CULTURA

Os rastros de Edgar Morin por Natal passam por ostras, tapioca, UFRN, Ponta Negra e Forte dos Reis Magos

No último dia 8 de julho, o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin completou 100 anos. Nascido em 1921 em Paris, ele é tido como um dos maiores pensadores contemporâneos e testemunhou as grandes transformações do século 20.

Morin levantou a bandeira da “reforma do pensamento” e a sua obra se espalhou pelo mundo. Aqui no Rio Grande do Norte, seu pensamento criou raízes com a ajuda da professora titular do Centro de Educação da UFRN, Maria da Conceição de Almeida. Ela o acompanhou nas cinco visitas do sociólogo em terras potiguares. Nas lembranças dessas visitas, a professora o descreve como “Um homem encantador, sempre de bom humor e demonstrando uma juventude invejável. Um intelectual a quem incomoda o culto a sua personalidade”.

Nas passagens do sociólogo por Natal, há memórias de mergulho no mar de Ponta Negra, desejo de comer ostra, o sorvete de tapioca para refrescar o calor na visita ao Forte dos Reis Magos e de palestra que reuniu mais de 11 mil pessoas.

Sobre a importância da obra de Morin, Conceição Almeida resume:  “Soube ouvir os ares de um novo tempo das ciências e da filosofia”. A Agência Saiba Mais conversou com a professora sobre a importância da obra, pensamento e vida de Morin para os tempos atuais. Eis a íntegra da conversa:

Qual a importância do pensamento de Morin para um mundo cada vez mais acelerado e complexo como o atual?

O pensamento filosófico e científico  expressa sempre uma reflexão intelectual de dupla face. Por um lado depende da construção social e cultural de um tempo e da compreensão de fenômenos novos, emergentes; por outro se desprega das contingências  históricas para arquitetar metaprincípios e interpretações capazes de se reorganizarem de forma mais permanente, trans-históricas e universais. Podemos dizer que a história da ciência e da filosofia é a história da metamorfose do pensamento sobre o mundo, a vida, o homem e a sociedade. Longe, no entanto, de se restringir a uma metamorfose puramente intelectual, as transformações do pensamento científico são afetadas pelas transformações dos fenômenos – sejam eles físicos, naturais, sociais. É dessa perspectiva que podemos entender o nascimento das ciências da complexidade e, em particular, a importância  do pensamento de Edgar Morin.

Como sabemos, no ocidente, as chamadas “ciências modernas” sobretudo, a partir de Isaac Newton e Rene Descartes, se mostram insuficientes para compreender fenômenos novos que se apresentam de forma ambígua, incerta, impossível de mensurar com exatidão. Essa insuficiência ganha visibilidade a partir da primeira década dos anos de 1900 nas pesquisas da mecânica e física quânticas (com Niels Bohr e Werner Heisenberg), na biologia (com Henri Atlan) e outros cientistas-filósofos. Mas é a Gaston Bachelard, no livro O novo espírito científico (1934) a quem  Edgar Morin credita a emergência da semente do pensamento complexo e da ideia de complexidade.

Edgar Morin soube com curiosidade, intensidade e rigor ouvir os ares de um novo tempo das ciências e da filosofia.  Abrindo mão de uma formação convencional, ele se dedicou de forma incansável a transitar por domínios disciplinares diversos para, borrando as fronteiras da fragmentação, inaugurar um Método Complexo e Transdisciplinar capaz de religar as ciências da natureza às ciências da vida e às ciências do homem. Mas não só. Edgar Morin inaugura, por meio da “sociologia do presente”, uma estratégia de método complexo capaz de tratar dos fenômenos à medida que eles acontecem. Por isso é possível afirmar que o pensamento de Edgar se torna cada dia mais importante para compreender um mundo cada vez mais acelerado, interconectado e complexo como o atual. Num de seus últimos livros traduzidos no Brasil,  A aventura de O Método (2020), ele é enfático ao afirmar que em momentos de crise é ao pensamento complexo que se recorre para entender o que está acontecendo com o mundo.  “Como pude constatar em outras ocasiões, minhas ideias só despertam interesse em períodos de crise”. Ora, por entender que um mundo hiper-conectado sempre fará emergir policrises, é de se esperar que o pensamento complexo de Edgar Morin prefigure um pensamento com fluxo duradouro.

Há décadas, Morin nos empresta – sob forma de livros – toda a sua capacidade de reflexão sobre a importância da educação, da tolerância, da necessidade de auto-conhecimento. Por que as palavras dele não conseguem chegar à maioria?

