OPINIÃO

Patinando na vanguarda do atraso

O candidato a presidente da república pelo PRB, Flávio Rocha, cujo patrimônio familiar alcança aproximadamente 2 bilhões e 400 milhões de reais, declarou em uma entrevista a uma rede de TV que não via a desigualdade social como um problema. Por sua vez, João Amoedo, do Partido Novo, que jura de pés juntos não ser o candidato do mercado financeiro, com a sofisticação aritmética de um aluno do quarto ano do ensino fundamental, afirmou categoricamente que: “simplesmente dividindo riqueza, um dia ela acaba”.

Se por um lado é extremamente salutar para a democracia que os representantes da elite do dinheiro possam defender abertamente seu ideário neoliberal, por outro, a desconsideração daquilo que entidades muito pouco bolivarianas como o Banco Mundial e o FMI já admitem, ou seja, que desigualdade em excesso pode inibir crescimento econômico e que diminuir a iniquidade social é fundamental para o desenvolvimento, mantém o país patinando na vanguarda do atraso.

O discurso de Amoedo, por exemplo, só faria sentido se os pobres, com a melhoria de seu poder econômico, guardassem o excedente do seu rendimento em botijas enterradas no quintal de casa em baixo de pés de oiticica ao invés de consumir em shoppings centres, como o do pai de Flávio Rocha.

Esse raciocínio primário desconsidera completamente dados empíricos que mostram que a criação de um mercado interno forte em um país como o Brasil é condição essencial para a geração de riqueza, e que isso só pode acontecer, como a experiência do lulismo demonstrou, com desconcentração de renda. Por outro lado, a ideia de que a desigualdade não é um problema no Brasil só falta uivar de tão ideológica que é.

O sincericidio eleitoral de Flávio Rocha, que parece muito coerente para quem habita no topo da cadeia alimentar do capitalismo com dominância financeira, esconde o fato de que a brutal concentração de renda no Brasil trava a economia. Além do mais, em um mundo controlado por uma plutocracia global, onde um número ínfimo de famílias dispõe de mais dinheiro do que 80% da população do planeta, a riqueza concentrada é um veneno mortal para a democracia. Afinal, concentração de riqueza no capitalismo significa, no fim das contas, concentração de poder político.

Em um sistema onde a taxa de dividendos financeiros subiu de 40% em 2011 para 70% em 2017, segundo dados publicados no The Economist, o que ocorre é uma transferência brutal de recursos do sistema produtivo para o financeiro, criando um entesouramento de liquidez global e uma drenagem sem precedentes da capacidade produtiva para o mundo das finanças, canalizando para a mesma minoria plutocrática que adoça o discurso da elite do dinheiro, os recursos que poderiam ser reinvestidos no setor produtivo.

No Brasil o quadro ainda é particularmente desolador. Com 56% dos impostos embutidos nos preços dos produtos e serviços, e uma evasão fiscal que chega em média a 571 bilhões por ano, a maioria desses brasileiros de ouro, acabam não pagando impostos sobre seus lucros e dividendos e tem uma tributação de no máximo 15% a 20% sobre os seus ganhos financeiros, ao passo que os membros das classes médias pagam alíquotas de 27,5% e os mais pobres ainda mais, em função da tributação indireta sobre o consumo.

Enquanto os mais ricos na Alemanha esquerdopata pagam em média uma tributação total, somando pessoa jurídica e pessoa física, de 48%; na República bolivariana dos Estados Unidos, pasmem, essa tributação chega a 57%, na França comunista 64%; no Brasil velho de guerra, paraíso do liberalismo nutella, com isenções, benefícios e perdões a grandes sonegadores, essa tributação, em média, não passa de 30%. Esse é o modelo tributário regressivo que drena riqueza da sociedade para abastecer uma casta minúscula.

O fantástico dessa situação é que são justamente esses que pagam menos impostos e que tem abocanhado para si o grosso do bolo tributário mediante transferências públicas para o sistema financeiro que chegam a quase 50% do orçamento da União, que gritam contra qualquer tipo de reforma que defina uma cobrança progressiva de impostos e que desonere o consumo retirando das costas dos mais pobres o ônus de sustentar os que vivem no topo do edifício econômico tupiniquim.

É justamente essa elite do dinheiro, abastecida por essa transfusão tributária de recursos, que arrasta até a raspa do tacho da riqueza nacional, que costuma tratar a democracia, assim como o povo, como um incômodo , um estorvo constrangedor a ser eliminado do horizonte da política.

Nossa história de golpes e de permanente contra revolução conservadora está aí pra comprovar. Só não vê, quem não quer.

 

Veja o comentário de Pablo Capistrano na TV Universitária

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.