OPINIÃO

Pega, pega, marca, marca, solta a booooooooooooola!

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Hoje eu vou de futebol. Essa semana, Renato Gaúcho deu uma entrevista polêmica, entre tantas que já foi protagonista. Falou uma obviedade que poucos têm coragem de dizer, nem mesmo os “catedráticos” comentaristas esportivos que sabem tudo, ou pensam saber. Claro, no futebol, poucos conhecem  realmente, tal a subjetividade desse esporte. “Mais de 90% dos treinadores de futebol do Brasil jogam para garantir seus empregos, de forma medrosa, se fechando, tentando não perder”. As palavras podem ter mudado um pouco, mas foi esse o sentido que ele quis dar. Nunca, nunca em minha vida havia concordado tanto com o treinador gremista, com o “boleiro” treinador gremista. Ele citou seu Grêmio, o Flamengo, Santos e Athletico/PR como exceções no mar de mediocridade.

Renato já vinha sendo, vem sendo, melhor dizendo, uma espécie de porta-voz dos “invejosos” que tentam diminuir a importância dos treinadores estrangeiros que, queiram ou não, estão revolucionando nosso modo de jogar. Vejam só o tamanho do absurdo que eu escrevi e muita gente deve repetir. Não, gente, pelo amor de Deus! Não se trata de maneira nenhuma de modo revolucionário de jogo, abram o olho, assistam às partidas de Santos e, principalmente, do Flamengo!!!

Pedro Quarenta, ex-treinador potiguar, falecido essa semana, aos 89 anos, nos idos de 1959, quando comandava a seleção “Fantasma do Nordeste”, campeã da região  em 1959, quando escalava numa mesma equipe jogadores do nível de Cileno, Jorginho (tido como maior craque da era JL), Chicó, Aladim, Saquinho e ainda fazia entrar talentosos jovens valores como Papagaio e Cocó já pensava o futebol da mesma maneira dos gringos, ou não?

Todos estes craques citados, atletas de altíssimo nível técnico e que jogavam sempre para a frente e para cima. Foi com ele, Pedrinho 40, uma espécie de “Jesus” daquela época, que encerrou um ciclo vergonhoso de derrotas humilhantes que o futebol do RN sofria para os seus vizinhos da Paraíba, Pernambuco e Ceará, entre outros. Portanto, de uma vez por todas, esse jeito de jogar procurando o gol, com posse de bola, no campo de ataque, rodando, variando, triangulando, atacando pelos dois lados, não é coisa de Sampaolli ou Jesus, é coisa do futebol brasileiro em sua essência, por isso regressei 60 anos no tempo, vi a Natal, RN, no Nordeste para apresentar uma prova. Alguém deve dizer que não vale a comparação, já sei, tem quem diga que não vale comparar Pelé com Messi, imaginem.

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E para comprovar essa teoria de que é mais fácil jogar o bonito e para frente, juro, nem precisaria voltar tanto no tempo. Recentemente nós tivemos equipes apresentando um futebol tão bonito quanto o Flamengo e sem precisar importar tantos craques de fora ou gastar tanto dinheiro. Lembram do Santos de Robinho, Diego, Elano e Cia? Treinador: Leão, nem tão bom assim, e os meninos deram show, creio até que não foram muito mais longe por conta do próprio Leão. Depois, o Cruzeiro de 2003, com Luxemburgo no comando, e seu losango formado por  Augusto Recife (cabeça de área mais fixo), Felipe Melo (meia pelo lado direito), Sandro (meia pelo lado esquerdo), craque potiguar, e Alex, sendo o número um do esquema. Era show de bola. Esses times, outros que não citei, Vasco de 1997, Palmeiras de 1993, foram algumas “ilhas” de criação que fugiram do horroroso “Modelo Parreira de jogar futebol”, implantado desde a conquista, medíocre, da Copa do Mundo de 1994.

