OPINIÃO

Panteras Negras Importam

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Na madrugada fria do dia 04 de dezembro de 1969 a polícia invadiu um apartamento localizado no prédio que ficava no número 2337 da Rua W. Monroe, em Chicago, cidade mais populosa do estado de Illinois, nos EUA. Portando armamento automático e com luzes de lanternas saltando dos capacetes, os policiais arrombaram a porta e invadiram o lugar, disparando 89 projeteis antes que os ocupantes do imóvel pudessem esboçar qualquer reação. Quando a operação terminou, o ativista do movimento negro, Fred Hampton, de 21 anos, estava morto. Ele foi sumariamente fuzilado enquanto dormia ao lado da sua namorada grávida de sete meses que, milagrosamente, conseguiu sobreviver para contar a história daquela execução política.

Hampton havia se destacado a partir de sua atuação na Associação Nacional Integracionista Para Pessoas de Cor (NAACP) e logo se uniu ao Partido dos Panteras Negras, que havia surgido poucos anos antes no subúrbio negro de Oakland, situado do lado Leste da Baía de São Francisco, na dourada Califórnia dos hippies e do “verão do amor”.

A ideia dos Blacks Panters era simples. Amparados pela Segunda Emenda da constituição norte americana, que garante a qualquer cidadão o direito de portar armas para a sua autodefesa, Huey Newton, filho de um meeiro rural do Mississípi pregador da igreja Batista e Bobby Seale, filho de um carpinteiro e de uma faxineira do Texas, cansados de abordagens violentas por parte de policiais racistas, resolveram dizer “basta” e criar uma “brigada negra de autodefesa”.

A lógica era clara. Se cada cidadão norte americano tem o direito de portar uma arma e se o argumento liberal, que remontava a noção de tiranicídio defendida por John Locke na Inglaterra do século XVII, era de que todo o homem livre tem o direito natural e inalienável de se revoltar contra a opressão de um governo tirânico, os negros de Oakland exerceriam seu direito de fiscalizar, a distância, com seus fuzis e suas pistolas ponto 40 à mostra, o trabalho da polícia.

Rapidinho as autoridades públicas brancas do estado da Califórnia decidiram aprovar uma lei proibindo o uso de armas em público, afinal, como se sabe desde a revolta de São Domingos no Haiti (1791 – 1804), os “direitos iguais” dos liberais clássicos tem limites cromáticos.

Diante dessa estratégia de desmantelamento do seu movimento, os Panteras Negras fizeram uma “visita” a Assembleia Legislativa estadual da Califórnia, desfilando orgulhosamente, não apenas seu visual black power , mas seu armamento pesado, constitucionalmente garantido pela arquitetura ideológica dos pais fundadores liberais da “América Democrática”.

Diante da cena de negros armados desfilando pelos corredores do poder legislativo estadual, Ronald Reagan, à época governador Republicano da Califórnia e arauto da reação conservadora contra o espírito hippie do Haight-Ashbury, declarou: “Não acho que portar armas em público seja um caminho para resolver um problema que deveria ser resolvido entre pessoas de boa vontade. Qualquer um que apoie uma demonstração dessas deve estar fora de si”.

Mas não se engane, amigo velho, não era apenas a imagem assustadora, para a moral racial dos red necks norte americanos de negros armados pelas ruas, que forçava uma reação institucional ao Partido dos Panteras Negras.

A elaboração teórica do grupo assustava mais.

Se declarando vanguarda do movimento revolucionário norte-americano, aqueles eram ativistas que não tinham medo de se vincular ao “marxismo-leninismo”, nem de defender uma plataforma de tomada do poder pelas armas.

Afinal, como seria possível, após o assassinato do Reverendo Martin Luther King Jr, em Menphis, no Tennessee, naquele tenebroso 04 de Abril de 1968, manter a crença de que uma ação não violenta, baseada numa negociação conciliatória qualquer, pudesse oferecer alguma vitória substancial no que diz respeito a libertação real do povo negro?

E foi a partir dos três pressupostos de luta, articulados nos escritos do Reverendo Luther King Jr. (antiracismo, anticapitalismo e antimaterialismo) que os Panteras Negras postularam os 10 pontos básicos de sua proposta de ação.

Tanto para Huey Newton quanto para Bob Seale e posteriormente Eldrigde Cleaver, intelectual e escritor negro que veio a se tornar uma espécie de porta voz teórico do movimento, não haveria possibilidade de encontrar liberdade para o povo negro na América, sem um desmantelamento do sistema capitalista.

Antiracismo e anticapitalismo eram, nesse sentido, partes inseparáveis de uma mesma luta.

Não é então de se espantar que o grupo levantasse imediatamente o sinal de alerta no Deep State (CIA, FBI, Departamento de Estado) norte-americano.

O Partido dos Panteras Negras tinha uma perspectiva de poder. Eles eram muito mais do que um movimento de criação de uma “estética black”, que envolvia um senso de orgulho de si próprio, da cor da pele, do cabelo, da música e das roupas e culminava num “foda-se” estético direcionado ao comportamento anterior das classes populares negras urbanas, condicionadas o olhar do branco, que colocava o negro “no seu lugar”.

