OPINIÃO

Paulo Henrique Amorim ou o elogio ao riso cortante

Tive a enorme alegria de conhecer pessoalmente Paulo Henrique Amorim, a quem dei uma entrevista para o seu Conversa Afiada. Naquela tarde paulistana, pude conhecer mais de perto alguém que já acompanhava, há bastante tempo, desde que iniciara as atividades de seu portal na internet, no seu blog sujo, como gostava de dizer, desde que se tornara o ansioso blogueiro, que desempenhou um papel essencial na constituição da própria blogosfera brasileira e, nela, um papel de destaque na crônica e na crítica da vida política do país, realizando o jornalismo que os grandes grupos de mídia há muito deixaram de fazer. Conhecê-lo na intimidade de seu próprio apartamento de morada, repleto de objetos de arte, de quadros de grandes artistas brasileiros, ser entrevistado em sua biblioteca, composta, principalmente, por autores brasileiros, por obras voltadas para a análise da economia brasileira, área de especialização de PHA, por intérpretes do Brasil, foi um momento marcante em minha vida. Estava diante de alguém que já admirava, de alguém por quem tinha um enorme apreço, pelo trabalho jornalístico que realizava, mas também pela maneira, pelo estilo, pelo modo como esse trabalho era feito, ou seja, se valendo, preferencialmente, das armas da ironia, do sarcasmo, do humor, do riso.

A sua simplicidade, a maneira afável e descontraída com que me recebeu, o seu carisma, me fez rapidamente descontrair e me sentir em casa. A sensação era que já nos conhecíamos há anos, que já éramos amigos de longa data. Como bom jornalista e grande leitor que era, PHA havia lido dois de meus livros e lera, evidentemente, A invenção do Nordeste e outras artes, tema de nossa conversa. Lera a reportagem da revista Carta Capital sobre a peça teatral A invenção do Nordeste, que assistira quando foi apresentada no SESC Belenzinho, dado que se tornara um admirador do trabalho do Grupo Carmim, desde que assistira à peça Jaci, tendo entrevistado Henrique Fontes e Quitéria Kelly, componentes do grupo. Durante a entrevista me senti muito à vontade, pois a familiaridade com o estilo do PHA, que se aproxima do modo como também vejo o mundo e estabeleço relações críticas com ele, estabeleceu uma enorme empatia e, posso dizer, que nos divertimos muito gravando a entrevista, nos intervalos e no jantar a que fui por ele convidado, onde fez questão de me apresentar sua esposa Geórgia Pinheiro, também jornalista e produtora, extremamente simpática e inteligente. Ao me deixar no hotel, me convidou a procurá-lo sempre que estivesse em São Paulo e me prometeu um encontro com Jessé de Souza, por quem tinha grande admiração. Infelizmente não chegamos a nos ver novamente. A notícia de sua morte repentina foi extremamente dolorosa para mim, que senti como se perdera um amigo de muito tempo, impedindo que sobre ele escrevera assim que o fato ocorreu. Hoje o faço, como uma justa homenagem a um grande jornalista e cidadão brasileiro, mas principalmente para ressaltar o que julgo ser as lições deixadas pelo modo de fazer jornalismo e de fazer política que ele nos legou.

Ao contrário de toda uma tradição do discurso e da prática política das esquerdas, no Brasil, PHA sabia da importância política do riso, do deboche, do sarcasmo, do humor, da ironia, do escracho. O militante de esquerda no país, quase sempre, acha que ser politicamente consequente e engajado requer ser sério, carrancudo, de preferência com uma barba serrada, índice de uma masculinidade, de uma virilidade que não dá lugar ao risinho ou a piada, coisas de veado. A esquerda brasileira sempre cultuou o mau humor, a agressividade, a violência verbal, no que não difere em nada da nossa direita. Assim como o fascismo, muitas das nossas forças de esquerda, cultuam mais o ressentimento, a inveja, a má consciência, do que a alegria e a solidariedade. Durante muito tempo, as esquerdas no Brasil ensinaram a formação de gente de aço, sem sensibilidade, máquinas revolucionárias, dispostas sempre a ver inimigos e traidores em toda parte, ver quintas-colunas em cada esquina, disputando com o uso da infâmia e da retórica da desqualificação, espaços de poder. Enquanto a direita, no Brasil, sempre mostrou capacidade de união e de articulação, na hora que veem seus privilégios e posições de poder ameaçados, as esquerdas sempre se esterilizaram em querelas intermináveis, em picuinhas sem fim, onde a arma da difamação e da agressão pessoal nunca deixou de ser utilizada. Ainda hoje, quando o fascismo se espalha pelo país, quando a direita cresce e ameaça destruir todas as conquistas feitas, nos últimos anos, vemos figuras como Ciro Gomes, que se diz de esquerda ou pelo menos quer assim ser visto, mais preocupado em usar sua verborragia agressiva de coronel de província contra um homem que está preso injustamente e contra o PT, do que contra Bolsonaro e sua trupe de extrema-direita. Vemos professores universitários mais ocupados em acusar o colega do lado, do que em militar no sentido da coesão das forças de oposição ao fascismo. Isso não espanta, porque no que tange a micropolítica, são também fascistas, são policiais do pensamento e da vida alheias.

