ENTREVISTA

Pablo Capistrano: “Nunca necessitamos tanto do Estado para nos salvar”

Aos 15 anos de idade, o estudante secundarista Pablo Capistrano assistiu ao vivo pela TV a queda do muro de Berlim, evento que marcou o processo de reunificação da Alemanha e representou um golpe fatal contra o bloco comunista soviético, no leste europeu, o que ajudou a redefinir uma nova ordem política e econômica no mundo.

Três década depois, o professor, escritor e filósofo Pablo Capistrano, hoje aos 45 anos, compara aquele fato histórico com a atual pandemia do Coronavírus. Na visão dele, o novo inimigo invisível da humanidade representa outro colapso da “nova ordem mundial” contra o capitalismo global.

Nesta entrevista especial para a agência Saiba Mais, Pablo Capistrano avalia, sob a luz da filosofia, o impacto da atual pandemia na sociedade contemporânea e o que pode vir no pós-crise.

Leia a entrevista:

Saiba Mais: Você escreveu outro dia no twitter que “a despeito do poder sedutor das nossas fantasias, a realidade se impõe”. Essa é uma tradução da sociedade contemporânea?

Pablo Capistrano: Penso que é uma tradução do momento. Especialmente para o governo Bolsonaro, marcado por uma contaminação ideológica brutal e em um nível poucas vezes visto de descolamento com a realidade. É como se estivéssemos no meio de um surto psicótico e de repente vem um eletrochoque pra acordar a nação. Agora não adianta mais balela. Ou os governos mostram serviço ou serão devastados pela crise.

Essa pandemia então seria uma espécie de kriptonita da chamada “Era da pós-verdade” ou ainda está cedo para fazer uma avaliação mais profunda ?

Acho que por enquanto a pós-verdade alimenta a crise e se alimenta dela. Agora, quando começarmos a contar o número de mortos e o custo social bater na porta de cada um de nós não vai adiantar dosar a pílula com teorias conspiratórias. A dureza do que virá vai desarmar essas ilusões.

“Ou os governos mostram serviço ou serão devastados pela crise”.

Como você classificaria a nossa sociedade em meio a essa pandemia do Coronavírus ? 

A crise do Coronavírus ataca o cerne estrutural de nosso modo de vida. Nossa sociedade é uma sociedade imunológica. Todo nosso esforço é de criar resistências que nos protejam de organismos intrusivos, sempre identificados com “o outro”, o “estranho”, o “diferente” que nos ameaçam e que poderiam nos enfraquecer. Por isso um vírus invisível que nos tira o fôlego e pode estar em qualquer lugar com qualquer pessoa é tão assustador.

Um jornalista escreveu há poucos dias que “o mundo como conhecemos hoje acabou, mas ninguém tem noção ainda de como será o futuro”. Talvez o período de medo e tensão favoreça sentenças catastróficas como essa. Mas isso faz algum sentido para você ?

Rapaz… comparo o que estamos vendo hoje ao colapso do antigo mundo bipolar com o fim da URSS. Lembro, aos 15 anos, de ter assistido ao vivo pela TV a queda do muro de Berlin e o colapso do bloco socialista. Me parece muito semelhante ao que agora acompanhamos pela telinha do celular, ao vivo. Estamos diante do colapso da “nova ordem mundial” do capitalismo global.

Por quê ?

Do mesmo modo que em 1989 desabou a ideia de um Estado total e de uma sociedade sem mercado, o que essa crise mostra é que o mercado colapsou. Isso desmonta uma estrutura de pensamento, toda uma arquitetura ideológica que apresentava o mercado como um Deus Ex Machina*, uma entidade onipotente e racional, capaz de se auto-regular. Essa fantasia ruiu no meio dessa pandemia. Então é possível pensar que esse mundo realmente acabou, o que ,talvez, não seja de todo mal.

*Na Antiguidade , Deus Ex Machina era um recurso da dramaturgia no qual descia em cena um deus cuja missão era dar uma solução arbitrária a um impasse vivido pelos personagens.

Você acredita que a sociedade vai conseguir tirar alguma lição dessa crise ? 

Claro. É um momento muito rico do ponto de vista das lições coletivas, apesar da dor e do sofrimento. Para mim, a maior lição é a de que nós não nos bastamos, sabe? Aquela coisa que Margaret Tatcher dizia: “não existe sociedade, só os indivíduos e suas famílias”, que é o “creio em Deus pai” do neo liberalismo. Pois bem, estamos sós. De quarentena. Só os indivíduos e suas famílias. Completamente isolados. O que seria uma utopia tatcherista virou uma distopia black mirror. Nunca necessitamos tanto do Estado para nos salvar. Nunca precisamos tanto da comunidade pra viver. Essa é a maior lição.

“O que seria uma utopia tatcherista virou uma distopia black mirror”.

O que a morte da empregada doméstica no Rio de Janeiro, infectada pela patroa, nos diz sobre a sociedade brasileira ?

Que nunca conseguimos abandonar o antigo regime. Temos no DNA de nossa classe média o velho ranço aristocrático escravista ainda ativo. O descaso com a vida dos outros é um escândalo nacional.

