DEMOCRACIA, ENTREVISTA

Pedro Gorki: “Se a juventude não ocupar a política, as oligarquias ocupam”

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O presidente mais novo da história da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas vai votar pela primeira vez em 2018. Aos 16 anos, o natalense Pedro Gorki é quem tem a responsabilidade de conduzir a política de uma entidade que congrega aproximadamente 40 milhões de estudantes. Fã do baiano Jorge Amado e leitor voraz da literatura russa, “roubou” do escritor da revolução proletária Máximo Gorki o sobrenome.

Ao vencer a eleição da UBES, em 2 de dezembro de 2017, Pedro rompeu um hiato de 70 anos sem um potiguar na presidência da entidade secundarista mais importante do país e a maior da América Latina. O estudante do Atheneu Luís Bezerra de Oliveira assumiu a cadeira em 1948, na primeira gestão da entidade.

Filho de um professor (João Oliveira) e uma advogada (Carla Tatiane) , ambos militantes e ligados ao PC do B, Gorki é estudante do Instituto Técnico Federal do Rio Grande do Norte. No entanto, os compromissos nacionais o fizeram transferir residência e matrícula para São Paulo.

Nesta entrevista à agência Saiba Mais, Pedro Gorki fala dos planos da UBES para 2018, um ano decisivo. A luta pela ampliação financiamento da educação é, segundo ele, uma das bandeiras principais da entidade nos próximos meses. A batalha é difícil. Uma semana depois de conceder esta entrevista, o presidente Michel Temer anunciou um corte de R$ 1,5 bilhão  no Fundeb. Na pauta da UBES ainda estão a luta contra o projeto escola sem partido e outras bandeiras históricas da entidade.

 

O que a UBES está preparando para o julgamento do ex-presidente Lula, dia 24 de janeiro, em Porto Alegre ?

Vamos reunir as Executivas da UBES e da UNE para fazer a reconstituição do que foi 1961, quando os militares tentaram dar um golpe impedindo a posse do vice-presidente João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Faremos a reconstituição da campanha da Legalidade. A UBES e a UMES mudaram a sede para Porto Alegre, o que vamos reviver também. Então a UBES e a UNE tem esse DNA da democracia. Estarei em Porto Alegre a partir do dia 15 de janeiro. Há um Estado policialesco no país, onde o Judiciário concentra poder demais sem controle social algum.

O que mudou na sua vida após a eleição para a presidência da UBES ?

Quando a gente é militante do movimento estudantil nosso berço não é em casa. Mas o diferencial da UMES Natal para UBES é que tenho que pegar avião para passar nas escolas. Não passo mais apenas no Churchill, no Anísio Teixeira, agora é no Brasil todo, então acho que basicamente é essa a diferença. A perspectiva dessa gestão é pé no chão, passagem em sala e conversa com estudante. Nossa tarefa é massificar o movimento estudantil. Acho que essa coisa de 75% do nosso povo ser contra a reforma trabalhista e da previdência vai também naquelas 1.200 escolas que foram ocupadas em todo o Brasil e se posicionaram contra a reforma trabalhista e da previdência. Nossa ideia é chegar cada vez mais nos estudantes para levar nossa bandeira.

E qual é a bandeira principal da UBES ?

 É importante ter uma escola democrática onde a gente debata gênero e sexualidade, drogas, a periferia… mas mais importante ou tão importante quanto é ter uma escola que tenha um professor bem pago, um teto que não caia na cabeça do aluno e um ventilador que funcione. Então não adianta debater o conteúdo se não tem o básico. Por isso nossa grande pauta para 2018 é o Fundo de Financiamento da Educação Básica, o Fundeb, que vai acabar em 2020. Em São Paulo, o Fundeb garante 40% da renda da educação. No Ceará esse percentual chega a 60%. Nos Estados o Fundeb representa entre 40% e 70% do financiamento da Educação. Precisamos debater os royalties da energia renovável também. Hoje a energia renovável representa 43% da matriz energética do país e não paga royalties, que é o aluguel do bem público que está sendo utilizado. E queremos que isso volte pra educação, assim como colocamos 50% do fundo do Pré-sal para a Educação também. Nosso objetivo é atingir a meta 20 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê 10% do PIB para a Educação. No Brasil, 46% do PIB é pra pagar dívida para banqueiro internacional e nem sabemos quando essa dívida será quitada. 10% do PIB é pouco, mas com esses recursos transformaremos a educação brasileira.

Há alguma campanha em defesa dos Institutos Federais em curso também ?