A partir dali, das formações de treinadores pela CBF, onde Parreira se tornara o principal “professor”, mestre a ser seguido, imitado até mesmo no modo de dar entrevista e plagiar (desculpem), começava a queda de nosso futebol. Tivemos uma nova ilha em 2002 por conta dos muitos craques juntos, não pelo técnico ou esquema, pois Felipão, ficou provado depois era tão ou mais retranqueiro que o Parreira. Mesmo com a conquista., os shows de Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho, infelizmente, o futebol do Brasil se voltou completamente para a valorização do anti-jogo, aquilo que foi destacado pelo Renato Gaúcho na entrevista. E esse modelo, endossado pela imprensa, que continuava a tratar Parreira de mestre de futebol, continuou a imperar. Me perdoem a imodéstia, mas o que destacou o Renato, que não citou Parreira, mais eu cito,  eu já falava isso há muito tempo.

Essa semana, sentado numa mesa de bar, ouvi um absurdo do tamanho do mar, engoli em seco, não valia a pena perder a noite iniciando uma discussão sem fim. “O Flamengo está dando sorte porque a diretoria trouxe jogadores de fora e o treinador também, ambos acostumados com o estilo de jogo feito lá”. Foi mais ou menos isso que disse o camarada. Quer dizer que, antes de Jesus aqui no Brasil, não existiam as passagens de alas, as tabelinhas perfeitas de  primeira entre atacantes/meias, triangulações, corta-luz, chegadas de homens de marcação como elemento surpresa, dribles desconcertantes? Nada disso? Foram os dois – Jesus e Sampaolli – que trouxeram? Que absurdo! O que está posto a gente muda, é simples. É mudar a mentalidade de dirigentes que contratam sem conhecer e destratam, demitem sem dar tempo para que se realize qualquer trabalho de médio prazo; segura mais tempo os jovens valores, ensinando-os cedo, nas escolinhas, a valorizar sua gente, sua terra, seu país, mostrando que eles podem sim ser felizes jogando no Brasil, mas, claro, valorizando-os e, por fim, apaga de nossa formação de treinadores o modelo Parreira a ser seguido.

O futebol do Brasil não devia precisar, na verdade, não precisa de treinadores estrangeiros para se tornar bonito, vertical, goleador e atrativo, no entanto, ao mesmo tempo, já que nossos treineiros só pensam em garantir seus empregos nesse mercado louco e super competitivo, que venham os estrangeiros. Lembrando que, vários treinadores de outras nacionalidades já passaram por aqui sem sucesso. Para que fique claro também que um grande time, forte e vencedor, não passa somente por quem está no comando técnico, pois  tem muito mais coisas envolvidas. Nesse momento, tenho a mais absoluta convicção de que a crise do futebol do Brasil se deve a um conjunto de coisas, entre elas a malfadada Lei Pelé, o êxodo de nossos craques-garotos, cada vez mais cedo, culminando com a falta de coragem, ousadia e conhecimento da essência do futebol desse monte de teórico que, antigamente, tinha vergonha de dar pitado em mesa de bar. Esses caras hoje, acreditem parece mentira, com suas conversas numerais, estatísticas, foram elevados à condição de treinadores de futebol.

Para encerrar, convido a quem quiser acompanhar um treino de equipes de bases. Antigamente se levava em consideração, em primeiro lugar, o talento, se observava, domínio de bola, condução, passe cabeceio e chute. Hoje, antes do campo, o garoto tem que passar por um exame de beleza e altura, para saber se será um “jogador comercial”, vejam que absurdo. E quando o treino começa, ao invés de “leva pra cima, capricha no passe, vira o jogo, domina a bola, levanta a cabeça, conduz de cabeça erguida, usa a visão periférica, faz o drible, o arremate”, ensinamentos e movimentos repetidos à exaustão, exemplo de Telê Santana, Cilinho, Ênio Andrade, Elba de Pádua Lima,  infelizmente, a gente escuta, na beira do campo gritos de um treinador enlouquecido, chamando a atenção de todo mundo, muitas vezes para chamar a atenção da imprensa e agradar os dirigentes: “pega, pega, marca, marca, volta, volta, solta a boooooooooooooooooooola!”

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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