2014 e o Natal desse ano é abissal. A sensação é que saímos de um país minimamente organizado, para viver na insegurança e no caos. Toda e qualquer perspectiva de futuro se fechou. O crescimento da violência e da criminalidade na cidade é visível. Ninguém morre de fome em pé sem fazer nada, sem tomar uma atitude. Uns tentam, inicialmente, usar o pouco dinheiro que têm para comprar alguma coisa para vender no sinal. Outros passam a vender até a si mesmos, no mercado do sexo, como forma de viver. Outros, já sem nada, sem nenhuma alternativa, nem mesmo a da prostituição, se tornam pedintes. Outros, atraídos pelo dinheiro fácil, revoltados, buscando evitar a humilhação de se vender ou de pedir, enveredam pela criminalidade. Não se combate o crime sem combater a pobreza. O crime nunca acabará completamente, mas não terá essa amplitude se se investir em políticas sociais. O que temos no poder é um desgoverno fascistoide que atira milhares de pessoas na miséria, ao mesmo tempo que propõe liberar o uso de armas e antecipar a maioridade penal. O sistema carcerário que já é um monstrengo falido, vai inchar até explodir. Rebeliões acontecerão com cada vez maior frequência, o que já não acontece porque, na verdade, embora juridicamente a pena de morte não exista no Brasil, ela é aplicada todos os dias, dentro e fora das cadeias. Se os milhares de miseráveis, pobres e pretos que são assassinados pelas forças policiais e por seus companheiros de crime, todos os dias, fossem parar no sistema prisional ele já teria explodido há muito tempo.

Estamos vendo sair às ruas os filhos do golpe. Cada vez mais miseráveis, pedintes, sem moradia, sem trabalho, sem educação, sem saúde, passarão a desfilar sob nossos olhos. Cada vez mais assustados sairemos de casa. Em cada esquina, um ambulante, uma prostituta, um pedinte, um assaltante, uma criança queimada pelo sol, com sede, com fome, catarrenta, a nos estender as mãos. Esse é o país que aqueles que foram as ruas pedir o golpe sonhavam. Eles não suportavam ver essa gente nos restaurantes, nos aeroportos, nas praias, nas lojas, nos supermercados. Os coxinhas conseguiram fazer o país retornar a ser o que sempre sonharam: uma colônia, governada pelos filhos da casa-grande, servidos por uma reca de serviçais, a quem podem espezinhar e humilhar, sempre que queiram. Talvez as madames assistam embevecidas a volta das empregadas que dormem no serviço, servem ao marido até na cama e recebem um salário de fome e as migalhas que lhe são atiradas como bondades e favores. Os médicos, revoltados com seu processo de proletarização, reativos a mudanças, vêm sua situação piorar a ponto de ter que fazer passeata para receber o salário. Os policiais rodoviários federais felizes com a conquista de não terem dinheiro nem para abrir os postos nas estradas. Os funcionários públicos que pularam de satisfação com o impeachment tendo que entrar na justiça para não terem seu salário reduzido (porque aumento talvez só daqui há vinte anos). Eles que cedo esqueceram os aumentos salariais de até 67‰ que o governo mortadela os deu.

Com certeza, muitos, até para ficarem com suas consciências tranquilas, procurarão transferir as responsabilidades para os próprios filhos do golpe. São eles que são preguiçosos, não querem trabalhar, queriam viver de favor do governo, se acomodaram com as políticas sociais, falta a eles mérito, são exploradores de suas crianças, estão nas ruas porque bebem tudo o que ganham, não são tementes a Deus, etc, etc, etc. Aqueles que não têm minimamente uma visão social do que está acontecendo continuarão a culpar os pobres por sua própria pobreza. Embora tenham contado na vida, desde o nascimento, com uma séria de privilégios e randcaps, até mesmo físicos e intelectuais (por não terem passado fome desde a concepção), muita gente das classes médias acham que a pobreza não tem elementos estruturais e sociais determinantes, tendem a culpabilizar os indivíduos pobres por sua miséria. Agora, quando muitos, são cúmplices do golpe que infelicita o país e que promove o crescimento da miséria que estamos vendo (só fica cego quem não quer ver), esse tipo de justificativa de avestruz será o mais comum. O promotor do golpe ou vai tentar dizer que não sãos os golpistas os culpados da debacle do país, mas os golpeados, ou vão tentar transferir a responsabilidade para quem é vítima do processo. Em nome do combate a corrupção se apoiou um golpe que levou os maiores corruptos do país ao poder, para lá retirarem os poucos direitos adquiridos pela população, após décadas de lutas. Até o direito ao voto livre está sendo ameaçado. Manobras tentam evitar que, uma vez a esquerda chegando novamente ao poder, possa desfazer as políticas elitistas e antinacionais postas em prática pelos golpistas.

Talvez, a maioria dos transeuntes sequer preste atenção nessa presença ostensiva da miséria pelas ruas da cidade. A miséria é completamente naturalizada em nossa sociedade. Estamos acostumados a ver pedintes, a ver pessoas vivendo em barracos insalubres, em ver alguém catando o lixo para comer. Para muitos de nós, das classes médias e das classes abastadas causa mais incômodo ver um negro no elevador social, em ver um pobre na fila do supermercado comprando iogurte, em ver um trabalhador entrando no avião, do que uma criança sendo usada para a mendicância. Nos incomoda mais uma doméstica ter os mesmos direitos que um trabalhador qualquer, do que ver alguém dormindo na rua. Somos uma sociedade capitalista que, no entanto, nunca eliminou completamente uma visão estamental do mundo, em que as pessoas nasceriam para ocupar determinados lugares sociais e deles não deveriam se afastar. Nossa sociedade possuiu uma baixa noção de cidadania, portanto tem dificuldade em ter uma visão social dos problemas, porque ainda nos pautamos pela lógica do privilégio. Isso nos leva a ter pouca sensibilidade diante dos problemas sociais, tendemos a individualizar, a culpar as vítimas de uma ordem social injusta por sua própria situação. As pessoas não terem o que comer, terem que morar nas ruas, terem que mendigar, nunca foi um escândalo, nem um incômodo em nossa sociedade. A indiferença diante da miséria explícita nasce de séculos de pobreza vista e vivida como natural.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos