OPINIÃO

Ótimas pessoas

Carlos Fialho escreve às segundas-feiras na agência Saiba Mais
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Menina, eu me mudei pra um condomínio ótimo! Fiquei tão feliz! O Valmir acertou dessa vez. Estamos aqui: eu, ele, as crianças, o Totó e a calopsita que eu nunca lembro o nome. Nossos vizinhos são ótimas pessoas, gente de bem, não tem essas vizinhanças misturadas que tinha no prédio que a gente morava antes. Pra começar, aqui é condomínio de casas, coisa de rico, mon’amour. Não é mais aqueles poleiros que a gente ocupava, cheio de casal jovem, pobretões e um povinho malamanhado, gente estranha com umas tatuagens, uns piercing, umas barbona!

Mas aqui não. É só gente bonita. Quem não é bonito é rico, quem não é rico é famoso. Quem não é nem bonito, nem rico, nem famoso, provavelmente somos nós. Hahaha. Foi boa essa, né? Mas, então: nossos vizinhos são maravilhosos. Tem empresário, jurista, presidente de entidade, secretário de governo. Todos se dão muito bem que é o que acontece entre gente civilizada, né? Quando eu cheguei lá e vi um adesivo num carro: “A culpa não é minha, eu votei no Aécio”, senti logo uma energia boa, um clima de pertencimento, uma atmosfera de leveza, sem aquelas sem-vergonhices e safadezas que tomaram conta do Brasil e do mundo, né, mulher? Afe!

De vez em quando, tem uns desentendimentos, mas é tudo resolvido com diálogo, não é como as baixarias que têm por aí. Porque aqui é condomínio de casas, tá, querida? Não é loteamento não, como me perguntou aquela invejosa da Claudete, aquela brega! Pense que eu fiquei pra morrer! Loteamento? Só se for! Loteamento dá pra fazer naquela bunda dela, aquela coisa enorme, cheia de celulite. Aliás, loteamento não, assentamento, que é coisa de bandido, desses povo do MST, CUT, PT, que se veste de vermelho e deixa o Prestobarba guardado na gaveta. Barbudo de vermelho, minha filha, só admito o Papai Noel que é um dos 3 mais esperados seres do final do ano, ficando atrás apenas de Nosso Senhor Jesus e do décimo terceiro. Ah, mas lá vou eu mudar de assunto de novo. Aqui é condomínio de alto padrão, cherry, morada de padrão. Não é pra quem quer, é pra quem pode. E quem não pode se sacode. Beijo no ombro, Claudete, querida!

Ah, mas voltando aos conflitos que têm aqui: é tudo tão primeiro mundo. Aqui não tem escândalo não, filhinha. Eu brinco com Valmir que até as brigas de gente rica não são barracos, são mansões. Hahaha. A maioria se resolve no WhatsApp mesmo, no grupo lá que está sempre abençoado pela quantidade de corrente de oração que chega. Quando o Senhor Amaro sugeriu matar os gatos de rua que frequentam o condomínio, teve quem achasse ruim, mas ele bateu o pé, fez campanha, organizou votação e, como a proposta foi derrotada, anunciou que ia botar veneno de gato no quintal dele, pois dentro da casa dele ele faz o que quiser e ninguém tem nada a ver com isso. Eu achei muito razoável da parte dele ter aceitado o resultado da votação sem contestar e ter decidido tomar providência só dentro da casa dele. Porque aí ninguém pode dizer que ele não tá no direito dele. Teve até gente desconfiando que ele andou espalhando veneno pela Av. Roberto Freire, pelo nosso bairro, pois muitos gatos têm morrido envenenados. Mas se tiver sido ele, tenho certeza que foi por uma boa causa, para combater a superpopulação de felinos ou preservar as pessoas de doenças porque o Senhor Amaro é ótimo, educado, de família tradicional de Jardim de Pirancó.

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Outro desencontro que houve… isso mesmo: desencontro, porque rico não briga, não arenga. Rico, no máximo, diverge. Mas enfim, teve uma diferença de ponto de vista com relação à circulação de bicicletas no condomínio. E essa divergência se deu porque a Dona Dorinha reclamou que o trânsito de bicicletas dos trabalhadores de obras dentro do condomínio atrapalhava os carros. Decidiu-se então que as bicicletas, no interior do condomínio, teriam que ser empurradas. Ainda que alguns tenham falado que só duas vezes ao dia, na entrada e saída dos operários, ocorre tal tráfego, Dona Dorinha não quis saber. Só que houve moradores que argumentaram que eles próprios usavam a pista do condomínio para se exercitarem com suas bikes (que é como rico chama bicicleta) e que tinham o direito de fazê-lo, uma vez que pagaram milhares de reais por elas. Aí teve uma ponderação e liberaram para os moradores trafegarem, “mesmo que a pista tenha sido feita pra carros e que a bicicleta só sirva para incomodar os cidadãos de bem.” Alguns vizinhos pediram para constar essa ressalva. No final, tudo certo: moradores podem, mas funcionários não. Estes estão proibidos mesmo e ao entrarem no condomínio têm que empurrar suas bicicletas, que é como pobre chama bike.

