OPINIÃO

Passado é privilégio

O Brasil, meus caros amigos, é o país do absurdo. O país que coloca no bolso, sem muito esforço, a querida Macondo de Gabriel García Márquez. E não é só pelo chanceler que se acha um cruzado da Idade Média ou o guru da Virgínia que desconfia que a terra é plana. O absurdo é tanto, meu caro leitor e minha cara leitora, que até o passado, além de ser incerto como dizia o ministro tucano Pedro Malan, é um privilégio.

Quem não viu ou leu belas histórias de alguém retornado ao povoado europeu de onde veio o bisavô, a bisavó? Por vezes até conhecendo um primo distante ou algo que o valha. Talvez até mesmo conheça diretamente alguém que se orgulha do passaporte europeu. Agora imagine só que saber da própria história, da origem dos antepassados, entender os passos que trouxe cada um de nós até aqui é algo negado à metade desse país com mais de 200 milhões de habitantes que se declara preto ou pardo. Gente que foi obrigada a mudar de nome e esquecer sua origem antes de embarcar no porão de um navio, atravessar o Atlântico por duros e longos dias e ainda assim sobreviver.

Uma condição de social que apaga automaticamente qualquer possibilidade de ir além do nome de um bisavô ou bisavó. E olhe lá… Daí para trás no máximo um recibo de compra com o nome, para aqueles que têm “sorte” de encontrar alguma coisa nos arquivos antigos de paróquias Brasil afora.

Este próprio escriba, que tem em 3 dos 4 avôs e avós a origem preta, não faz a mínima ideia sequer de onde viveram, muito menos de onde vieram os pais e mães de seus bisavós e bisavôs. Uma pista aqui, outra acolá, mas nada substancial. Arquivos, certidões, batizados? Muito menos. Alguns sites oferecem análises de DNA que podem identificar o país e até mesmo a tribo africana de origem pela linhagem do pai ou da mãe, neste caso pela bagatela de 400 dólares. Fácil, né? E olhe que não é nem para identificar mesmo a família que se perdeu no tempo, logicamente.

Para quem tiver a curiosidade de entender um pouco mais do quanto isso é completamente massacrante, recomendo uma pesquisa no Twitter para encontrar os relatos de inúmeras pessoas falando sobre essa busca pelas raízes ou, como muitos disseram, a descoberta de há quantas gerações estamos na escravidão a partir de tênues fios que raramente passam de 3 ou 4 gerações. Este é o nosso Brasil, o país do absurdo que muito lentamente tenta entender a sua história, pelo esforço de alguns que ao olharem para dentro apontam para a compreensão do todo.

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