OPINIÃO

Os três desprezíveis da minha praia

Eu tinha ilusão de que Natal era a cidade do Nordeste que abrigava o maior número de pessoas esclarecidas. Juro, pensava. Morei um tempo em Fortaleza, outro tanto em João Pessoa, depois em Campina Grande, estive muitas vezes em Recife, e comparava. O jeito de falar, de vestir, de cumprimentar, de “dar as horas”. Sempre concluía: Natal dá de capote nesse povo. Nós nos expressamos melhor, nos vestimos e, claro, nossas mulheres são muito mais belas.
Coisa de gente besta mesmo. Hoje, triste, chego a conclusão de que nossa capital é uma das mais reacionárias e burras do Brasil. Briga ali palmo a palmo com “Sumpalo” e nas preferências por coisas ruins chega a se igualar a Curitiba, Maringá, Blumenau e outras cidades do Sul adoecidas, que tem o vírus do nazismo e fascismo adormecidos, talvez hoje acordados, em muito, mas muitos de seus habitantes.
Tenho, hoje, vergonha de ser natalense, cidadão, graças a George Câmara, pois nasci na região do Potengi, em São Tomé. Por força de aconselhamento médico, desde que parei de fumar, caminho. Meu trajeto de todos os dias tem como largada a estátua de Iemanjá e vou até bem pertinho do Forte dos Reis Magos. No retorno, no ponto mais limpo e aberto da Praia do Forte, entro na água para exercícios físicos e respiratórios. Mesmo agora, na quarentena que estou, estamos, ainda assim, faço a caminhada.
Nos últimos dias, mas precisamente depois do pronunciamento da besta fera, tenho passado mal. Hoje, nem sei se eles escutaram, mas saí de dentro d´água falando bem alto, fazendo questão que “eles” (explico daqui a pouco quem são) me escutassem. Berrei, quase: “fascistas, asquerosos fascistas, bolsonions miseráveis, asquerosos!!!” Duas moças que estavam tomando banho a uma certa distância olharam para mim, surpresas, assustadas até, e devem ter pensado: esse senhor está maluco.
E quem são “eles”.  Três ou quatro casais, quase sempre estão em três. Eles vêm com suas bolsas, as mulheres deles, cadeiras nas costas, acenam, combinam e se encontram naquele cantinho que era só meu. As bruacas, super arrumadas – óculos, bolsa, guarda-sol e quinquilharias – ficam sentadas e conversando bobagem na beira mar. Os respulsivos maridos, creio que sejam, entram na água e formam a “rodinha” do mal. Eu me pergunto, meu filho me pergunta, minha esposa me pergunta, meus amigos me perguntam: pra que tu vai escutar esses caras?
Hoje. O mais asqueroso de todos. Tipo alto, bem nutrido, daquele que se acha rico, bonito e forte, mas a camionete cabina dupla que ele roda está pendurado no banco com várias prestações em atraso, entra falando. Tentei fugir, mas não consegui: “os italianos são preguiçosos, gente que não gosta de trabalhar e fica inventando essa desculpa do coronavírus para ficar de “cu pa cima”, são uns parasitas, um italiano mesmo, amigo meu, falou isso pra mim”, diz. Na mesma hora, dá uma gargalhada demoníaca e afirma: “o governo da Itália está é feliz, pelo menos se livrou de uma velharada boa com essa doença”.
Meu fígado dói. Quero sair correndo, mas meus pés parecem pregados ao fundo, na areia do mar. O outro maldito, de barba rala, cara de simpático, daquele tipo que, em todo canto, deve passar por gente boa, ataca: ” se essa doença matasse tanto quanto essa mídia diz, esse povo que vive na rua já estaria todos mortos, o que seria até bom, mas, vai lá, em cada praça, estacionamento, supermercado, lojinha, padaria, farmácia tem um monte deles, cercando a gente, pedindo…”
De vez em quando, no meio de uma interrupção pelo barulho das ondas quebrando, ainda bem, perco palavras, mas quase sempre escuto pérolas explicativas:  “que tem alguém, tudo isso é para querer derrubar Bolsonaro…”. Um outro, escutei, fala sobre um grupo de zap do condomínio, “fulano que é petista foi expulso…” e mais gargalhadas.
O verme inominável que falou sobre as mortes dos velhinhos da Itália, foi o mesmo que, um dia antes, ma mesma maldita bat hora e mesmo maldito bat canal, quando me exercitava, entrou dizendo que a gripe Influenza, turberculose e outras doenças “matam muito mais que esse coronavírus, mas a mídia esconde, e tudo isso para derrubar Bolsonaro”. Já viram né? Tudo gira em torno do demônio, o que eles falam é para, no fim, justificar o voto que esses enlameados seres deram ao “coisa ruim”.
Se meu médico ler esse texto aqui no Saibamais, certamente, vai me proibir de ir à praia, vai pedir para minha esposa e meus filhos me acorrentarem em casa. Encerro dizendo que, molecote, acho que para me mostrar, duvidava da existência de Deus. Sei que ele existe, o de Spinoza:
“Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia. Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.” Definidor, para mim.
Como sei, hoje, depois de Jair Bolsonaro, que o demônio nunca esteve tão ativo e cativante, atuante. Basta que você olhe nos olhos do presidente, dos seus filhos, de Edir Macêdo, Silas Malafaia, RR Soares, Marcos Feliciano, e etc, e etc.
Eu aprendi, decodifiquei, e os reconheço, onde estiverem, são os mesmos olhos, sorrisos, gestos e palavras dos três desprezíveis da minha praia.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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