É possível observar duas medidas de tempo se consideramos a disseminação das ideias oriundas das ciências exatas e técnicas e daquelas que se originam das ciências humanas e da filosofia. Enquanto as primeiras são mais pragmáticas e oferecem estratégias de aplicação imediata pela tecnologia, outras dessas ciências – como as humanidades e a filosofia – precisam de muito tempo para chegar às pessoas. Por outro lado a maioria da população fica fora dessa rede de disseminação das ideias científicas porque as instituições acadêmicas não mantêm laços permanentes de ligação com a sociedade.  São muitas as pessoas que não chegam às universidades e é preciso dizer que, mesmo nas universidades e escolas nem sempre todos têm conhecimento dos livros publicados por Edgar. Há ainda a fragmentação das áreas de especialidade e somente uma parte dos universitários conhecem suas ideias. Por vezes alguns de seus livros são lidos como sendo dedicados a física, ou a biologia, a sociologia, à epistemologia etc. Essa classificação de fato não corresponde ao conjunto da magnitude de uma obra que tenta religar dimensões da realidade que se mestiçam nos fenômenos complexos.

O próprio pensador em seu livro Meus filósofos cria as categorias de  “pensadores da ciência” e de “cientistas pensadores” para explicitar seu débito com pensadores que lhes ofereceram princípios para a edificação de seu método complexo e transdisciplinar. Em relação a compreensão do que seja a espécie humana, por exemplo, diz ele em A aventura de O Método que seu propósito é “ligar o homem biofísico e o homem psícocultural”, em outras palavras, é reduzir “o fosso entre animalidade e humanidade, natureza e cultura”.  Certamente esse horizonte de reflexão incomoda os intelectuais que se fecham em suas especialidades e mais ainda aqueles para os quais não há, nas ciências, lugar para manifestação de valores éticos e humanos como tolerância, solidariedade e a atitude de tolerância diante da diversidade de culturas e modos de viver.

Mesmo assim, podemos reconhecer aberturas significativas nas universidades, escolas e projetos sociais que exercitam os propósitos do pensamento complexo e uma ecologia das ideias marcadas pela ética da solidariedade e da religação dos saberes.  Exemplos dessas “ilhas” ou “oásis”  de complexidade são os inúmeros grupos de complexidade no Brasil e na América Latina – dentro e fora da estrutura acadêmica. Em Buenos Aires (Argentina) e em Valladolid (Espanha) duas importantes universidades se tornaram espaços institucionais dedicados a complexidade e transdisciplinaridade.  O Centro de Estudios Universitários ARCOS, em Puerto Vallarta, no México; a Escola SESC de Ensino Médio, no Rio de janeiro; as organizações não governamentais que têm como objetivo a defesa da diversidade étnica e cultural; entre outros espaços. Eu própria acompanhei Edgar Morin, a convite dele, em 2004, na cerimônia de Fundação da Multiversidad Mundo Real Edgar Morin, situada na cidade de Hermosilo, Estado de Sonora (México).

A senhora é reconhecidamente uma referência sobre o pensamento de Morin… Como se deu essa trajetória e, se puder, nos conte um pouco sobre como é estar próxima de uma pessoa como ele…

Além de inaugurar uma importante  e necessária reorganização do conhecimento, Edgar Morin inaugura de forma radical uma nova narrativa científica sobre o mundo. Digo de forma radical porque mesmo que pensadores como Montaigne, por exemplo, já se implique pessoalmente em seus Ensaios é Edgar, o artesão do pensamento complexo que, de maneira explícita em toda a sua obra opera uma hibridação incomum entre subjetividade e objetividade, entre vida e ideias. São fartos e detalhados os cenários afetivos e pessoais descritos por ele e que lhe alimentaram durante a escritura de cada livro. Repete ele muitas vezes que sem amor e amizade não teria empreendido sua obra. À julgar pelas referências feitas a amigos, parceiros e interlocutores em sua  obra, qualquer um de nós que tenha convivido com ele, de forma mais permanente ou circunstancial, pode desenhar  cenários singulares ao lado de um pensador que, a exemplo do Ulisses da Odisseia, pode se expressar como nativo em cada lugar por onde passa. O conjunto dessas várias expressões singulares faz dele um cidadão planetário, como às vezes se auto-denomina.

