OPINIÃO

Pedalar em Natal: “uma modinha”

Poucas são as pessoas que eu conheço e que não gostam de pedalar. A bicicleta, presente de criança, torna-se um brinquedinho divertido para pessoas de todas as idades. Apesar de ser uma atividade realizada individualmente, não raro, as pessoas que se dispõem a pedalar estão em grupos de amigos, pedalam entre casais e até mesmo se conhecem durante a pedalada e, a partir de então, pedalam juntos. A máxima do pedal é a solidariedade!

Dito por “alguns desavisados”, a pandemia do COVID-19 fez que o uso das bicicletas em Natal virasse uma “modinha”. Assim, como num passe de mágica, as bicicletas, que antes eram invisíveis para a maioria das pessoas e visíveis para apenas alguns poucos loucos que se dispunham a utilizar uma magrela como meio de transporte e/ou lazer, passam a compor claramente a cena urbana da cidade. Pedalar virou, portanto, uma “febre”, uma alegria para quem pedala, dinamiza a venda de cocos, caldo de cana e frutas e faz do ato de pedalar uma atividade saudável e alegre fora de ambientes fechados e mais propensos à contaminação por aerossóis.

Porém, a maior presença das bicicletas nas ruas da cidade levanta questões antigas e reivindicadas pelos ciclistas de Natal. Uma delas diz respeito a termos mais ciclofaixas/ciclovias/ciclorrotas, além de, é claro, melhorar às já existentes que não chegam a parcos 50km. Em Natal, algumas áreas destinadas ao trânsito de ciclistas viram estacionamento para carros, caso da pequena ciclofaixa da Avenida Ayrton Senna. Em outros lugares, é praticamente impossível um ser humano guiar uma bicicleta devido aos buracos no asfalto e a uma dimensão de menos de um metro, como ocorre na péssima ciclofaixa da Avenida da Integração.

A ciclovia da Rota do Sol está bem conservada, porém é aquele tipo de via que liga a ciclovia aos bairros circunvizinhos tais como Ponta Negra, Alagamar e Cidade Verde. O mesmo ocorre na boa ciclofaixa do Campus da UFRN, que liga nada a coisa nenhuma. E essa é outra reivindicação dos ciclistas e amantes do pedal: que as ciclovias/ciclofaixas/ciclorrotas se interliguem e assim se pode evitar os muitos acidentes que têm ocorrido com ciclistas em Natal e adjacências atualmente.

Na Zona Norte, onde se registra o maior tráfego de bicicletas em Natal, praticamente inexiste ciclovias/ciclofaixas/clicorrotas. E mais, aquela região da cidade deveria receber as primeiras obras de intermodais que incluísse a bicicleta uma vez que se nas demais regiões o uso da bicicleta é majoritariamente destinado à prática do esporte e lazer, na Zona Norte os deslocamentos realizados em bicicleta visam sobremaneira a locomoção para o trabalho e demais atividades do cotidiano. Portanto, não deve ser tão agradável assim pedalar pelos conjuntos e bairros da Zona Norte tendo que dividir o mesmo espaço com ônibus, carros, motos…

Outra reivindicação antiga dos ciclistas de Natal diz respeito à segurança para quem se aventura em sair de bicicleta em Natal. A “modinha” de pedalar aumentou a quantidade de bicicletas na cidade e, consequentemente, aumentou a quantidade de furtos e roubos de bicicletas. Não há, pelo menos eu desconheço, um plano de inteligência policial para conter/minimizar tais sinistros. Portanto, estaria bem que os órgãos competentes (Prefeitura de Natal, Secretaria do Estado de Segurança Pública do RN, Polícia Rodoviária Federal, DNIT, etc…) buscassem abrir um diálogo com a Associação dos Ciclistas do Rio Grande do Norte (ACIRN) no sentido de tais entidades pensarem juntas um plano de segurança para o ciclista.

Se estamos falando em mobilidade urbana, claro que não podemos esquecer da iluminação pública nas ruas de Natal. A combinação de buracos nas vias, falta de ciclovias/ciclofaixas/ciclorrotas e/ou ciclovias/ciclofaixas/ciclorrotas descontinuas além de baixa iluminação e/ou existência de iluminação implica em um perigo iminente para os ciclistas. Dessa forma, mais que uma reivindicação do ciclista, a maior iluminação pública atenuaria sensivelmente os diversos problemas urbanos motivados pela sua ausência.

Enquanto não solucionamos tais questões, Natal segue sendo uma cidade hostil para quem quer manter seu direito de ir e vir através de uma bicicleta. Escrevo isso pensando nas diversas reformas nas vias públicas da cidade por conta da Copa do Mundo de 2014, as quais privilegiaram o uso do automóvel individual em detrimento de uma mobilidade urbana sustentável a pé e em bicicleta. O Plano de Mobilidade da Cidade, que deveria ter sido finalizado e estar em fase de execução desde maio de 2019, sequer saiu do papel… se é que está no papel… E, sem esse plano, a Prefeitura não pode acessar o financiamento público federal vigente na Política Nacional de Mobilidade Urbana.

Mas o que quer o ciclista de Natal? Nós, os ciclistas, não queremos uma cidade à parte, exclusiva somente para nós e segregando quem se locomove no automóvel individual. Queremos justamente o contrário, queremos uma cidade inclusiva para tod@s, quer estejamos nos movendo de carro, a pé ou bicicleta. Nós, os ciclistas, na nossa “modinha” de pedalar e ser feliz, o que incomoda ignorantes e mal intencionad@s, queremos ter o direito à cidade e que Natal seja, efetivamente, uma cidade de tod@s e para tod@s!

E aí, fica uma dica para @s candidat@s a prefeit@ da capital potiguar: apresentem e discutam com a ACIRN um plano de mobilidade intermodal, sendo o uso da bicicleta um modal relevante. Estudos internacionais e nacionais demonstram os diversos benefícios para o meio ambiente, saúde humana, economia e sociabilidade quando usamos mais a bicicleta para os deslocamentos. Estudos mostram, ainda, que o uso da bicicleta pode reverter sintomas de Alzheimer e autismo, dada algumas condições desse uso.

Logo, resta saber os motivos de a Prefeitura de Natal ainda não ter despertado para tal fato. Seria um negacionismo dos nossos gestores públicos ao que a ciência e nós ciclistas já constatamos há bastante tempo, que a vida sobre uma bicicleta torna a convivência na urbe mais feliz e humana?

Enquanto não solucionamos tais questões, os ciclistas seguem os seus pedais diários e noturnos. A “modinha” pegou e @s incomodad@s que tratem de aprender a pedalar pois apesar das dificuldades que é sair em Natal em cima de uma bicicleta, os amantes do pedal saem às ruas e avenidas da cidade com harmonia e alegria.

Pedalar é existência, pedalar é resistência!

 

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1 Comment

  1. Excelente reflexão e exposição das necessidades dos ciclistas de Natal. Essa cidade está anos-luz de quase todas as capitais dos estados brasileiros: falta ciclovia, falta Seguranca, faltam projetos políticos. Muda Natal!!!

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