OPINIÃO

Pão, trabalho, pão

Ele e ela acordam às 4h da manhã e correm para sua padaria de bairro todos os dias, e quando eu falo todos os dias não é apenas expressão, eles saem de fato todos os dias antes do sol raiar para vender pão, de domingo a domingo, com ou sem chuva, com ou sem feriados. Ela vinda de uma linhagem de negociadores de pão e ele uma máquina humana de trabalho, criaram suas filhas e construíram suas vidas em cima disso, assim, de acordar todos os dias antes das calopsitas do quintal para ir vender pão e voltar para casa às 20h30.

Um dia perguntei a ele qual o motivo de insistir em um negócio mal remunerado, dado o volume de trabalho, cheio de nuances com padeiros, fornecedores, fornos, fogos, farinhas, fermentos, fiados, feriados, feiras e família, mesmo em dias de santo. A resposta foi simples e quente, como deve ser um pão francês que comemos no café da manhã, “Se eu não for como é que o povo vai comer pão? Pão se come todo dia”.

Na pandemia viram gente a fole padecer, uns próximos demais, outros nem tanto, expostos no meio da maior tragédia do século, mas não deixaram de cumprir sua missão de alimentar. Ele, que faz mágica para criança, que é recatado e quiçá um pouco tímido aos elogios (ficará também ao ler isso) nunca se deixou enganar pelo negacionismo, sabe da importância dos fechamentos, respeita os limites dos tempos em que vivemos, mas sabe que ao sair de casa na hora que sai e que volta, o faz não só pelo seu sustento, mas também porquê tem a consciência que fornece um dos alimentos mais antigos e acessíveis da humanidade.

Ao chegar em casa, ele fala sobre o padeiro que cria um mocó de estimação, sobre o mecânico vizinho que dança Michael Jackson como ninguém, sobre José das pamonhas e suas pamonhadas, sobre vizinhos varrendo calçada e meninos correndo, sobre um cara suspeito que vem comprar cigarro na unidade, sobre os mil e um dramas dos clientes que vão comprar seu pão.

Aí eu percebo que há uma relação de troca profunda nesse gesto de acordar às 4h da manhã todos os dias, ele e ela viraram parte daquele microcosmo que é a padaria e a comunidade, quase como Amarcord de Felini. Talvez tudo isso os levem para uma Natal que já não existe, de uma relação comunitária que já não existe, mas o povo continua comendo pão.

Na abertura do seu “História da alimentação no Brasil”, Cascudo fala sobre como foi provocado por Josué de Castro a escrever em parceria um título que retratasse a questão da fome no Brasil, a ideia não vingou, pois um queria retratar a bonança e o outro a escassez, apesar da sinfonia ser a da alimentação, a dança de ambos era bailada de forma antagônica naquele instante.

Sidiana Ferreira, pesquisadora e escritora paraense, em sua página no Instagram (@daquiloquesecome), provoca semanalmente minha curiosidade alimentar. O start desse texto se deu a partir de um post dela sobre como em algum momento da história egípcia, pagavam-se trabalhadores com pães e cervejas.

Trouxe o Egito para falar que é de lá que surgiu a massa ancestral do pão que comemos hoje, uma mistura de farinha de centeio com água resultava em uma massa molenga que ia para os fornos e daí saía o pão, comida de povo, de trabalhador, de gente. Depois disso os hebreus, libertos da escravidão do Faraó, levaram a receita para Jerusalém e aprimoraram, aprimoraram tanto que dali surgiram as primeiras padarias, várias, vale salientar. Em seguida o pão toma conta dessa esfera flutuante em que vivemos, pelas mãos judias, cristãs, pagãs e mulçumanas.

E nessa odisseia, se engana quem acha que todos os pães advinham somente do trigo ou do centeio, na idade média, para fazer volume punha-se de tudo um pouco, de farelos a pó de madeira. Volume na barriga e no número de doenças, heranças do pão pobre.

Trágico como essa história se repetiu nos pães feitos de barro ou de farinha de cactáceos no semiárido nordestino ao longo dos tempos. Gritante e revoltante como esse tempo medievo já acena em nossa esquina temporal novamente. Tem gente com fome e não é pouca gente e sinto uma incômoda normalização do visivelmente aumento exponencial de pedintes nos sinais de natal, nos sinais do Brasil, os sinais…

O pão sagrado, enaltecido, humilhado, com casca cheirosa, quente com manteiga, o pão romano com circo, o pão achatado, pão para comer, pão de forma, francês, carteira, massa fina, doce, pão farofa, pão baguete, pão do café, com nata, o pão da cobal com carne moída, o pão da vida, o corpo, o pão necessário, pão para matar a fome de gente que não pode comprar outra coisa, o pão para gente que talvez nem isso possa comprar. Trabalho demais e descanso de menos, cansaço demais e pão de menos. Vacina, pão, saúde e educação.

O pão pita ficou bem conhecido ultimamente como pão árabe ou sírio. É leve e bem simples de fazer. Anota aí, 225 gramas de farinha de trigo, 140 ml de água levemente morna, 5 gramas de fermento biológico seco, 1 grama de sal, 5 gramas de açúcar e 8 ml de azeite de oliva.

Dissolva o fermento na água morna e acrescente 100g de farinha. Deixe o fermento desenvolver por 15 minutos. Peneire a farinha restante (125g), o sal e o açúcar. Em seguida, junte todos os ingredientes (depois que o fermento desenvolveu nos 20 minutos) e sove até formar uma massa lisa e macia. Coloque em uma vasilha para crescer.

Depois que o volume dobrar, amasse e sove novamente. Dividida a massa em 15 pedaços e boleie (forme bolas lisas da massa). Deixe crescer novamente, abra a massa em discos achatados bem finos, passe em farinha de trigo. Asse em forno de lastro pré-aquecido a 280ºC (muito quente) ou sobre uma chapa de ferro grossa ou pedra também muito quente. Deve demorar em torno de 1 minuto para assar.

 

 

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