OPINIÃO

Pela cultura da coisa pública

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O Rio Grande do Norte vive uma recente crise referente aos teatros que tiveram suas portas fechadas. Nos últimos anos tivemos a reabertura de dois teatros no interior do Estado e um na capital, além do início das obras do Teatro Alberto Maranhão. O prefeito de Natal Álvaro Dias recentemente deu declarações de que pretende reabrir o Sandoval Wanderley. São teatros importantes do nosso Estado, mas que sempre sofreram com a falta de uma política de utilização desses espaços. O Teatro de Cultura Popular sempre foi o primo pobre do Teatro Alberto Maranhão. Quando as pautas do TAM eram inacessíveis, o TCP tentava afagar os corações das produções que não conseguiam pautas no nosso teatro centenário. Assim se passaram os anos, o colunismo social sempre viu a Direção do Alberto Maranhão com muita pompa. Tal cargo diretivo nem existe enquanto direção, é apenas uma coordenação em meio a outras dentro da Fundação José Augusto, mas alguns que por ali passavam enchiam o peito e se diziam diretores do TAM, muitas vezes tornando sua posição no mesmo lugar hierárquico do Diretor da FJA.

Nossa mais antiga Casa de espetáculo tornou-se durante algum tempo uma espécie de salão de festas de uma ‘pseudoelite’ potiguar e de seu colunismo social, enquanto isso não se pensava na sua manutenção e no cuidado com a “coisa pública”, o TAM foi utilizado até o máximo de seu desgaste como se fosse um aparelho privado e que pouco servia ao conjunto da produção cultural potiguar.

Nessa atual gestão tivemos pela primeira vez um coordenador do Teatro Alberto Maranhão com competência incontestável para acompanhar as obras do referido equipamento e devolvê-lo à população em sua melhor condição cênica e patrimonial. Me refiro ao iluminador Ronaldo Costa, que junto de Crispiniano Neto reformulam a ideia de que o cargo de coordenador do TAM seja somente de um espaço cênico e que se torne uma “Coordenação de Teatros”. Porém, o Alberto Maranhão por sua importância histórica e pela qualidade de sua caixa cênica deve sim ser referência para as demais administrações dos teatros públicos do Estado. Em menos de um mês de gestão a Fundação José Augusto apresentou um modelo de ocupação para o TCP, que de fato mostra o cuidado que um gestor deve ter com a tal “coisa pública”.

Antes de falar do edital Pauta Livre e de seus efeitos para o momento em que estamos vivendo, é importante ressaltar o que acontecia no passado ao tentar se reservar uma pauta no Teatro Alberto Maranhão. Pois bem, tudo acontecia como um grande balcão de negócios, você chegava lá e pedia os dias que o Teatro estaria livre para poder agendar algum espetáculo seu, pagava-se uma pauta em torno de 500 a 1000 reais, a depender se o espetáculo era do nosso estado ou de fora. Falo tudo isso sem muito conhecimento de causa, pois mesmo sendo um ator e produtor de teatro eu nunca paguei por uma pauta no TAM. Na época em que dirigi a FJA, tive contato com algumas planilhas quando o coordenador nomeado pelo governador resolvia me mostrar. Por sorte, talvez você conseguisse furar a bolha e agendar uma pauta por lá. É importante ressaltar que todo o custo que existe dentro de um teatro público vem dos cofres do estado. O custo com água, energia, manutenção e dezenas de funcionários lotados no TAM e no TCP são gastos públicos, e nunca  uma pauta de 500 ou 1000 reais pagaria os custos de um Teatro como esse. Portanto, que fique bem claro, toda pauta de um teatro público é subsidiada, o custo de uma pauta não pagaria a manutenção de um teatro. Para que ele funcione e continue vivo é preciso, e muito, de investimento público. Talvez até apareça alguém defendendo que as administrações dos teatros deveriam ser privatizadas, mas ainda assim ela deveria ser uma pauta de baixo custo, até porque trata-se de equipamento público.