Paulo Henrique Amorim era um homem de esquerda, um brizolista como gostava de dizer, um nacionalista, mas operava no campo da micropolítica de modo muito distinto de toda uma tradição da esquerda brasileira. Ele não partilhava da visão, expressa ainda por alguns da esquerda tradicional, que separa a macropolítica, a política que dá conta da luta de classes e dos embates entre os grandes projetos políticos, quase todos fracassados e sem credibilidade no momento, e a micropolítica, discutida por autores como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari, a política dos desejos, dos afetos, dos sentimentos, dos corpos, das relações sociais cotidianas, das relações de poder e dos saberes que produzem subjetividades, sujeitos, que produzem estilos de existência, formas de vida e pensamento. Aqueles sujeitos da macropolítica, os sujeitos da luta de classes, da política partidária, da política sindical, não são separáveis dos sujeitos das relações de gênero, das relações étnico-raciais, das relações etárias, etc. Só quem ainda pratica o velho racionalismo iluminista dos séculos XVIII ao século XX, do qual o marxismo é um filho dileto, que ainda concebe um sujeito cindido entre razão e emoção, razão e sensibilidade, razão e imaginação, razão e desejo, consciência e inconsciência, pode advogar que a luta político-partidária, que a luta de classes é mais importante que as lutas em torno das causas feministas, pelos direitos dos homossexuais, contra o racismo, etc.

O trágico é que enquanto as forças fascistas instaladas no poder de Estado não separam suas ações de ataque aos direitos das classes trabalhadoras, do ataque às conquistas das lutas feministas, dos negros, indígenas e homossexuais, há gente que se diz de esquerda, responsabilizando o que chamam de lutas por causas identitárias ou lutas de minorias, ainda como sendo lutas divisionistas quando não diversionistas das verdadeiras causas pelas quais se lutar. Seriam essas lutas e os autores que as embasam teoricamente os responsáveis por ternos chegado ao fascismo no poder. Ao invés de fazerem uma autocrítica do que fizeram nos últimos dez anos, muitos sendo mais oposição e fazendo ataques mais raivosos aos governos petistas do que à própria direita (devemos lembrar que houve grupos de esquerda contra o Reuni, contra o Fies, contra muitas das políticas sociais dos governos petistas), acusam aqueles militantes das causas micropolíticas como sendo os responsáveis pela facistização da sociedade, quando essa se deu justamente no plano da micropolítica, abandonada pelo PT e aliados, completamente absorvidos pelos embates político-partidários e institucionais. Enquanto os militantes da esquerda estavam absortos com o poder de Estado e com a crítica ao partido de esquerda no poder, os militantes de Cristo estavam cotidianamente produzindo subjetividades e sujeitos conservadores, reativos e reacionários; os blogs de direita e a grande mídia estavam atuando no campo micropolítico produzindo os modos de sentir, pensar e imaginar fascistas.