Você concorda que ao mesmo tempo em que essa crise mostra o peso e a importância do Estado, ela também desmonta a tese do Estado-mínimo e coloca em xeque o modelo neoliberal ? É possível pensar em mudanças estruturais ao final dessa crise ?

O modelo neoliberal morreu. Ele já estava em estado letárgico há muito tempo. Só gente anacrônica como (o ministro da Economia) Paulo Guedes ou esse povo que enche a boca para falar “Von Misses”, como se estivesse apontando pra terra de Canaã lá de cima do monte Sinai. Só esse pessoal, por limitação cognitiva ou má-fé ideológica, não haviam se dado conta disso. Agora, o que vai emergir das ruínas dessa velha ordem é uma incógnita. Pode ter um novo Franklin Roosevelt ou um novo Hitler, talvez, quem sabe, até um Lênin…

“É possível pensar que esse mundo realmente acabou, o que ,talvez, não seja de todo mal”.

Roosevelt, Hitler e Lênin. Nossos ídolos ainda serão os mesmos pós-Coronavírus ? Continuaremos vivendo como nossos pais ?  

Acredito que só surgirão novos líderes se aprenderem as lições dos antigos. É aquilo, não necessitamos repetir nossos pais, mas precisamos aprender com o exemplo deles. Olhar as crises pelas quais a humanidade passou ajuda a projetar um futuro que não se contente em, simplesmente, repetir o passado.

“O modelo neoliberal morreu”.

Há outras pandemias ou epidemias que marcaram a história da humanidade, mas o que difere o Coronavírus das demais ? O espaço e o tempo apenas ?

Acho que o grau de conectividade de nossa época que potencializa muito velozmente o pânico, nas mesmas proporções que o vírus se espalha.

A chanceler da Alemanha Ângela Merkel comparou a crise provocada pelo Coronavírus com o desafio enfrentado pelo mundo na 2ª Guerra Mundial. Você concorda com essa relação ? 

Veja bem, salvo engano, em janeiro circulou uma informação de que, se nada fosse feito pra conter o vírus, ele poderia contaminar até 60% da população mundial de modo que, mesmo com uma taxa de mortalidade mais baixa, poderia matar aproximadamente 84 milhões de pessoas no mundo todo. Ou seja, mais gente do que na 2ª Grande Guerra. Não é assombroso? Merkel não está exagerando. O babado é fortíssimo.

“O que vai emergir das ruínas dessa velha ordem é uma incógnita”.

Um dos alvos na era da pós-verdade é a ciência, os terraplanistas que o digam. A partir dessa epidemia, você acredita que algo mude nessa relação ?

Acho que, para a média geral da população, talvez o pêndulo vire um pouco mais para o lado da ciência, quando o pessoal perceber que quem cura mesmo são os profissionais de saúde, e não o pastor. Mas sempre vai haver espaço para esses medievalismos, tipo “terra plana”, em nossos corações e mentes. O ser humano não suporta muita realidade, como dizia (o poeta norte-americano) T.S. Eliot.

Essa crise também vem disseminando ódios e reforçando preconceitos, um deles é a xenofobia. A globalização que estreita relações também facilita, como agora, a proliferação de doenças. A China tem sido alvo até mesmo dentro do Brasil. Esse tipo de disputa tende a se agravar a partir de agora ? Qual a origem desse sentimento ?

É um certo caráter imunológico dos organismos sociais. Uma leitura meio étnica do mundo onde há uma fronteira rígida entre o eu e o outro, como se o outro também não morasse em mim.

“Só surgirão novos líderes se aprenderem as lições dos antigos”.

Uma área que parece sofrer uma profunda transformação é o trabalho. Essa epidemia vem deixando ainda mais exposta a precarização, seja pela via da terceirização ou pela uberização, dois produtos do capitalismo e segmentos que não tiveram a mesma solidariedade demonstrada por outros setores da sociedade, à exceção do apoio de (alguns) movimentos sociais. Você acredita numa mudança quanto às relações de trabalho ?

A violência dessa crise vai atingir em cheio os trabalhadores já precarizados e afetados pelas tais “reformas liberais”. A questão é saber o que vai emergir do profundo ressentimento e da revolta que isso vai gerar. Se houver lideranças que consigam direcionar a potência desse ressentimento num sentido produtivo poderemos ter mudanças profundas, senão vai ser caos e violência.

Nesse período de quarenta, há centenas de relatos de pessoas que estão ocupando o tempo lendo livros, ouvindo música, assistindo filmes, peças de teatro. Na própria internet, artistas vêm usando plataformas diferentes para se apresentar e até se sustentar num momento em que os espaços de cultura públicos e privados estão fechados. Está mais próximo o dia em que as pessoas vão entender a importância a arte e da cultura para a sobrevivência da sociedade ?

Historicamente, são as nações que conseguem prover o mínimo existencial para a maioria dos seus cidadãos e promover uma equidade social mais profunda que conseguem entender mais fortemente o valor da arte e da cultura. O Brasil ainda tem um longo caminho pela frente, mas, como se costuma dizer, “na história das civilizações humanas os primeiros 500 anos são os mais difíceis”.

“A questão é saber o que vai emergir do profundo ressentimento e da revolta que isso vai gerar”

Para onde a luz da filosofia aponta nesse momento ?

Para o desconhecido.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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