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Voltando ao exemplo do edital Pauta Livre do Teatro de Cultura Popular que tem em sua subcoordenação o ator Beto Vieira. O referido edital nos apresenta o seguinte cenário: a demanda das produções culturais do estado é muito alta e de muita qualidade. E essas demandas não podem ficar reféns de pautas que não existem. O produtor não pode ficar brigando no tapa com outro produtor, ou negociando ilegalmente a reserva de uma pauta por meio de barganha do uso de logomarcas e de negociatas financeiras. Um teatro público deve estar a serviço de muitos, e não de poucos. E, de cara, o Edital Pauta Livre do TCP dá uma lição para todos nós: um teatro pode ser ocupado com diversas produções artísticas e culturais diferentes e produzidas por diversos produtores diferentes Serão dois meses de programação e praticamente não existe repetição de produtores nesse período. Uma grade de ações culturais incríveis e que mostra o melhor da nossa produção artística e que com isso o TCP entra no patamar de uma casa de espetáculo de muita qualidade. Foram quase 60 inscrições, com quase a metade desse número selecionado. Muita gente boa ficou de fora, mas todos que se inscreveram e se esforçaram para pleitear uma pauta foram fundamentais pra dizer que estamos sedentos de arte e de vontade de nos apresentar. Talvez encontremos no meio desse percurso alguma falha de interpretação do edital, algum equívoco na condução do processo, mas nada que não possa ser corrigido nos próximos editais. Importante que Ronaldo e Beto se debrucem nas dificuldades que eles conseguiram identificar nas inscrições e que realizem oficinas, por exemplo, de criação de plano de palco, luz e som.

Com esse edital é importante deixar claro que artistas e produtores se sentem satisfeitos com o fim da política de balcão e da negociata, que nos obrigava a barganhar na mesa do diretor da FJA a isenção de uma pauta, nos colocando em meio a um jogo politiqueiro que nós não estamos interessados em jogar. Eis o motivo de muitos desistirem de suas produções e de outros se perpetuarem como grandes produtores a serviço do bel prazer do gestor público da vez.

Para o início de uma gestão a FJA nos apresenta um novo rumo, uma nova possibilidade do trato com a coisa pública. Fico na expectativa que esse processo seja um embrião de uma política de utilização que pode se espalhar para o Teatro Lauro Monte Filho (Mossoró) e o Centro Cultural Adjuto Dias (Caicó) e que quando o Teatro Alberto Maranhão, enfim, seja reaberto, nós tenhamos uma longa estrada percorrida e um modelo de ocupação que se torne referência no Brasil inteiro. Claro que a gente ainda sonha que, além da pauta, nós tenhamos um apoio financeiro para custear as necessidades básicas dos espetáculos selecionados em nos editais. A gente sonha também com modelos de residências artísticas e de ocupação desses equipamentos. Ainda deixo a sugestão de uma espécie de “Edital Pauta Livre para Escolas” onde as produções podem ser isentas da pauta, vendem uma parte dos ingressos para escolas privadas e parte desses ingressos pode ser disponibilizada pra escolas públicas, e tais ocupações podem ser em dias de pouco uso das pautas como segundas e terças e também em horários escolares.

O grande desafio da gestão é como fazer funcionar os teatros de Caicó e Mossoró, que não contam com nenhum técnico em seus quadros de funcionários e contam apenas com um único cargo comissionado em cada prédio. E quando o Teatro Alberto Maranhão for reaberto ele terá quantos funcionários no seu quadro e com condições físicas de suportar as dificuldades de trabalhar numa casa de espetáculo?

Temos que parar de olhar para os gestores como os donos e proprietários dos equipamentos culturais, parar de mendigar espaço pra gente fazer nossa arte, claro que para isso a gestão pública tem que parar de barganhar e de usar os equipamentos como se fossem de um dono. E aqueles que não conseguem entender a necessidade de que prédio público é público, e por isso deve ser de muitos, e não de poucos, é bom se adaptar a essa realidade que espero que seja irreversível. E caso você só vise o lucro em detrimento da qualidade do trabalho que você apresenta ao público, sem problemas, é só tentar ganhar dinheiro com os teatros de administrações privadas. Chega de querer enriquecer sugando da máquina pública!

E já que estamos falando de política cultural, que façamos diariamente o exercício do cuidado com a “coisa pública” e que possamos conviver com uma cultura de respeito aos bens de seu povo.

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