O “poder negro” não foi lido pelo Deep State norte americano como uma “metáfora”.

Por isso J. Edgar Hoover, policial ligado à direita conservadora republicana, que durante 38 anos chefiou o FBI, lia o “black power” dos Panteras Negras em sua literalidade: o poder político deveria ser retirado da casta WASP (Branca, anglo-saxã e protestante) e transferida para a mão dos negros.

Imagine o arrepio de terror que não passava pelo espinhaço da classe dominante norte-americana diante da imagem de jovens armados de subúrbios negros liderando rebeliões populares por todo o país?

Foi fácil então, no esteio do lema eleitoral da campanha de Richard Nixon em 1968 (“Lei e Ordem”) que Hoover propusesse como política de governo a caça e eliminação política (e até mesmo física) do Partido dos Panteras Negras.

Esse desmonte passou por várias etapas. Desde a prisão de Huey Newton (já em 1967), até o exílio forçado de Eldrigde Cleaver na Argélia, em 1968 e o julgamento de Bobby Seale, após os protestos de Chicago contra a guerra do Vietnã. O FBI atuou como um agente desestabilizador, criando conflitos entre o grupos e fações do movimento e infiltrando agentes informantes nas fileiras da cúpula do Partido.

Um desses informantes era o próprio guarda costas particular de Fred Hampton que apontou para o FBI do grande risco que a ação do jovem ativista representava.

E que risco era esse?

Hampton era um grande orador.

Sua capacidade de articular um discurso público instigava as plateias, tanto brancas e negras. Seu domínio da arte retórica lembrava em muito a capacidade de oratória de Luther King e antecipava, de certa forma, a riqueza discursiva de um Barak Obama.

Mas havia algo mais perigoso na ação de Hampton que era sua capacidade promissora de articulação política.

Hampton compreendia que a vanguarda da revolução norte americana era negra, mas que não seria possível vencer o racismo com racismo. Por isso ele começou a viajar pelo país articulando comitês populares em reuniões públicas em que dialogava com trabalhadores latinos, brancos pobres e negros, construindo uma coalizão de frente ampla a partir dos subúrbios de Chicago que buscava um ponto de contato entre o evangelismo social de Luther King, o nacionalismo negro de Malcom X e o apelo de união das massas do marxismo clássico.

Foi essa capacidade agregadora que fez com que o COINTELPRO (Programa de Contra Inteligência do FBI), importasse para o campo da política doméstica a partir das ações que a CIA empreendias tanto na Indonésia (patrocinado o massacre de quase um milhão de militantes do partido comunista local na ditadura de Sukarno) quanto nas ditaduras da América Latina; uma política de “eliminação física”, que culminou na execução de Hampton através da simulação de uma operação policial desastrada.

Curiosamente, anos depois, durante as campanhas eleitorais dos anos 80, em pleno apogeu da era Reagan-Thatcher, o senador Jesse Jackson retomou com força a ideia de Hampton de uma coalização “arco-íris” sob a vanguarda do movimento negro. A ideia era a costura de apoios que articulasse os diversos estratos populares postos à margem do modelo “neo liberal” apoiado pela maioria moral conservadora que colocou os Republicanos no poder por doze anos seguidos e que, a partir disso pudesse gerar a força necessária a eleger o primeiro presidente negro dos Estados Unidos .

Mas os tempos eram outros.

Nos documentos da COINTELPRO liberados 50 anos após os acontecimentos radicais dos anos 60, existe a deliberação clara de: “expor, interromper, desviar ou neutralizar as atividades de nacionalistas negros, organizações e grupos de ódio, suas lideranças, porta vozes, associações e apoiadores”.

Não parece ser a toa que, num intervalo de quatro anos os Estados Unidos viram serem assassinados três de seus mais promissores líderes negros. Malcon X em 1965, Luther King em 1968 e Hampton em 1969.

Hoje, com seu tecido social esgarçado pela pandemia e pela depressão econômica que bate à porta; em meio a uma guerra civil não declarada entre Republicanos e Democratas pelo controle do poder em Washington; vendo sua hegemonia geopolítica balançar diante de uma integração euroasiática galopante capitaneada pela aliança russo-chinesa, os EUA da era Trump assistem novamente brigadas negras em roupas paramilitares, desfilando armadas, dessa vez pelas ruas de Lousiville, Kentucky, em protesto contra o assassinato de Breonna Taylor, técnica de enfermagem de 26 anos, morta em Março de 2020, por policiais que invadiram seu apartamento.

Mais de 50 anos após a execução política de Fred Hampton, a neurose de repetição que formou as sociedades escravistas da América (do norte e do sul) parece trazer à tona a necessidade da releitura de antigos lemas políticos. Para além de um apelativo “vidas negras importam” ou de um suplicante “parem de nos matar”, talvez seja a hora de reencontrarmos o “poder negro”. Afinal, nada faz tremer mais os mestres do universo do capitalismo financeiro global do que a ideia de que, um dia, o poder possa realmente estar na mão do povo.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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