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Pais e mães de alunos do NEI escrevem carta de apoio à manutenção do ensino remoto

Diante da atual discussão em torno do retorno ou não das aulas presenciais nas escolas, um grupo de pais e mães de alunos do Núcleo de Educação Infantil da UFRN (NEI/ UFRN) escreveu uma carta de apoio aos professores que decidiram, em assembleia, manter o ensino remoto na instituição.

No documento, os responsáveis pelos alunos destacaram que o Brasil já teve mais de 400 mil mortes provocadas pela covid-19 e que só a força econômica existente por trás da educação no país explica decisões como a de retomada das aulas presenciais, em pleno auge da pandemia. De maneira solidária, os pais argumentam que eles poderão escolher se levarão ou não os filhos à escola, mas professores e funcionários não terão essa opção no caso de um retorno obrigatório.

Momento de interação entre alunos do Nei, antes da pandemia I Imagem: reprodução

“Nesse cenário de alta taxa de transmissibilidade do vírus no Brasil é dado às famílias o direito de decidir se envia ou não seus filhos à escola nesse momento dramático da nossa história, mas aos professores e aos funcionários da escola não lhes será permitido escolher: estarão expostos ao vírus, no pior momento da pandemia no Brasil, sem que possam ao menos vislumbrar o momento em que serão vacinados, uma vez que o esquema de vacinação no Brasil anda a passos lentos.”

 

Desde agosto do ano passado o NEI, que tem alunos da educação infantil ao fundamental, vem mantendo as aulas no formato remoto por causa da covid-19. A escola até preparou a estrutura para um retorno de maneira híbrida, com uma frequência de 50% das crianças em dias alternados, além da adoção dos demais protocolos de biossegurança. Mas, diante da nova alta de casos e o surgimento de novas cepas, os professores avaliaram como mais prudente adiar o retorno das aulas presenciais.

“Todos querem falar em nome da educação como se fossem estudiosos. Querem responsabilizar os professores pelas mazelas das desigualdades do acesso à escola e colocar a culpa do desgaste emocional das crianças nas escolas, como se todo o mal provocado pela pandemia fosse exclusivamente resultado disso, quando sabemos que, dependendo da forma como essa família reserva o espaço para essa criança em casa, lida com a frustração, com o não, com os limites, com o diálogo, é que vai determinar se essa criança estará bem ou não do ponto de vista psicológico. A pandemia potencializou aquilo que já é da relação da família com a criança”, avalia Gilka Pimentel, professora do NEI e vice-presidente do Adurn-sindicato (Sindicato dos Docentes da UFRN).

O NEI funciona como uma colégio de aplicação vinculado à UFRN. Foi criado em 1979, inicialmente, para atender à comunidade acadêmica feminina formada por funcionárias, alunas e professoras. No entanto, desde 2008 o Núcleo de Educação Infantil recebe crianças da comunidade em geral e as vagas são definidas através de sorteio.

“Poderíamos seguir a normativa da UFRN (que segue com aulas remotas), mas nos preparamos para um retorno híbrido seguindo um protocolo muito bem elaborado. Porém, diante do agravamento e surgimento de novas cepas, avaliamos em plenária que seria melhor manter o ensino remoto. Sabemos da gravidade da falta que a escola faz, mas existe uma questão mais ampla, que é a vida”, pondera Isaura Brandão, que é professora do NEI e faz parte da diretoria do Adurn-sindicato.

A professora Isaura também reforça que o retorno às aulas presenciais coloca em risco não só a vida de alunos e professores, mas de toda uma comunidade necessária para colocar a escola em funcionamento.

Imagem: reprodução

 

Existe a questão socioeconômica, nem todas as famílias têm carro próprio e muitas crianças usam transporte escolar, por exemplo. Mesmo com metade das crianças num dia e a outra metade no outro, com o distanciamento de 1,5 metro em sala, como planejamos, seriam 150 crianças dentro da escola! Fora professor, apoio, cozinha, terceirizados e os pais que estarão transitando”, argumenta a professora.

Outro ponto levantado tantos pelos pais, que são contra o retorno presencial, e professores, é a falta de um calendário ou perspectiva de vacinação contra a covid-19.

Desde quando educação não é essencial? Todos queremos voltar, mas não há garantias e o governo não se organizou pra isso. A escolha feita pelo presidente foi a de não controlar a pandemia e controlar os efeitos de forma passiva. O ideal seria que houvesse um movimento pela vacinação para que ela pudesse chegar de forma mais rápida”, defende Isaura Brandão.

Confira a carta na íntegra:

Carta aberta à comunidade escolar do NEI

O dilema sobre a reabertura das escolas em contraposição ao possível aumento da transmissão do coronavírus e, por consequência, o aumento da quantidade de vítimas na pandemia que já matou quase 400 mil pessoas no Brasil permeia as discussões nas mais diferentes esferas sociais. Abrir ou não abrir a escola: eis a questão? Em função de compreendermos as forças econômicas que operam em torno da educação no país, não nos causou estranhamento que, em pleno momento de agravamento da crise gerada pela epidemia do coronavírus (SARS COVID 19) e suas
variantes, a Câmara Federal aprovasse o PL 5.595/2020 e o governo do Estado do Rio Grande do Norte publicasse o Decreto Lei Nº 10.870, de 22 de abril de 2021, estabelecendo que as atividades educacionais, ainda que em situação de emergência ou calamidade pública, fossem consideradas essenciais.

