OPINIÃO

Para Rafael, do metrô…

Preciso lhe contar que estive sim no samba, naquela sexta-feira, mas cheguei somente às 19h13, 43 minutos portanto depois do horário marcado, e com muitos dias de atraso praquele café prometido. Queria avisar que chegaria mais tarde, mas lembrei que seu celular havia sofrido um ataque de poesia e sucumbiu, estraçalhado, vítima de um surto de certo passageiro do metrô.

Não sei se o ato terrorista foi motivado por tamanha empolgação dele com sua rima crítica aos vícios que comandam a sociedade moderna, ou para contrapor sua teoria de que as vidas dessas pessoas dependem desse aparelho, que engole o tempo da gente com excesso de informações e conexões muitas vezes fake, e elimina, cada vez mais, o tempo para as conexões reais.

Claro que isso, rimado, fica bem mais bonito, e se dito por você, com aquela força e sangue nos olhos que fazem vibrar suas histórias únicas pelo metrô de Brasília, é mesmo capaz de provocar atos terroristas maravilhosos, daqueles que mudam não só o dia, mas o mundo.

Fato é que nosso encontro que não aconteceu comprovou em parte a dependência que temos do celular e seus tentáculos, às vezes úteis. Digo “em parte”, porque não faço ideia do que teria acontecido se eu chegasse na hora combinada, se você estaria lá, ou se também teria não comparecido ao nosso encontro que não aconteceu e, como eu, sentiria falta da possibilidade da comunicação fácil (e efêmera) do whatsapp, por exemplo.

Até te mandei mensagem, na esperança que no decorrer da tarde outro alguém no metrô decidisse repassar a você esse fardo de carregar aquele objeto viciante, crente que sou nas pequenas e misteriosas compensações do universo. Avisei, pra ninguém, que tava atrasada, mas a caminho.

E foi assim que acabei escrevendo de novo pra ninguém, no dia seguinte do encontro que não aconteceu, a seguinte frase: agora te devo um pedido de desculpas e uma crônica, que havia prometido depois da primeira vez que te vi cortar o rotineiro silêncio da tarde no vagão das bicicletas, com sua rima certeira.

Também chega com atraso essa crônica, fora de época, que estava te devendo, mas que só surgiu no papel (virtual) agora, embora construída desde aquele instante singular em que você entrou num vagão de pouca vontade e despertou os passageiros pra necessidade de dar valor às pequenas coisas da vida, para as leituras esquecidas, aquelas no papel, pra que aproveitassem melhor a viagem…e a outra viagem, que é viver…

Lembro do título do livro que carregava, “O Idiota”, de Dostoiévski, não sei se como arma, escudo ou protesto, e que encerrou sua “poesia-viva”, que é como estou chamando agora sua arte de rimar sem escrever, só falando o que pensa, porque essa arte é mais profunda, já que nunca escrita, como já me revelou, mas encravada na alma, cheia de incontáveis e incontestáveis verdades, ditas apenas ali, aos poucos que tiveram o privilégio de ouvir, e, em alguns casos, de sentir um incêndio dentro de si romper a normalidade e entorpecer a cabeça de uma alegria boba simplesmente por ter tido o privilégio de presenciar esse momento.

Era isso que queria dizer do que vi e ouvi, apesar de que, de qualquer forma, como atual exilado do mundo virtual, não sei se vai chegar a ler esse meu pedido de desculpas em forma de crônica (porque preferi pagar todas as dívidas de uma só vez e fiz tudo junto, como disse pra ninguém que faria).

Afinal, sabe-se lá quando esse texto terá coragem o suficiente para ir além da internet e finalmente ser lido nas páginas de um livro que, desde que cheguei em Brasília, sonho em publicar, antes que a viagem custe mais do que “Cinco Contos?”, que é o título inspirado num grafite pintado num muro que vejo no caminho de casa pro trabalho, às margens do metrô.

E sua poesia-viva precisa estar nessas páginas também, ainda que retratada sem rima, porque, confesso, não sou tão boa nisso quanto você, Rafael, meu amigo-arte do metrô que espero em breve encontrar desavisadamente em um desses vagões ou nos melhores acasos da vida.

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