OPINIÃO

Para Lima Barreto, com amor

Dia desses, vi que a editora Nova Fronteira vai lançar no dia 27 de julho mais uma enésima compilação da obra de Lima Barreto. Embora tod@s saibamos que o carioca maldito já entrou para o cânone literário brasileiro faz tempo (no ano passado, 2017, foi o grande homenageado da principal festa literária do país, a FLIP), não deixo de me admirar como aquele cidadão negro, pobre, louco e marginal das letras de outrora faz hoje tanto sucesso e movimenta tanto o mercado da literatura.

A primeira vez em que ouvi falar de Afonso Henriques de Lima Barreto, lá na saudosa ETFCE, foi naquelas clássicas aulas do ensino médio que teimavam (teimam) em abordar autores e obras espremidos em escolas literárias. Caí imediatamente de amores por ele. Neto de escravos, órfão de mãe, polêmico, boêmio, excluído pelos pares e dotado da habilidade de fina ironia, não tinha como não gostar dele. De lá pra cá, me diverti com as saúvas que atacavam Policarpo Quaresma em um Brasil ainda agrário, me comovi com a condição de mulher negra de Clara dos Anjos na República Velha, ri e lamentei o Brasil caricaturado tão bem em Os Bruzundangas. Com a obra de Lima Barreto – romances, crônicas, artigos, cartas, diários – a gente sofre e goza ao mesmo tempo. Muito mais que um pré-moderno, Lima Barreto era um visionário, um homem para além de seu tempo e certamente ele não se encaixa em uma só gavetinha didática de descrição e interpretação.

Uma prova disso, me parece, é o seu livro de estreia, Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Publicado com recursos próprios em 1909 numa obscura tipografia de Lisboa e de cuja tiragem ele só pode usufruir de poucos exemplares, este livro poderia ter sido escrito e editado ontem, tão bem retrata alguns aspectos do campo literário dos dias de hoje.

Conforme apontam alguns estudiosos, como Francisco de Assis Barbosa (o seu biógrafo pioneiro) ou Brito Broca, o romance teria tido como fonte de inspiração o jornal Correio da Manhã, com suas rotinas e seus ratos de redação. O enredo, narrado em primeira pessoa, conta as (des)venturas de um aspirante a jornalista e escritor vindo do interior e que consegue emprego em um jornal chamado O Globo. Logo o narrador-protagonista se vê tragado pela vida na capital carioca e pela cena literária de então, marcada por muita superficialidade, muita tendenciosidade e, por que não dizer, bastante hipocrisia. Todos os tipos recorrentes da imprensa da época, em que se confundiam ainda fortemente jornalismo e literatura, estão ali retratados – o bajulador de celebridades, o pseudopoeta, o gramatiqueiro preconceituoso, o abutre em busca de novidades e por aí vai.

Não conto mais sobre o enredo para não estragar a leitura de potenciais novos leitores (é possível achar o romance em módicas edições de bolso; na Cidade Alta, por exemplo, já vi pelo menos dois exemplares no sebo ambulante de Lucena). Mas posso adiantar que, se a ideia de Lima Barreto foi de causar estardalhaço, seu livro foi recebido com retumbante silêncio, o que não é de se espantar – o pessoal do Correio da Manhã não gostou de se ver ali naquele romance tão bem representado e por isso, como forma de exclusão, lhe dedicou somente silenciamento. E o único que se atreveu a fazer alguma crítica do romance, José Veríssimo, apontou que o romance teria um grande defeito, o excessivo personalismo.

O que para mim, na verdade, é um grande mérito. A literatura de Lima Barreto não era fria, artificial ou pomposa, dessas de gabinete e de firulas de salão, era uma literatura cheia de calor e de vida, que bebia intensamente nas ruas e no dia-a-dia de gente simples e real. Tanto que, tempos depois, outro escritor genial que retratou primorosamente a marginália paulistana, João Antonio, autor de Malagueta, Perus e Bacanaços, dedicou sua obra a ele, Lima Barreto.

Porque o mundo dá voltas e o tempo, me parece, ainda é o melhor critério de qualidade, para além das convenções questionáveis e das regrinhas arbitrárias de um campo social – o das letras – ainda permeado de muito elitismo e muita arrogância. O mundo dá voltas e no dia 27 de julho, além do lançamento da editora carioca Nova Fronteira, aqui em Natal, pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN, acontece a defesa de dissertação de mestrado de Auristela Rafael, cearense e apaixonada por Lima Barreto como eu, que se dedicou a analisar oito crônicas publicadas originalmente apenas em revistas e sob pseudônimos diversos. A defesa é pública e acontece às 14h no auditório 1 do Ágora, do ladinho do nosso querido Setor II de aulas.

Fica aqui a dica. Com muito amor.

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