De minha parte compartilho parcialmente esses cenários entendendo-os como presentes do acaso da vida, circunstâncias que reorganizaram meus conhecimentos, reduziram minhas lacunas e ignorâncias e me ajudam a compreender um pouco melhor o mundo e a mim mesma.  As muitas circunstâncias que me foram dadas a viver próxima a Edgar fortaleceram em mim os princípios de uma ciência da inteireza, da incompletude e do espírito de conjunção marcados pela incerteza, longe das ortodoxias e das ilusórias verdades permanentes. Fortaleceram também  minha teimosia, quase inabalável, de dedicar tanto tempo de minha vida ao Grecom, Grupo de estudos da Complexidade sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, há quase 30 anos.

Essas contingências do acaso certamente foram responsáveis pela identificação de valores comuns à nós dois, em especial àqueles que dizem respeito ao reconhecimento  das reservas antropológicas de complexidade presentes nos conhecimentos arcaicos e ancestrais e a necessidade de religar não somente cultura científica e humanista, mas a também a cultura científica e os saberes da tradição. Esses cenários vividos em comunhão com um pensador sem fronteiras e capaz de fazer de sua vida uma permanente combustão da juvenilização me fazem entender cada vez mais que o pensamento complexo é, como afirma Morin, um pensamento em permanente metamorfose e que vive à temperatura de sua própria destruição. Uma aprendizagem principal subjaz e permanece comigo: a necessidade de vigilância diante das cegueiras do conhecimento, e a difícil mas importante arte de cultivar a auto-crítica permanente, uma vez que, conforme lembra ele, ‘tudo que não se regenera se degenera’.

E como a senhora o conheceu?

Conheci Edgar Morin por meio de suas palavras, em 1987. O Método 3 aparece numa das disciplinas ministradas por Edgard Carvalho durante meu doutorado na PUC-SP. Com o passar dos anos começo a entender o porquê de as ideias de incerteza, indeterminação, auto-organização, metamorfose  e determinismos múltiplos serem, mais do que conceitos, operadores cognitivos com força vital e afetiva para mim.  Reconheço na minha infância, nos períodos de férias escolares e permanência numa comunidade de pescadores, a experimentação de situações que me permitem compreender mais fenomenologicamente e de forma onírica tais ideias e noções.  À cada verão, e para permanecermos por dois meses na praia de Camuripum, as casas, feitas de palha de coqueiro e com chão de areia, eram completamente refeitas. Como essas edificações eram construídas próximas a dunas móveis, não raro, os veranistas tinham que se deslocar para outro espaço próximo, uma vez que as casas do ano anterior tinham sido parcialmente soterradas. As fontes de água boa para consumo (cacimbas, olheiros d’água) também se deslocavam. As técnicas e ferramentas de pesca precisavam ser readaptadas em função do movimento das marés. Essas experiências com o imprevisível e imponderável podem ter me permitido compreender sem dificuldade a metamorfose que transversaliza  os domínios da natureza, da vida em sociedade, das ideias.

O arrebatamento provocado pela leitura permanente de parte da obra de Edgar Morin e as sintonias com o pensamento complexo foram se ampliando pelas forças do afeto, admiração, gratidão, companheirismo, amizade e convivência durante os eventos  dos quais participei ao lado dele, como tantos outros de seus amigos.  Em alguns lugares tive a alegria de estar acompanhada por amigos brasileiros e também de conhecer pessoas como Raul Motta e Emilio Ciurana que se tornaram amizades duradouras. As vezes tive a presença de Vinciane Callebaut, uma “meia-filha” belga, espécie de anjo da guarda que me salvou dos embaraços com a língua francesa que domino pouco. Outras vezes viajei sozinha e viví difíceis aventuras de voos com muitas e longas escalas, por vezes de mais de vinte horas, entre a saída do Brasil e o destino final.

Alguns desses cenários: Em 1998, no Rio, Congresso Internacional do Pensamento Complexo, organizado por Cândido Mendes. Também em 1998, em São Paulo, por ocasião do evento Antropologia Complexa e Ética do Futuro, organizado por Edgard de Assis Carvalho e Lia Diskin, parceria da PUC-SP e Associação Palas Athena; Depois vieram: Pensar as Complexidades do Sul, em Vilanova i la Gertru/Barcelona (2000); a Fundação da Multiversidad para o Mundo Real Edgar Morin, em Hermosilo-México,(2004); Encontro Internacional “Para um pensamento do sul”, no Rio, organizado pelo Sesc (2011); III Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Eco-formação, organizado por  Maria Cândida Moraes/Universidade Católica de Brasília, (2008), em Brasília; a outorga de Honoris Causa,  pela Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa; a cerimônia de Homenagem da UNESCO  nos 80 anos de Edgar Morin, Paris; também a cerimônia  em comemoração aos 85 anos, dessa vez patrocinada pela Multiverdidad/Hermosilo/México, em Paris.