É que num condomínio de alto padrão, que afinal de contas, é o que nos resta de civilização, é preciso criar regras pra poderem as coisas funcionarem. Senão vira baderna, né verdade? Vejam o caso de João Batista, o piscineiro que presta serviço pra muitas casas de moradores. Ele estava estacionando o carro dele dentro do condomínio, lá no estacionamento da área de lazer que, aliás, eu gosto de chamar de “coutry club”. Mas aí, Dona Teca, uma vizinha nossa, percebeu e reclamou. Alguns disseram que ele precisava transportar materiais e equipamentos de uma casa pra outra, que durante a semana o estacionamento da área de lazer fica vazio. Mas não teve jeito, venceu o bom senso. “Porque senão pode virar bagunça e todos os empregados que tiverem carros vão querer parar seus populares ao lado dos nossos, das picapes, dos utilitários. Não, não e não. Um povo sem berço, sem dinheiro, sem a meritocracia de ter nascido numa família boa com condições.”, argumentou (muito bem por sinal) Dona Teca na reunião de condomínio. Concordei com ela em gênero, número e degrau. Depois disso, o que mais pode vir? Os empregados vão querer usar a academia? As domésticas e babás vão frequentar a área de piscina e o parquinho sem uniforme pra diferenciar? Porque tem que ter, né? Se não usar, pode acabar sendo confundida com moradora, o que seria muito constrangedor.

Gente diferenciada tem que saber o seu lugar. Seu João que transporte o material dele num carrinho de mão e estacione o carro dele fora do condomínio, na rua, como ele deve fazer lá no bairro onde ele mora, ou no loteamento em algum subúrbio, que eu não sei como é porque nunca fui lá, pois não frequento loteamentos. Meu negócio é alto padrão, minha filha. Outra coisa: ele tem que usar um carrinho de mão dele que é pra não gastar o do condomínio. Se não tiver, compre um. Tá pensando o quê? Tem dinheiro pra comprar carro, mas não compra um carrinho de mão? Pra cima de mim!

Ah, mas pra não dizer que tudo é as mil maravilhas, teve só uma disputa mais acalorada lá no condomínio. Foi quando o Coronel Tales quis expulsar duas mulheres que eram amancebadas e inventaram de ir morar vizinhas a ele. Imagina se o coronel, um senhor de família, respeitado, que vai à missa todo domingo, ia gostar de uma afronta pessoal dessa, muro com muro com ele? Claro que não! Quem aceitaria uma situação dessas? Um negócio antinatural, contra as leis de Deus! Dessa vez, porém, o correto não prevaleceu. O coronel foi falar com o síndico, puxou assunto discretamente (que ele é muito elegante e respeitoso) em reunião de condomínio, organizou até abaixo-assinado pra tentar mostrar pra elas que, com aquele comportamento, elas não eram bem-vindas no condomínio. Eu assinei, claro. Veja bem, não sou preconceituosa, não tenho nada contra preto, viado, sapatão, mas vá ser o que quiser da vida fora do meu condomínio. Porque eu mesma não sou obrigada a conviver com gay, a dar bom dia a sapatão. Não gosto, mulher. Viro a cara mesmo! Daqui a pouco vão querer que eu ache normal. O próprio Valmir já veio dizer que não vê problema nenhum em duas mulheres juntas, ele é contra dois homens. Tu acha?

Ei, mas sabe o que as sapatões fizeram? Processaram o coronel por homofobia, acredita? Agora, tudo é homofobia pra esse povo! Não se pode mais falar nada. O mundo tá ficando muito chato! As mulher véa safada saíram botando a boca no trombone nas redes sociais, deram entrevista em jornal e ganharam muito destaque porque jornalista anda tudo mancomunado com esse povo, é tudo metido a comunista, mas tem iPhone. Eu sei que conseguiram jogar o bom nome do coronel na lama com essas mentiras de homofobia. Só porque o Seu Tales, que é uma ótima pessoa, pensando no bem da coletividade do condomínio, quis que elas fossem ser sapatões noutra freguesia, longe de sua visão e de sua janela.

Pois o homem ficou tão desgostoso que quem decidiu se mudar foi ele, acredita? Ai, não tolero injustiça! Principalmente contra gente de bem. Porque eu acho que a gente deve se preocupar com as pessoas, principalmente se forem boas. Por isso que eu defendo e elogio demais o povo aqui do meu condomínio, viu? Porque, tirando as duas lá que vivem em pecado, as outras todas são ótimas pessoas!

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras