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Partiu Carlança, a guitarra virtuose dos bailes e do Beco da Lama

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O Beco da Lama, foco de resistência da boêmia natalense, perdeu seu principal guitarrista. Carlança Sena morreu nesta terça-feira (22) em decorrência de uma diabetes agravada por uma infecção hospitalar. Ele passou 50 dias internado no hospital Giselda Trigueiro. O velório e o sepultamento ocorrem amanhã, em Açu, cidade-natal do guitarrista.

A divulgação da notícia da morte de Carlança deixou a Cidade Alta de luto. Amigos e admiradores do guitarrista fizeram questão de registrar mensagens nas redes sociais do músico.

A Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjascências (SAMBA), entidade que Carlança ajudou a fundar em 1994, fará uma homenagem ao músico no próximo sábado, a partir das 11h, em frente ao Sebo Balalaika, um dos espaços mais frequentados por Carlança na região.

Tarcio Fontele, diretor-executivo da Samba, fala da relação do músico com a região:

– Carlança era um apaixonado pelo Beco da Lama. Ajudou a fundar a Samba e construiu o movimento cultural do centro da cidade.

Carlança era autoditada e considerado um virtuose por parceiros e colegas de música. O guitarrista Juliano Ferreira, o Jow Jow, é de uma geração de guitarristas bem mais nova, mas nem por isso distante de Carlança. De Portugal, onde estuda doutorado, Jow falou das referências do músico:

– Carlança era extremamente criativo, fruto de toda a sua vivência no baile. Tinha o jazz na sua linguagem, mas também era totalmente fincado nas raízes brazuca.

 Se a escola de Carlança foi a vida, algumas das salas de aula certamente foram as bandas de baile, onde o repertório ia de música popular aos clássicos internacionais, dependendo do que estivesse nas paradas de sucesso da época.

Nos anos 1980, o empresário potiguar Zarinho agendava shows para duas bandas de baile: Os Tigres e os Os Tártaros.

Colega de Carlança, o guitarrista Niltinho do Acari lembra que a banda Os Tigres foi comprada, com todos os músicos, pelo cantor potiguar Carlos Alexandre, que desde 1978 vendia milhares de discos em todo o país, quando estourou nas rádios com o sucesso Feiticeira.

Niltinho era o guitarrista oficial de Carlos Alexandre e lembra que a dedicação de Carlança chamava a atenção dos outros músicos.

– Carlos Alexandre comprou a banda Os Tigres e mudou o nome para banda Alta Frequência. Carlança era o guitarrista e os músicos foram morar numa casa na Cidade da Esperança. Passavam o dia ensaiando na casa e sempre que eu chegava Carlança estava deitado numa rede estudando o instrumento dele. Ele era muito dedicado, estudioso. Carlança era diferenciado e não tinha vaidade nenhuma.

Parceria

A vida de artista colocou Carlança em sintonia com vários músicos de Natal e também de outros estados. Numa temporada em que morou em Fortaleza, se apresentou com sanfoneiros reconhecidos. Também tocou com Ivanildo Sax de Ouro.

Das parcerias, a mais presente foi, sem dúvida, com o compositor violonista Nagério. Sem qualquer vaidade, os dois se entendiam num casamento quase perfeito.

Por telefone, Nagério foi só elogios ao amigo de infância que reencontrou pelas ruas e bares de Natal.

– Carlança era uma figura de uma potência maravilhosa. Conheço o Carlança desde menino, então tínhamos um bom relacionamento musical e de amizade. Ele vai deixar um legado legal, quem esteve perto dele sabe. Tinha o jeitão dele de ser. É uma perda muito grande para o lado da música.

Carlança estava decidido a contribuir com o primeiro disco de Nagério, ainda em fase de pré-produção. O amigo lembra que o reencontro musical com o guitarrista ocorreu quando Carlança deixou a banda da cantora e compositora Khrystal. A partir daí, as reuniões musicais, nos palcos ou nas casas de amigos em comum, foram se sucedendo:

– Carlança era um virtuose, um guitarrista bastante respeitado entre os guitarristas. Joca Costa, Manoca Barreto, todos respeitavam muito o Carlança.

Quando ele veio para Natal, tocou com Khrystal e depois que ele saiu da banda nos reaproximamos. E ficamos bem à vontade, sem muitas obrigações de ter que tocar. A gente se entendia, tocava de olhos fechados.

 

Nota da Redação:

Numa tarde de sábado, entre uma cerveja e outra no bar de Nazaré, no Beco da Lama, Carlança me disse que não gostava de encontrar músicos em bares no final de semana porque aquilo significava desemprego. “Músico bebendo em bar no sábado está sem trabalho. Se tivesse emprego estava em casa ensaiando para tocar à noite”.

Carlança era assim. Crítico e generoso. Ele já não bebia mais. Estava sempre preocupado com os outros artistas. Nessa época, morava na casa da Biba Thompson, a mãe de dezenas de artistas que fizeram e ainda fazem da Cidade Alta um grande albergue público.

Guitarrista de extrema habilidade, era figura cativa nas festas do Beco. Também tive o privilégio de vê-lo tocar na casa de Cris e Eugênio Meio Quilo, rodeado de amigos, levado por Abimael Silva, que poderia editar uns três livros só sobre as histórias que conhece do guitarrista.

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Carlança é dessas pessoas que, quando morrem, fazem a gente repensar várias coisas sobre a vida.

Uma delas é que se houvesse mais tempo, o mundo tinha tudo para ser assim meio virtuose.

Como nas bandas de baile por onde Carlança tocou.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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