E como foram as passagens de Morin por Natal?

Foi em Natal que convivi com mais intensidade com um homem cuja vitalidade, entusiasmo, alegria e ritmo incansável é capaz de contaminar a todos. Ele esteve por cinco vezes na “Cidade do Sol”, entre 1998 e 2012. Na primeira visita, em apenas dois dias, fala no Grecom para os pesquisadores ligados a algumas pós-graduações da UFRN; à tarde, visita o Forte dos Reis Magos, conta a história sobre sua primeira edificação, toma sorvete de ‘tapioca’ na lanchonete do Forte. Com agilidade, sobe na muralha e diz: ‘Natal, Grecom! aqui é a capital do pensamento complexo’. Mesmo que saibamos que o cidadão de muitas pátrias pode ter proferido essas palavras em outros lugares, todos nós que o acompanhávamos naquela hora nos sentimos felizes.  À noite queria jantar ostras cruas, o restaurante não tinha e ele se contentou com massa italiana e berinjela – que gosta tanto. No dia seguinte entrou no mar de Ponta Negra e à noite proferiu a conferência “Amor, poesia, sabedoria” no auditório da Escola de Música da UFRN. Antes da conferência, uma instalação da artista Sayonara Pinheiro, no jardim interno da Escola, impressiona nosso visitante. Fogo sobre gelo: uma alusão ao calor cultural de que fala Edgar.

Eram velas acesas sobre dezenas de grandes cubos de gelo que pouco a pouco se derretiam e caiam.  Na hora do barulho da queda da primeira barra de gelo diz Edgar eufórico e levantando os braços: ‘A queda! É isso, o importante é a queda’. Depois da conferência, sob a claridade da lua cheia ele participa de uma dança cigana ao redor de uma fogueira. Na segunda visita foi a vez do Honoris Causa concedido pela UFRN e também de sua  conferência ‘A cidade e o século’, por ocasião dos 400 anos de Natal. Levei-o para conhecer o túmulo de Nísia Floresta, norteriograndense amiga de Augusto Comte.

Nessa conferência, fez uma retrospectiva dos personagens que tiveram uma relação com a cidade antes dele: Comte, Exupery, suas próprias viagens a bordo do avião Arc-em-Ciel da Aéropostale (que fazia parada em Natal para se abastecer e, disse ele, tudo que via era uma placa de Coca-cola) e, por fim sua volta à cidade, agora por meio do Grecom, da UFRN.  Algum tempo depois ele volta. É a comemoração dos 10 Anos do Grecom.  Numa solenidade coordenada por Edgard Carvalho, Morin instala o Fórum de Estudos do homem e da vida. Nessa terceira visita participa do Simposium  Experiências de complexidade no Brasil, com a presença de 20 grupos, localizados em 8 estados brasileiros e do lançamento do livro Ciclos e Metamorfoses, registro da história do Grecom até então, escrito por Margarida Knobbe e por mim. Na tarde seguinte, de muito sol e calor, inaugura no Parque das Dunas a Casa Mãe-Terra, idealizada por Maurício Panella em homenagem ao livro Terra Pátria. Com três metros e meio de altura a escultura representa uma mulher ao parir de cócoras, à moda das culturas tradicionais e indígenas. Participa do ritual que evoca o som da Terra  por meio de um tambor tocado pelo xamã Amaurí e observa a dança de jovens mulheres vestidas com roupas rústicas da cor de barro. Num certo momento me pede para entrar sozinho no interior da Casa Mãe-Terra. Permanece lá dentro por uns 15 minutos e, ao sair diz, emocionado, que tudo se passou como se ele tivesse entrado no útero de Luna, sua mãe.