A Ciência e a Tecnologia é outra pauta importante. Os IFs são muito mais vulneráveis. O FHC separou o ensino técnico. Vamos defender a permanência das bolsas. Se tivermos estudantes fazendo horta, projetos especiais, conseguiremos mudar a cara da escola. A questão do passe livre também é outra bandeira para 2018. No início do ano já está previsto aumento da passagem em São Paulo, na Bahia. Se a gente acompanhar o mapa das escolas brasileiras, vai notar que senso diminuiu muito. O colégio Wirston Churchill hoje tem menos de 800 estudantes e já chegou a mais de 4 mil. A evasão escolar é grande. Existem várias causas para isso. Uma delas é que 40% da juventude está desempregada, também falta de estrutura na escola, além da dificuldade do acesso à escola. No debate sobre o Passe livre a gente fala que educação é muito mais do que a escola: é conhecer museus, teatro, a cidade, é fazer passeio para a barreira do inferno, é garantir o acesso à própria cidade. O passe livre não é uma defesa da educação mas do acesso à cidade para que a galera da Zona Norte conheça a Zona Sul.

Qual foi o saldo do movimento de ocupações das escolas no país deflagrado no meio da votação da reforma do ensino médio e da PEC 55 ?

O saldo político varia de Estado para Estado. No Rio Grande do Norte conquistamos o fórum permanente da reforma do ensino médio, conseguimos incluir a escola Augusto Severo entre as escolas que serão reformadas…. Ocupamos quase 30 escolas e IFs aqui. O estopim foi a votação da reforma do Ensino Médio, aí as ocupações se espalharam pelo país. Ao todo, ocupamos quase 1.300 escolas, só no Paraná foram 800. Saber que uma escola de bairro, como a Castro Alves, estava sendo ocupada, como milhares de outras escolas no Brasil inteiro, era importante. Nossa principal arma é ocupar aquilo que nos é de direito. Acho que o saldo principal foi mostrar que o movimento estudantil não deixou de existir.

Houve uma estagnação do movimento estudantil durante os governos do PT ?

A questão de participar do governo deu aquela morgada. O movimento passou a estar inserido na agenda do Palácio do Planalto, o que fez com que focasse nas políticas públicas que o governo fez e esquecemos da nossa base. Outra coisa que dificultou foi o fim do monopólio da carteira de estudante pela UBES e a UNE. A carteira de estudante passou a ser banalizada, o que dificultou o financiamento do movimento. A carteira deixou de financiar o movimento estudantil. Teve casos de acontecer shows e ao lado montarem uma banquinha de carteira de estudante. Mas com o golpe reagimos. Vimos pessoas deixando suas casas e ocupando as escolas para lutar contra reforma do ensino médio e da PEC 55. Ninguém esperava que a primeira resistência ao golpe fosse feita por meninos e meninas. Cada escola tinha apoiares nas comunidades. Conseguimos estar na vanguarda desse processo.

O último relatório da Unesco diz que o alvo da violência no país é o jovem da periferia. No RN, a mulher negra jovem tem oito vezes mais chance de morrer que uma jovem branca. Como a UBES pretende trabalhar a questão violência entre os estudantes ?

O problema na segurança pública está relacionada com a educação. A redução da maioridade penal e a descriminalização das drogas são debates recorrentes também sobre o mesmo assunto. Um mea-culpa que faço é de que nós que somos progressistas perdemos esse debate na sociedade. Para a população é muito mais fácil um discurso de Bolsonaro, de que “bandido bom é bandido morto”, uma coisa mais palpável, de sangue, do que nosso discurso que é investir na educação, que é um discurso de Sócrates. Precisamos dar respostas mais concretas à sociedade. Precisamos investir na educação, pensar na desmilitarização da polícia e encontrar essa formula de como vamos responder para o povo as questões mais concretas. Mostrar que não é punindo um jovem de 16 anos que vamos resolver o problema. Minha resposta vai ser uma autocrítica. Debatemos muito outras áreas, mas esquecemos da segurança. Tanto é que o governador Robinson Faria está sendo muito criticado por ter prometido que seria o governador da Segurança, mas hoje diversos casos de assalto, de arrastão da cidade, pelo movimento de greve da polícia na cidade estão acontecendo. Falhamos no debate da segurança brasileira. Porque enquanto a gente está conversando aqui mais um jovem foi morto, mais uma travesti foi morta, mais uma mulher foi assassinada.

Como responder a quem acredita que a solução do problema está na redução da maioridade penal ?

Em 2015 tivemos uma vitória de impedir votação da redução da maioridade penal, quando o presidente da Câmara era o Eduardo Cunha. Tem gente que entende que a saída é prender o jovem ou achar que seu filho de 16 anos não deve ser preso. O Congresso quase nunca atende os anseios da sociedade. Nossa reposta para conseguir conquistar os estudantes é o debate nas escolas, por exemplo criar diretorias de igualdade racial para debater a descriminalização do uso de drogas e da redução da maioridade penal, que está super atrelado à questão da raça e da cor. A violência no Brasil tem endereço, gênero e raça. O homem é o que mais morre e mata. E o endereço é sempre o mesmo: a periferia do país.

