CULTURA

Para sociólogo, ocupação do Carrefour é resposta para omissão do poder público

Ocupa Carrefour é fruta da ausência do poder público

Como explicar a transformação do estacionamento do Supermercado Carrefour em área de convívio social? Para o sociólogo Edmilson Lopes Júnior, professor de Ciências Sociais da UFRN, a resposta está na omissão do poder público em criar e manter bem conservados os espaços urbanos de entretenimento destinados à população, sobretudo as mais carentes.

Edmilson observa que há um processo de exclusão de parcela significativa da população de áreas que deveriam ser voltadas ao convívio mútuo. Na avaliação do sociólogo, a maior parte dos espaços públicos de Natal é destinada exclusivamente ao consumo das classes média e alta da cidade.

“Natal é uma cidade muito violenta com os seus jovens, estruturalmente violenta. Além dos números da violência interpessoal, temos uma violência que não é percebida, não é tematizada, que é a violência causada pela ausência de equipamentos públicos para esta população. Isso provoca a completa exclusão destes jovens, principalmente os mais pobres, do convívio social. Então, essa parcela da população encontra em lugares como o Carrefour uma oportunidade de resistir, de mostrar que eles existem e querem participar da formação social da cidade”, explica o sociólogo Edmilson Lopes Júnior.

Edmilson Lopes Jr. é sociólogo e professor da UFRN

 

O professor da UFRN, no entanto, acrescenta que essa tentativa de marginalização e exclusão de jovens do convívio social não é um fenômeno exclusivamente atual. Ele lembra que há cerca de 15 anos foi elaborado um projeto, e entregue à Prefeitura de Natal, para construção de parques públicos na Via Costeira para atender à população da comunidade de Mãe Luíza, desprovida de equipamentos públicos de entretenimento. A ideia, inicialmente aprovada pela gestão municipal, foi rechaçada após pressão exercida pelo setor de hotéis e empresários, que temiam o aumento da criminalidade na área.

 

“Para as elites locais, são desejáveis apenas os jovens de classe média alta nos espaços destinados à classe média alta. Porém, é impossível controlar as pessoas que estão à margem desse processo. Então, os jovens marginalizados vão ocupar supermercados, shoppings ou outros locais semelhantes para montar resistência. Eu, particularmente, acho isso incrível. É fantástico que exista resistência no Carrefour, por exemplo, porque mostra que há uma criatividade social, um desejo de transformação vinda de uma parcela da população, que supera todas as tentativas de sufocar a liberdade dessas pessoas”, analisa Edmilson.

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Carrefour é um local privilegiado, aponta urbanista

 

A localização geográfica do Carrefour também pode ser apontada como fator primordial na transformação do estacionamento do local em área de convivência. Pelo menos é o que defende o arquiteto, urbanista e ambientalista Francisco Iglesias. Ele sugere que a proximidade do supermercado com escolas, universidades e, principalmente, com a Árvore de Mirassol influenciaram na popularização do espaço.

“Quando a Prefeitura instalou a Árvore de Mirassol, no período natalino, muitas pessoas iam para o Carrefour para ter uma visão mais ampla da torre iluminada. Isso aconteceu por acaso, não foi um movimento estimulado ou previamente pensado. A loja, por ficar num lugar mais alto em relação à BR-101, foi transformada num mirante e isso atraiu muita gente para lá”, recorda.

 

Urbanista afirma que a prefeitura não é ousada nem planeja ações para a cidade

 

O urbanista cita que as condições geográficas do Carrefour, construído sobre uma duna, “criam uma sensação de superioridade à cidade. Então, é prazeroso observar de cima a movimentação de veículos, o vai e vem de pessoas… isso passa a sensação de poder sobre o local onde a gente vive. Sem contar que, por estar em um ponto elevado, a circulação de vento naquele local é maior, tornando o ambiente agradável para as pessoas”.

Assim como o sociólogo Edmilson Lopes Júnior, Francisco Iglesias também cita a falta de zelo dos gestores com espaços públicos como fator preponderante para a ocupação do estacionamento. A região de Candelária, por exemplo, onde está cravado o Carrefour, abriga nove praças públicas. Todas têm problemas estruturais e não oferecem boas condições de uso para a população, conforme observa o urbanista.

“É uma soma de fatores que contribuem para que as pessoas simplesmente deixem de ocupar as ruas e passem a ocupar espaços privados, como acontece no Carrefour, mas também ocorre nos shoppings, que são os principais espaços de entretenimento de Natal. Costumo dizer que há uma grave deficiência urbanística em Natal. Não há ousadia, ações planejadas para cuidar da cidade. O que a Prefeitura faz são reparos quando a situação se torna insustentável. Então, a população vai buscando alternativas para não abrir mãos de momentos de lazer”, conclui.

 

* A série de reportagem “#OcupaCarrefour: liberdade vigiada” foi uma das vencedoras da 1ª edição do Mais Repórter, iniciativa pioneira no Rio Grande do Norte financiada exclusivamente pelos leitores assinantes da Agência Saiba Mais. Contribua para que outras reportagens inéditas, como a produzida pelo repórter Norton Rafael, continuem dando visibilidade às narrativas silenciadas da sociedade. Apoie o jornalismo independente: www.saibamais.jor.br/assine.  

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