ENTREVISTA

“Essa tal crise foi criada pelas grandes corporações de mídia”, critica Laura Capriglione, fundadora do Jornalistas Livres

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A crise no modelo de negócio do jornalismo tradicional foi criada pelas próprias corporações de mídia do país. Essa é a avaliação da jornalista Laura Capriglione, uma das fundadoras do coletivo Jornalistas Livres. Ela foi a convidada da quarta-feira (2), da semana “Manual de Sobrevivência da Mídia Independente e Alternativa” em comemoração aos 3 anos da agência Saiba Mais.

O Jornalistas Livres foi fundado há 5 anos e se mantém, até hoje, com o trabalho voluntário de centenas de profissionais espalhados pelo Brasil e outros países do mundo. Além dela, a conversa também contou com as contribuições do jornalista Willian Robson, fundador da Agência Moscow, sediada em Mossoró.

Laura conta que o projeto foi resultado do desespero de saber o que estava acontecendo no país, mas que não era noticiado:

“Eu lembro que dia 14 de março (2015) formamos os Jornalistas Livres e dois dias depois haveria uma mega manifestação que a direita convocou na Avenida Paulista. Como nós trabalhamos na mídia corporativa, a gente tinha muita informação do que estava acontecendo na grande imprensa. A Globo cancelou todas as folgas de todos os jornalistas das revistas, televisão e jornais pra cobrir os atos do fim de semana. A Folha começou a dar o serviço de como chegar aos atos, como se fosse o Rock in Rio. O clima era de campanha das Diretas Já, do impeachment do Collor. A gente pensou: a grande imprensa tá vindo aí pra passar o rodo!”, recorda.

Apesar da marca consolidada, nada nos Jornalistas Livres surgiu de forma planejada. O nome, as contribuições, tudo foi acontecendo de maneira espontânea:

Fizemos uma reunião com a participação de mais de 100 pessoas, eram profissionais dispostos a lutar pelo jornalismo de forma voluntária, foi uma grande surpresa. Dois dias depois, nós estávamos cobrindo as manifestações. Ninguém é pago, é tudo jornalismo colaborativo. Todo mundo achava que não ia durar um mês e já estamos com cinco, se tudo der certo, vamos durar mais 30”, avalia.

Uma das grandes novidades pra quem acompanhou os atos de 2015 pela internet foram as transmissões ao vivo:

“Mostramos torturador sendo homenageado como um herói do povo brasileiro, tinha 4 caminhões com pedidos de intervenção militar já. A Globo não mostrava isso, queria dizer que era uma manifestação pela democracia. O ao vivo foi importante porque trouxe muita credibilidade. Eu fiz uma transmissão na paulista que era uma sequência de bestiário, mas nada editado, tudo ao vivo. Era preciso mostrar o buraco negro cognitivo que o país estava entrando”.

William Robson, fundador da Agência Moscow, também contou um pouco da trajetória do canal, que hoje já conta com mais de dois mil inscritos. “A ideia surgiu num bar, que é onde surgem as melhores ideias. Eu estava bebendo com o Bruno Barreto, quando começamos a falar sobre criar algo no campo progressista. Nós sempre trabalhamos em mídias corporativas e, à princípio, pensamos em fazer um programa de rádio, depois em unificar os blogs e criar outros programas dentro da agência. Esporadicamente nós retransmitimos programas de outros grupos progressistas”, explicou o jornalista.

Os Jornalistas Livres é, também, um canal de reconhecimento de outras expressões e sotaques:

Eu gosto de dizer que nos anos 1990 a polícia de SP era muito pior do que hoje, matando nas periferias descaradamente. Quem denunciou isso não foi a grande imprensa, foram os Racionais MC’s através do rap. Uma vez uma menina do Pará queria publicar um cordel denunciando a questão indígena por lá e alguém disse que isso não era jornalismo, mas nós chegamos à conclusão de que se quisermos dar visibilidade à luta da população excluída, nós temos que incorporar essas novas expressões”, conta Laura.

E parece que essa nova mídia vem incomodando as grandes corporações. Capriglione lembrou que o Jornal Nacional chegou a pedir para que pessoas enviassem vídeos nas últimas eleições. Uma estética predominante na imprensa alternativa.

“No início a Globo criticava a gente, dizia que não era jornalismo, mas com o tempo ela passou a pedir às pessoas para mandar vídeo e até ensinavam como gravar. Começaram a incorporar a nossa estética da câmera suja, com pouca definição do celular. É um jeito muito mais leve e que se aproxima muito do alvo, porque nós não temos lente, você tem que estar no meio do acontecimento pra conseguir filmar. É uma diferença estética e existencial”, explica.

Em pouco mais de uma hora de conversa, as lições foram muitas:

“Isso levanta outros debates, como a “crise do jornalismo. Não acho que o jornalismo esteja em crise, talvez a crise esteja no modelo antigo de negócio que cheira a naftalina”, criticou Willian, antes de Capriglione emendar:

“Essa tal crise gerou uma oportunidade de explorar novos caminhos. Nesse ponto, acho que conseguimos reinventar o jornalismo. Porque não há concorrência entre a gente, há uma rede de colaboração”. Laura completou o raciocínio ao lembrar a falta de pluralidade nas abordagens da grande imprensa. “A crise foi criada pelas grandes corporações de mídia. Quando você tem a grande mídia das 6 famílias defendendo o mesmo ponto de vista, afinal eles são neoliberais, são contra a Dilma, contra o PT, a favor do Paulo Guedes… é uma monotonia absurda. Eles se condenaram… veja só, o Haddad que é o cara que foi derrotado, teve 45 milhões de votos e a grande imprensa não teve a coragem de ter um jornal que falasse com essas pessoas, que não votaram no Bolsonaro, não pactuam com o neoliberalismo e nem por isso são comunistas ou guerrilheiros”.

William também lembrou que o maior furo da imprensa brasileira dos últimos anos veio da mídia independente, com as matérias da Vaza Jato publicadas pelo The Intercept Brasil.

De que lado você está ? 

Pra fechar a conversa, a fundadora dos Jornalistas Livres falou sobre a suposta isenção dos veículos de imprensa.

“Nós assumimos que temos lado, como eles também têm. Nós estamos do lado da população pobre e oprimida que sempre foi violentada. Nosso compromisso é com a verdade, com a credibilidade e com os fundamentos do melhor jornalismo”.

Assista na íntegra a entrevista com a jornalista Laura Capriglione no canal do Youtube da agência Saiba Mais:

Programação

Pra conferir mais uma conversa bacana, não perca o encontro desta quinta (3) no “Manual de Sobrevivência da Mídia Independente e Alternativa”. As convidadas serão Kátia Brasil, da Amazônia Real, e Edna Ferreira, da Nossa Ciência. A transmissão acontece sempre a partir das 17h, no canal do youtube da agência Saiba Mais.

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