O que me levava a admirar Paulo Henrique Amorim era, acima de tudo, a consciência que ele tinha do poder transformador do riso, da construção de relações atravessadas pela empatia, pela amizade, pelo companheirismo, pela solidariedade, pela crítica feita com leveza e acidez, ao mesmo tempo. Sua conversa afiada, sua linguagem jornalística, seu modo de fazer a crítica política, passava pelo uso do poder de corte do riso, da piada, do deboche, do sarcasmo. PHA, tão perseguido, tão processado na justiça, sempre soube que o poder, que o fascismo suporta menos o humor e a ironia, do que a carranca e o grito. Lamentavelmente, muitos que se dizem inimigos do fascismo, são fascistas em suas vidas, no cotidiano, na maneira como levam a vida, na maneira como ensinam (mais preocupados em depreciar o que outros fazem do que fazer eles mesmos alguma coisa em termos de pensamento e escritura), na maneira como escrevem, na maneira como vivem suas relações pessoais, as relações afetivas e sexuais, como manejam as identidades de gênero, étnicas, etárias, profissionais, etc. O fascismo, como a figura de Bolsonaro bem a encarna, adora o grito, a agressão, a cara fechada e amarrada, a seriedade tumular e, quase sempre, hipócrita da caserna e dos púlpitos. O fascismo se alimenta das paixões tristes: da inveja, do ressentimento, do medo, do ódio, da raiva, da autocomiseração, do complexo de inferioridade, do desamor de si e dos outros. O fascismo adora e adota a violência verbal e sanguinária, porque nele prevalece a pulsão de morte, o desejo de destruição. Destruir é a máxima do governo Bolsonaro, como é o mote de vida de muita gente que se diz de esquerda, que se move sempre em busca de inimigos e adversários para acusar, perseguir, difamar e tentar destruir.

PHA sabia que incomoda mais a qualquer poder, de qualquer época, a gargalhada, do que o grito. PHA tinha o dom de irritar e de desesperar os poderosos pela forma como manejava a faca só lâmina do riso e do humor. A falta de bom humor da esquerda brasileira sempre foi notória, daí a dificuldade da maioria das lideranças de esquerda em criar empatia com a população. Se Lula se tornou uma figura mítica da política brasileira foi por sua capacidade de gerar empatia, por ter aprendido com as próprias derrotas, que mais vale um sorriso paternal do Lulinha paz e amor, do que aquela carranca de liderança sindical que carregava no início de sua carreira. Lula passou a ser amado por milhares de pessoas porque soube, na Presidência da República, demonstrar, em muitas ocasiões, fragilidade, chorando e se emocionando, leveza, alegria, descontração (jogando sua bolinha, tomando sua cachacinha), sendo carinhoso, próximo, afetuoso (a sua relação com D. Marisa era um manifesto em si mesmo contra o machismo), sobretudo manejando, como ninguém, a faca da ironia, da autoironia e do bom humor. Talvez por ter sido formada no seio da esquerda tradicional e, claro, por sua história de vida, Dilma foi no poder uma mulher muito dura, muito masculina, embora tenha tido momentos de grande comoção e ternura, como quando da criação da Comissão da Verdade, e tenha, acima de tudo, sido uma mulher de uma dignidade a toda a prova diante da baixeza daqueles que tramaram e realizaram a sua destituição sem que houvesse nenhum crime de responsabilidade.

Paulo Henrique Amorim reunia a habilidade de analista arguto e erudito da realidade brasileira, com a capacidade de extrair, da tragédia que é a história desse país, o que nela havia de tragicômico, de piada pronta. PHA, como José Simão, outro jornalista que admiro, era capaz de denunciar o caráter farsesco do poder, de mostrar, em muitas ocasiões, que o rei estava nu. Para isso ele possuía a maior sabedoria que um ser humano pode ter, a de não se levar também muito a sério, a capacidade de rir de si mesmo, de se divertir com suas próprias condições e contradições. Lembro que no jantar, repassamos, com muito humor, uma verdadeira lista de nomes de personalidades brasileiras, sobre as quais, quase sempre, tinha histórias e observações a fazer, mas quando o nome de Edir Macêdo, o patrão que veio a lhe demitir a pedido do governo fascista a que serve, o que pode ter contribuído para a sua morte inesperada, foi levantado, ele, com um sorriso maroto no canto da boca, que por si mesmo muito dizia, disse que sobre ele não tinha nada a dizer. Aquele riso de mofa se dirigia ao nomeado, mas, de certa forma também, a si mesmo, à sua situação, de um jornalista competente e talentoso, que dependia para ter um emprego, de silenciar sobre a figura controversa de seu patrão, como fizera nos tempos em que era um jornalista estrela das organizações Globo. A existência humana nos prega peças, nos coloca em situações desagradáveis, só pode ser suportada, muitas vezes, se tivermos essa capacidade de ironizar a nossa própria existência, de assumir, com ironia, lugares de sujeito e papeis que a vida nos reserva.

