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Peça perde patrocínio no RN após empresário alegar que atingiria eleitores de Bolsonaro

O ator e diretor da S.E.M Cia de teatro José Neto Barbosa, protagonista do premiado monólogo A Mulher Monstro, revelou nesta terça-feira (23) que o espetáculo perdeu seu principal patrocinador após um empresário discordar da foto de divulgação da peça alegando que atinge eleitores do candidato de extrema-direita à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL).

Esse é mais um caso de perseguição política a atingir em cheio artistas do país, especialmente aqueles que não se identificam com as ideias e propostas de Bolsonaro.

O espetáculo é baseado no conto “Creme de Alface”, de Caio Fernando Abreu, escrito durante a ditadura militar, com adaptação das falas para os dias de hoje. Na foto estopim da polêmica, a personagem principal aparece com o rosto pintado de verde e amarelo num fundo de cortina vermelha.

O corte no patrocínio aconteceu às vésperas das duas apresentações do espetáculo marcadas para sexta (26) e sábado (27), no Teatro de Cultura Popular (TCP). As duas sessões estão mantidas com recursos originários apenas da bilheteria e começa às 19h. As vendas promocionais antecipadas já começaram pelo site SYMPLA.

José Neto Barbosa nasceu no Rio Grande do Norte, mora em Recife (PE) e já rodou o país apresentando A Mulher Monstro. Ele fez um desabafo nas redes sociais lamentando as dificuldades de exibir a peça após a perda do patrocínio:

– Objetivamente a empresa se posicionou contra a foto que utilizamos para divulgação, onde A Mulher Monstro está com o rosto pintado de verde e amarelo num fundo da cortina vermelha… alegou que atinge eleitores de Bolsonaro. Perguntou se meu espetáculo se posicionava “por partido”, que atingiria a clientela. Respondi que a peça fala de política social, das relações humanas, dentre outros assuntos intangíveis. Agora, estamos com dificuldades para investir num plano de mídia, em comunicação, em pagar divulgação e mudanças de visagismo e cenografia que optamos fazer. Não sei o que dizer mais nesse tempo de extremismo.

Em contato com a reportagem, o ator e diretor da S.E.M cia de teatro também optou por não divulgar o nome dos patrocinadores, segundo ele, para não prejudicar os funcionários que o ajudaram a conseguir os apoios:

– É uma clínica, e também uma loja. Eu estou optando por não divulgar o nome para não prejudicar os funcionários que fizeram a ponte para que eu conseguisse não só a esse “possível” patrocínio, mas de outras apresentações que já tivemos. Nós da Cia entendemos que a culpa não é do gerente ou das vendedoras que fizeram a ponte. Veio de cima. Do dono. Não quero fazer ninguém perder emprego, penso que são mães e pais de família.

Neto Barbosa afirmou que, apesar do baque, vai seguir apresentando o espetáculo:

– Esse boicote me deixou meio atordoado. Estou com medo, mas ao mesmo tempo me sinto encorajado em continuar, a pauta já tá marcada e eu não vou deixar de me apresentar na véspera de eleição. E depois dela também, e quando eu sentir necessidade de continuar gritando esse “socorro”. Esse espetáculo foi criado em 2015, estreado em 2016. Se a carapuça tá servindo, ótimo. Conto, de coração, com a ajuda de vocês, amig@s, para divulgar nossas apresentações em Natal. Nossa única fonte será bilheteria, o que não paga os custos, não teremos uma boa divulgação por falta de recursos. A Fundação José Augusto e o TCP diminuíram alguns custos da pauta (recebam meu obrigado especial), mas mesmo assim tá difícil. Nos ajudem a ecoar nossa mensagem de tolerância e amor ao próximo. Divulguem, nos ajudem… Dias 26 e 27 de outubro, às 19h no Teatro de Cultura Popular (Rua Jundiaí, Tirol).

Prêmios

O espetáculo A Mulher Monstro já foi premiado como melhor monólogo do teatro nacional em 2017 pela Academia de Artes no Teatro do Brasil/Prêmio Cenym, além de ter sido destaque no Festival de Curitiba, um dos principais festivais de teatro da América Latina.

O espetáculo é baseado num conto “Creme de Alface”, de Caio Fernando de Abreu, escrito durante a ditadura militar. Em “A Mulher Monstro”, uma burguesa é perseguida pela própria visão intolerante da sociedade, não sabendo lidar com a solidão e as relações num tempo de ódio visto sem vergonha. O espetáculo aborda a atualidade político-social do Brasil, baseado nas opiniões da internet, ruas, na postura de figuras públicas, além do próprio conto do escritor.

A peça já passou por Porto Alegre, Ponta Grossa/PR, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Trindade/PE, Exu/PE, Caruaru/PE, Recife, João Pessoa, Natal e Mossoró/RN.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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