OPINIÃO

Pandemia: números do RN apontam para a cronificação do problema

Transcorridos quase 50 dias da retomada, como estão os números da epidemia no RN e o que deveria ser feito para que decline?

Em primeiro lugar a análise dos números da pandemia não é simples. Para além do fato de que é difícil calcular tendências para um fenômeno em grande medida influenciado por variáveis atitudinais – as atitudes mudam o fenômeno (para pior ou para melhor), e isso não tem como ser previsto – há também o fato de que os números disponíveis são atrasados e demoram cerca de vinte dias a terem sido inteiramente consolidados.

Os gráficos abaixo mostram a potencial magnitude do problema.

Esse primeiro gráfico, copiado do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde Pública (SESAP) (https://portalcovid19.saude.rn.gov.br/wp-content/uploads/2020/04/DOC000000000232865.pdf), mostra os óbitos registrados até o dia 06 de Julho de 2020, data que é mostrada pela seta. Doze óbitos haviam sido registrados no Boletim Epidemiológico de 06 de julho.

 

Já esse segundo gráfico mostra esse mesmo dia 06 de julho em gráfico do Observatório do LAIS Covid (https://covid.lais.ufrn.br/) do dia 09 de agosto de 2020. Ele mostra 41 óbitos no mesmo dia 06 de julho. Isso significa que, nos dias que se seguiram ao dia 06 de julho, 29 óbitos registrados posteriormente, por atraso da notificação, foram acrescentados.

O atraso nas notificações não responsabiliza nem a SESAP, nem o LAIS, responsabiliza os serviços que não notificaram no prazo previsto, mas é bom que saibamos que esse atraso é uma realidade que pode ocorrer na maioria dos Sistemas de Informação em Saúde.

Tudo isso significa que a janela de números mais fiáveis, capazes de nos informar de forma mais precisa o andar da pandemia, traz um atraso conexo à lentidão das notificações, de cerca de 20 dias. O outro elemento importante para a análise é o fato de que as medidas, como a da retomada, levam pelo menos cinco dias para gerar os primeiros resultados, pois o período de incubação da doença leva 5 dias para começar a ocorrer, o que se estende por até 14 dias.

Isso significa que temos, com dados mais confiáveis, um período de análise da pandemia pós retomada que vai do dia 5 ao dia 25 de julho.

Os gráficos abaixo mostram os casos positivos e os óbitos desse período de 05 a 25 de julho, todo ele cronologicamente influenciado pela retomada. Nessas duas séries nós construímos uma linha de tendência por médias móveis com período de médias de cinco dias, e outra linear. Esses vinte dias de dados podem nos trazer elementos para formar uma opinião sobre os rumos da pandemia no nosso estado.

Dados do Observatório do LAIS/COVID

Óbitos

Dados do Observatório do LAIS/COVID

Como interpretar esses números?

Em primeiro lugar, no que toca aos novos casos diagnosticados durante a retomada, podemos constatar que apesar do recuo de uma média de 510 para 400 casos novos por dia, a cadeia de transmissão continua em marcha. Isso representa a ameaça de novos repiques, pois os diagnosticados são uma pequena fração dos expostos, que incluem assintomáticos e pessoas com doença leve que não se mobilizam para ir fechar o diagnóstico. A persistência da transmissão nesses níveis não pode ser tolerada pois essa tendência de declínio poderia se inverter a qualquer tempo.

Em segundo lugar no que toca aos óbitos o que se vê é uma surpreendente estabilidade, pois os seus números médios saem de um patamar de 25 para 23 óbitos por dia em vinte dias. Essa estabilidade dos óbitos poderia, no limite, desacreditar os números de declínio constatados no número de casos positivos. A pergunta que deve ser respondida é: – quem tem mais peso na definição da tendência da pandemia, os diagnósticos positivos ou os óbitos?

Vamos reconhecer que os óbitos são uma pequena fração dos doentes e se há progressivamente menos doentes, o número de óbitos deveria cair. Ou seja, a variável Óbitos é dependente da variável Casos. O que é surpreendente é que esses óbitos, que decorrem em boa parte de adoecimentos e internamentos ocorridos até mesmo antes do decreto de retomada teimam em não cair, apesar da tendência constatada de declínio de casos e internamentos que já começava a se desenhar antes mesmo do início volta à normalidade.

Duas coisas devem ser ditas, (a) os óbitos podem vir a cair ou mesmo estar por cair nos próximos dias, acompanhando o leve declínio constatado nos casos novos e (b) se não há declínio relevante dos óbitos, constata-se, por outro lado, que a retomada também não condicionou o seu aumento, ao menos por enquanto. Aqui o que devemos perguntar é: – por que os óbitos ainda não cederam acompanhando o declínio da pandemia constatada há mais de um mês?

Internamentos

Uma variável interessante que mede um momento intermediário entre os adoecimentos e os óbitos, os internamentos, por sua vez mostra uma queda mais acentuada no período entre 05 e 25 de julho quando variou de 389 leitos ocupados para 317, caindo 18%. Esses números, entretanto, entre os dias 25 de julho e 15 de agosto, evoluíram para uma queda de apenas 4,4% do total, indo de 317 para 303 leitos ocupados.

Essa evolução dos internamentos é convergente com uma ideia geral de estabilidade. No mesmo período aliás, na contramão do declínio, os leitos clínicos evoluíram de 172 para 139 leitos ocupados entre o dia 5 e o dia 25 de julho, mas voltaram a subir para 169 leitos clínicos ocupados em 15 de agosto.

Ora, comumente os leitos clínicos se preenchem antes dos leitos de UTI o que significa que esse aumento pode prenunciar a volta de níveis mais altos de ocupação de leitos hospitalares em geral.

Esse cenário nos obriga à reflexão. A epidemia parece em linhas gerais ter exaurido os limites que alimentaram o seu declínio e entre altos e baixos parece ir traçando um voo de cruzeiro, no qual nem os números de casos explodem, nem caem os níveis inquietantes de casos e óbitos.

Idealmente poderia ser útil a análise da adoção de medidas mais duras, com duração de 14 dias, na tentativa de pressionar esse vôo de cruzeiro a desenhar um viés mais acentuado de baixa. Esse viés de baixa, se vier a ser alcançado, poderia se repercutir como uma onda de choque na cadeia de transmissão permitindo possivelmente que muitas vidas fossem poupadas.

Não estamos mais premidos pela oferta de leitos hospitalares insuficientes e o mais provável é que isso não volte a acontecer. Afinal, boa parte da população aprendeu a manejar o contágio pela Covid, usa máscaras, lava as mãos e mantém o distanciamento recomendado.

Estamos premidos por níveis inaceitáveis de adoecimento e mortes e é nisso que devemos pôr cabresto e freio.

 

 

 

 

 

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Ion de Andrade
Ion de Andrade é médico epidemiologista e professor e pesquisador da Escolas de Saúde Pública do RN, é membro da coordenação nacional do Br Cidades e da executiva nacional da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela democracia

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