OPINIÃO

Páscoas, passagens

Meu nome é Fabio. Sou padre católico. Trago pedacinhos de estrelas e lama de barro em meus sapatos, chinelos, pés descalços. Como se não bastassem os pés para terra, sinto asas em meus braços. Canto com o lindo Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo… pó de nuvens no sapato, como o trator é vermelho e incêndio nos cabelos”. Amo a minha Igreja, a mesma do papa Francisco, o novo Chico da Humanidade. Tem o Chico santo de Assis, o Chico Buarque, o Chico Piúba, meu pai. Amo o Ecumenismo, o Diálogo Inter-religioso, a promoção, proteção e reparação dos Direitos Humanos civis e políticos, assim como os Direitos Humanos econômicos, sociais, culturais, ambientais e os direitos da Mãe Terra. No meu coração abraço e beijo Deus, que nos ama antes que amemos à Ele. Abraço e beijo as pessoas, as plantas, os bichos, as pedras, os livros, as pinturas, a música, a dança, a diversidade e pluralidade cultural. Abraço e beijo você.

O companheiro jornalista, Rafael Duarte, me convidou para escrever uma coluna semanal, quinzenal ou mensal. Vamos ver como vai ficar. Eu tenho problemas de coluna. Uma coluna dói. Duas devem doer mais ainda. Uma no corpo e outra aqui nesta agência de reportagem e jornalismo independente, o Saiba Mais. Muito obrigado pelo convite de voltar a escrever em terras potiguares, meu chão e meu povo. Foram dez anos no antigo Diário de Natal e depois mais três na Tribuna do Norte. Todas as semanas. Aonde estão as palavras antes de serem escritas?

Não é como um autor que desejo escrever, nem como narrador, um licenciado em filosofia e teologia por causa do seminário ou outros cursos que fui fazendo ao longo da vida. Gostaria de falar tão simplesmente como um companheiro, amigo e irmão. Gostaria de falar como um de você. Aqui partilharemos as coisas bonitas que temos e as dificuldades que passamos. Nossas lágrimas e sorrisos. Escrevo com as mãos do coração. Se você reparar bem, as coisas que serão ditas, virão não só de mim e de você, mas d’Aquele que vive e fala em nós dois.

É Páscoa! É como se tudo estivesse morto e passasse a viver de novo. A humanidade e natureza ressuscitaram. A vida da gente às vezes é assim, igual as más traçadas linhas. Quantas páscoas, quantas passagens já tivemos em nossas vidas ou ainda devemos ter!

Quando uma relação conjugal está de mal a pior e o casal procura encarar os problemas e encontra um caminho de continuar a estrada juntos, isto é uma passagem, uma páscoa, uma libertação. Igualmente se pode dizer de um casamento que não deu certo. Quando os dois, esgotada todas as possibilidades de continuarem juntos decidem pela separação, isto é também passagem, páscoa e libertação. Do mesmo modo quando uma pessoa já bem “estável” na sua vida profissional e econômica decide mudar tudo, quase começando do zero, na busca de outros valores e de um trabalho diferente; quando um padre, uma freira ou outro ministro religioso livre, consciente e voluntariamente deixam o ministério e ou vida consagrada e seguem novos caminhos; quando um homossexual depois de um processo intenso, angustiante, contudo, também libertador, assume, privada ou publicamente sua orientação sexual para vivê-la; também quando alguém sai dos grilhões das drogas, do alcoolismo, do consumismo e hedonismo, isto é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Quando a pessoa passa do conjunto de regras morais escravizantes e anacrônicas típicas do fundamentalismo, legalismo, moralismo e rigidez dos fariseus e passa a viver no discipulado de Jesus, isto é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação. Quando pessoa e povo passam da intolerância e do ódio para o respeito e o amor; quando a iniciativa privada passa de um modelo de exploração do trabalho e devastação da natureza a uma prática da sustentabilidade que compreende a sustentabilidade econômica, social e ambiental interdependente e indivisível; quando pessoas e grupos passam da opressão da miséria e da pobreza para uma condição econômica e social para viverem com dignidade nos ditames da justiça social, da fraternidade e da paz; quando Estado e Sociedade passam de uma prática de devastação ecológica para um desenvolvimento sustentável, mais ainda, para uma ecologia integral como lembra o papa Francisco na encíclica Laudato Si’, isto é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação. quando tivermos passado a pandemia e superado os pandemônios também será uma passagem, uma páscoa, uma libertação. Esperamos e nos esforcemos para que não durem nem uma coisa, nem outra.

Na plenitude do tempo o Pai realiza uma nova criação por meio do seu verbo encarnado, Jesus morto e ressuscitado, na glória e poder do Espírito. No batismo aconteceu o maior e mais belo evento em nossa existência. O Pai, pelo Filho, nos dá o Espírito e o “próprio Espírito Santo se une ao nosso espírito” e, nós nos tornamos “um só ser com Cristo” (Rm 6,5). Assim, sacramentalmente fomos crucificados (Rm 6,6), mortos (Rm 6,8) e sepultados (Rm 6,4) com Ele para a vida velha e, ressuscitados (Cl 2,12) e assentados nos céus (Ef 2,6) com Cristo para uma vida nova.

É Páscoa! Morrer para vida velha e ressuscitar para uma vida nova. O Pai, que nos ama com amor materno, por meio da Páscoa do seu Filho morto e ressuscitado, na ação do Espírito Santo faz uma nova criação. Fomos salvos e libertos. Façamos também uma páscoa em nossas vidas! Escutemos os relâmpagos, vejamos os trovões, sintamos a chuva com tudo de bom e bonito que ela traz. Deixaremos de ser gravetos e passaremos a plantas com flores e frutos. Sejamos livres, “foi para liberdade que Cristo Ressuscitado nos libertou” (Gl 5,1).

* Padre Fabio Potiguar das Fronteiras é presidente da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife; membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife. Coordenou o processo de sua refundação em 2017 e atualmente é capelão das Igreja das Fronteiras onde viveu Dom Helder Camara. Também integra o Instituto Dom Helder Camara – IDHeC , instituição responsável pela casa, arcevo, museu e projetos sociais. É membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC-PE e do Fórum Diálogos – Fórum da Diversidade Religiosa em Pernambuco.

 

 

 

 

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