Nesse cenário de alta taxa de transmissibilidade do vírus no Brasil é dado às famílias o direito de decidir se envia ou não seus filhos à escola nesse momento dramático da nossa história, mas aos professores e aos funcionários da escola não lhes será permitido escolher: estarão expostos ao vírus, no pior momento da pandemia no Brasil, sem que possam ao menos vislumbrar o momento em que serão vacinados, uma vez que o esquema de vacinação no Brasil
anda a passos lentos.

Dessa forma, excetuados aqueles que possuem transporte particular, veremos inúmeras pessoas, entre professores, estudantes e demais trabalhadores da educação, sem contar os próprios pais dos estudantes, ocorreram aos transportes coletivos em todo país com vistas a chegar à escola, onde reinará a segurança sanitária.

Em pesquisa recente realizada por pesquisadores e professores dos departamentos de Sociologia e Estatística da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre os impactos da volta às aulas na propagação do Sars-Cov-2, (Disponível aqui: https://www.otempo.com.br/cidades/um-aluno-infectado-em-sala-de-aula-pode-transmitir-covid-para-60-pessoas-1.2473833) os resultados mostram que num grupo de crianças e adolescentes com idade entre
6 e 14 anos, um só aluno infectado numa sala com outros 20 tem potencial para contaminar outros 60 do círculo familiar dos estudantes em apenas 15 dias. Isso considerando que a escola adote rigorosamente as medidas sanitárias de proteção. Sem o equipamento de proteção, o número é mais alarmante, pois seriam 90 os infectados em apenas 10 dias.

Ninguém aqui pretende negar o anseio de pais e estudantes e a necessidade efetiva do retorno às aulas presenciais, tanto pela importância do ensino propriamente dito, quanto pelas suas dimensões sociais e afetivas. No entanto, há muito a educação, sobretudo a pública, é negligenciada, principalmente se considerarmos a estrutura física das escolas e seus recursos tecnológicos e essa situação pouco se modificou durante a pandemia. Perguntamo-nos, então, por que nesse momento crítico, ao invés de menosprezar a vida reabrindo escolas, o poder
público não está investindo em distribuição de alimentos para as famílias carentes? Por que não está investindo em aparelhos eletrônicos e Internet para os alunos?

Precisamos também considerar se as medidas sanitárias que serão adotadas pelas escolas serão suficientes para suportar a complexa rede de relações que se processa em seu interior num contexto em que o vírus se torna mais agressivo e circula mais rapidamente. Não podemos nos esquecer que essa rede de relações inclui professores que possuem famílias, estudantes que tem irmãos em diferentes escolas, demais trabalhadores dos contextos os mais diversos, muitos usuários do transporte coletivo.

Acreditamos que a abertura da escola, nesse momento, colocaria em risco a vida de muitas pessoas, num país que está normalizando a morte. Em função disso consideramos que o que mais importa não é uma campanha que acene para a necessidade da vacinação dos profissionais da educação como condição essencial para a reabertura das escolas, mas, nesse momento em que as taxas de transmissibilidade do vírus operam em alta, acreditamos que o foco deveria ser a luta por uma política pública que garantisse a diminuição das taxas de transmissibilidade e a vacinação irrestrita.

Enfatizamos, portanto, que o que deve determinar a possibilidade de reabertura das escolas não é vacinação do professor, mas sim a taxa de transmissão do vírus na sociedade que, no momento, é de 1.23 no Brasil, número considerado demasiado alto. Acrescente-se a essa informação o fato de que o Rio Grande do Norte é o
estado com a maior taxa de transmissibilidade da doença no país, sendo de 1.49 nessa última sexta-feira (dia 24/04), de acordo com dados do Covid Analytics, portal de monitoramento da pandemia criado por um grupo de professores da PUC-Rio (Disponível aqui: https://www.saibamais.jor.br/rn-tem-maior-taxa-de-transmissao-de-covid-do-pais-de-acordo-com-pesquisa-da-puc-rio/ ). Isso significa que 100 pessoas infectadas transmitem a doença para 149 em média. Rodrigo Silva, pesquisador do LAIS/UFRN, explica que quando a taxa de transmissão está acima de 1 significa que a pandemia está “em certo nível descontrolada”. Como abrir escolas com essa taxa, expondo não só os professores, mas toda a comunidade escolar e suas famílias?
Assim, gostaríamos de encerrar essa carta elencando 8 razões que, para nós, pais e mães de família que temos filhos matriculados na educação infantil, no ensino fundamental e médio, justificam a não abertura das
escolas nesse momento:

1. A taxa de transmissibilidade do vírus está demasiada alta.
2. Todas as vidas importam. Nenhuma é descartável.
3. A escola por si só, é um lugar de aglomeração: 13 alunos numa sala já não é aglomeração?
4. A família pode escolher se a criança pode ou não voltar à escola; o professor e os funcionários da escola, que correm um risco maior em função da faixa etária, são obrigados a voltar.
5. As famílias vão abrir mãos de reuniões familiares e dos momentos de lazer com risco de contaminação? Vão assinar um termo de compromisso limitando a circulação apenas a supermercado e trabalho?
6. A universidade/MEC, no caso do NEI, e o estado/município vão fornecer equipamentos de proteção necessários, máscaras N95, PFF2 para professores, alunos, funcionários?
7. Quem vai ser responsável pela vida do professor, do aluno e do funcionário da escola e pelas despesas médicas das pessoas do seu círculo que forem infectadas no ambiente escolar?
8. A sociedade vai diminuir a circulação nas ruas, evitando a proliferação do vírus?

Diante de tal contexto viemos, por meio dessa carta, nos solidarizar com os
trabalhadores da educação, ESPECIALMENTE A COMUNIDADE ESCOLAR DO NEI, ONDE
ESTUDAM NOSSOS FILHOS
 , que estão na iminência de ter que se expor a esse cenário desolador.

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