Como se vai combater o fascismo, micro e macropolítico, sendo fascista em seu dia a dia ? Como vai se denunciar as perseguições políticas se também é um perseguidor ? Como se vai combater a militarização das subjetividades se se é um policial à paisana sempre disposto a denunciar e delatar o colega, o amigo, o companheiro ? Como se vai combater a infâmia, se todo dia se devota ao mal dizer sobre o outro ? Como se vai produzir a solidariedade, a união e coesão das forças da vida contra as da morte, se se leva uma vida de mortificação, de renúncia aos desejos, aos afetos, aos encontros ? Como construir um mundo mais feliz, se se cultiva a infelicidade e a morbidez ? Como se contrapor à militarização dos corpos, trazidas pelo fascismo, se se cultiva uma corporeidade reativa, machista, homofóbica ? Como vai se contrapor ao racismo se se lida mal com sua própria condição racial ? Como se vai estabelecer relações que levem a agregação em torno de dadas ideias e projetos, se não se é capaz de estabelecer relações que agreguem, que aproximem ? Como se vai combater as forças reativas e fascista sendo reativo a toda diferença, inclusive de pensamento ? Como se vai combater as forças do desrespeito se não se respeita o outro que pensa e vive diferente, se não tem respeito e apreço por si mesmo ? Como combater as forças do ressentimento, se se é ressentido, se cultiva o ódio pelo mundo e por si mesmo ? Como vencermos as forças do atraso se se está mais interessado em atacar seus possíveis aliados ? O combate as forças do negativo não se faz com a negação, mas com a afirmação ativa da vida, naquilo que ela tem de mais construtivo: o amor, a solidariedade, a amizade, o bem dizer, a alegria, a graça, o carinho, a solidariedade, o companheirismo, o prazer, o deleite, o delírio, o sensível, o erótico, o sexual, o estético, o ético, o conhecimento, a sabedoria, a invenção, a criatividade, a leveza, o riso, o humor.

Paulo Henrique Amorim deixa uma enorme lacuna no jornalismo brasileiro, mas deixa uma lacuna ainda maior na vida brasileira, por sua forma de viver e amar a vida, com criatividade, inteligência, leveza e bom humor. Agradeço a PHA todas as conversas afiadas que me fizeram pensar e me fizeram rir ao mesmo tempo, mostrando que a crítica e a inteligência não precisam ser sérias e carrancudas para ser efetivas. Agradeço cada risada inteligente que produziu em mim, por cada corte afiado que fez no tecido, muitas vezes apodrecido e gangrenado, da sociedade brasileira. Foi um homem de grande estatura, apesar do tamanho, seu riso o fazia um gigante da crítica política brasileira. PHA foi um cidadão que amou e prestou grandes serviços a seu país, com a faca do humor e da crítica na mão, única arma efetiva e afiada contra os poderosos dispostos a fazer arminhas com os dedos e usar das armas para matar quem luta por direitos e liberdades, nesse país. PHA nos ensinou que vale mais amar do que se armar, contra si e contra os outros. Sua gargalhada ainda soará soberana por muito tempo, enquanto o ridículo dos poderes fascistas de todos os matizes ideológicos, teimarem em povoar o nosso cotidiano. Dedico a você, PHA, a nossa gargalhada ao final da entrevista, quando você quis me surpreender, típico de alguém que joga bem com as armas do humor, ao me perguntar se eu gostava de jaca (havíamos falado em certo momento da entrevista da eleição da jaca como fruta típica do Nordeste por uma enquete realizada pelo Centro Regionalista do Nordeste), e eu lhe surpreendi respondendo que gostava de jaca dura, aquela que dá melhor doce. Que o ácido de seu riso continue servindo de lição para muitos, que o corte de teu sorriso afiado siga nos inspirando, dia a dia. Sempre amei tua irreverência e teu humor e hoje declaro o meu amor por você, amigo, Paulo Henrique Amorim.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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