A sua quarta estadia em Natal foi a mais desafiante. Edgar fala desse momento no livro Les souvenirs viennent à ma rencontre, ainda não traduzido no Brasil. Dessa vez o Grecom, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, o apoio da Reitoria da UFRN e de Sindicatos de docentes decide fazer a conferência em praça pública, na Praça Cívica da UFRN. Josineide de Oliveira foi quem nos encorajou a todos a aceitar tal desafio. Ela própria fez contato com órgãos encarregados de instalar banheiros públicos, prover policiamento, organizar trânsito. Barracas com a venda de água e alimentos foram permitidas. Ao final, aconteceu a conferência ‘O destino da humanidade’ com a presença de 11 mil pessoas, entre professores da rede pública do Estado, alunos e professores de universidades locais e  Estados vizinhos, a imprensa local e de fora. Uma semana antes Edgar tinha me dito que não precisava de tradução. Mesmo assim eu pedi ao colega Adir Ferreira que se mantivesse preparado. Na chegada a Natal, acompanhado pela esposa Sabah, suas primeiras palavras foram: ‘Sem tradução, Ceiça querida. Confie em mim’. E assim foi. Depois da Abertura da Orquestra Filarmônica e das saudações, ele falou de pé, em grande performance e por mais de uma hora. Silêncio absoluto. Se todos entenderam?  Sim, a julgar pelas matérias da mídia e pelos comentários que foram se multiplicando no tempo. A quinta visita foi em 2012, por ocasião dos 20 anos do Grecom que teve como título “Tributo a um Pensamento do Sul” e sobre o que ele falou em sua conferência. Escolhemos como local a  Escola de Música da UFRN, onde ele falou pela primeira vez.

Quem sabe, talvez para celebrar o  Eterno Retorno de um pensador sem fronteiras entre nós que fazemos o Grecom, a UFRN, a Cidade do Natal.

Em vários de seus livros, Edgar Morin faz referência ao Grecom e a mim. Longe de alimentar os sentimentos de distinção e narcisismo, essas referências são entendidas por nós como reconhecimento a um fluxo de conjunção e expansão do pensamento complexo, que caminha de mãos dadas com a sociedade, politiza o conhecimento, resiste à crueldade do mundo e faz ciência sob o signo da amizade.

Como ele é de perto?

Um homem encantador, sempre de bom humor e demonstrando uma juventude invejável. Um intelectual a quem incomoda o culto a sua personalidade. Lembro bem do mal estar dele quando, por ocasião da Fundação da Multiversidad Edgar Morin, no México, ele foi informado de que antes de sua conferência magna ele retiraria a cobertura de uma  estátua sua, em bronze e tamanho natural. Ele relutou contra a ideia. Na noite anterior conversamos sobre seu descontentamento.  Sem condições de reverter a situação acabou por aceitar essa homenagem. Mas começou sua conferência assim, tal como está transcrito no livro Meu caminho: “Uma estátua! É uma coisa póstuma… Estarei eu morto? Serei eu um fantasma que retorna à estátua de seu túmulo? E se estou vivo, será que este é um sonho? Despertarei e minha estátua terá desaparecido? Mas e se eu não dormir e essa estátua for real como a pedra? Ela, agora, me diz para continuar a me desestatuar como pessoa viva, não me deixar petrificar, endurecer, enrijecer. Essa estátua me diz, também, para não esquecer das aspirações de minha juventude, de integrar em meu espírito as experiências de minha vida. De não me fechar, de ter coração, sangue, alma, tudo aquilo que falta a uma estátua;….”.

Um homem gentil e afetuoso que sabe cuidar das amizades. Um pensador cuja ternura de criança se entrelaça muito bem com ardor e a intemperança  da adolescência que demonstra até hoje, ao completar 100 anos de idade. Um estilo de intelectual que demonstra ser possível fazer ciência religando Amor, Poesia e Sabedoria, conforme o título de um de seus livros. É assim que sintetizo o perfil de Edgar Morin a partir de minha convivência com ele.

Morin se disse perplexo com o nazismo… Como a senhora acha que está o sentimento dele em relação ao mundo atual?

Penso que ele permanece perplexo diante de um mundo que ver renascer o que parecia estar extinto.  Mas, marcado que é pela esperança na regeneração da sociedade, ele continua apostando nas “ilhas” e “oásis” das reservas de complexidade da condição humana que abriga um espírito de convivência  nutrido pelas pelos fluxos de Fraternidade e Democracia. Segundo a tônica que ele tem dado em suas últimas entrevista, “é preciso estar atento ao inesperado”. Se vivemos num mundo marcado pela incerteza, no qual o pior e o melhor podem surgir, façamos a nossa parte para refundar a civilização e regenerar a humanidade.

 

 

 

 

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