O Congresso é formado em sua maioria por homens, brancos e ricos. Como está o debate na UBES da representatividade da juventude ?

 O Congresso é para ser um espelho da sociedade, mas hoje é um espelho com pouco ou muito grau. Os empresários são 1% da sociedade, mas são mais de 50% do Congresso; as mulheres são mais de 50% da sociedade e só ocupam 13% do Congresso. Os negros então tem uma representativa ínfima. Nosso Congresso não representa o povo. É difícil eleger a juventude porque as pessoas ainda têm medo do novo, mas um debate que sempre travamos é o voto facultativo aos 16 anos. Isso garante ao jovem o direito de escolher sua representação e o caminho político que ele deseja. Vamos lançar agora em 2018 a campanha Se liga, 16, para dizer que além de conquistar temos que garantir que o estudante saiba que esse direito existe. O jovem é um agente político e a política não está fadada apenas um vereador com um projeto de lei ou o Executivo executando as políticas. A política é feita quando o estudante reclama que o ventilador está quebrado, quando a estudante denuncia ao Ministério Público o assédio do professor… queremos que o jovem ocupe a política. A gente sabe que a política hoje está totalmente desacreditada, mas se a juventude não ocupar a política, a política vai ser ocupada pelas oligarquias. Na campanha Se ligue, 16 dizemos que se a política está suja, temos que pegar a vassoura, a mangueira e limpá-la. Nosso papel é convencer o estudante do papel social que ele tem.

O debate sobre a descriminalização das drogas está diretamente ligado à juventude. Como retirar a pauta da área de segurança pública ?

Assim como a questão do aborto. Não somos a favor que todas as mulheres abortem nem que todos os jovens fumem maconha. O que a gente defende é que as mulheres que desejam abortar e os jovens que desejam fumar sejam encarados não como caso de polícia, mas de saúde pública. É preciso transformar esse debate. Não é sobre se você pode ou não usar maconha, mas que quem usar não seja presa. A política de guerra às drogas é totalmente atrasada. O que vemos é que a guerra às drogas é uma guerra aos jovens, ao povo preto. Defendemos outra tática. Países como Uruguai e Holanda conseguiram diminuir os índices de violência causados pelo crime organizado quando decidiram descriminalizar as drogas. Precisamos é acabar com a guerra que mata milhares de jovens nas periferias de todo o país. O debate é sobre saúde. Os grandes traficantes não pisam na periferia. A guerra só causa as mortes dos jovens e o choro das mães.

Você é o presidente mais jovem da história da UBES e vai votar pela primeira vez para presidente da República em 2018. Qual é a importância disso pra você ?

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O voto é um compromisso. Nem todo mundo vê assim, mas eu vejo. Um compromisso não só com quem está votando, mas a gente tem um compromisso com o nosso povo. As eleições vão pautar discussões na sociedade. Se derrotarmos a família Bolsonaro, derrotaremos as pautas de ódio. Mesmo nunca tendo votado, o voto pra mim é uma demonstração real do que é a democracia. Embora tenhamos muitas criticas à democracia, é uma pequena festa do povo, questões da necessidade do nosso povo. E votar logo em 2018, com turbilhão de propostas, de extremos políticos, votar nesse ano será muito marcante pra mim. Tenho meu voto definido. 2018 vai representar muito do que vai pautar na vida da sociedade. Acho que a juventude vem debatendo mais politica. Nos Institutos Federais, vemos um grande número de jovens querendo participar. Ficarei muito feliz em tirar meu título de eleitor.

É a primeira que a juventude de esquerda da sua geração é oposição ao Governo Federal. Como está sendo a experiência ?

A diferença é que antes a gente não tinha uma polícia apontando uma arma para nossa cara. Acho que esse momento representa o fim dos canais de comunicação da sociedade civil com o poder público. A juventude é rebelde, quer ocupar escola, mas também queremos sentar numa mesa para discutir os problemas. O que vem sendo feito no Temer é o fim da interlocução da sociedade civil com o poder público. E isso representa uma derrota da sociedade civil e do poder público, que não está conectado com o público. Ser de esquerda não é defender apenas os governos de esquerda, mas que todos os governos tenham êxito. É lutar por um povo feliz, educado, por um país soberano. Um governo desconectado com o povo é um governo fadado ao fracasso. Quando um governo não está conectado com o povo, quem sofre é o povo.

 

 

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"