OPINIÃO

Penúltimo dia

Hoje não é o primeiro dia. Nem o segundo. Tampouco o último (Bem, espero que não, mas também não posso garantir). Hoje é isso que chamam de um dia qualquer. Ninguém persegue os dias comuns. Não é isso que os coaches ensinam. Então, sinto decepcionar, mas é isto: os dias comuns se multiplicarão até o fim de nossa existência. No fim, diremos, ainda bem!

Quer estragar um dia qualquer? Aflija-se pela chegada do primeiro, do novo. Quando chegar o tão esperado momento, é bem possível que você tenha perdido um tanto de sono e um bocado de paz, pior, e se nem for tudo isso? Perdeu um tempo qualquer, deixou de dar ao cotidiano as suas próprias cores.

Às vezes falta sal no feijão, às vezes é o próprio feijão que falta. Falta sono, dinheiro, férias. Esvaziamos os dias tentando preencher essas faltas. E antes de completar o oco costumeiro, passou o dia, a semana, o ano, passou uma vida. Não deu certo viajar o mundo, ou ir mais à praia. Milhares de poesias não foram escritas, afetos não foram ditos, não tomaram forma.

E se hoje fosse o primeiro dia, eu não saberia quase nada. Todo os dias, um sujeito qualquer constrói os alicerces do cotidiano. Alguém faz café, uma moça vende lanche na parada de ônibus, o senhor para o carro antes da faixa de pedestre. Imagine uma engrenagem funcionando bem, mesmo que vez ou outra, tenha lá um sobressalto. O mundo está indo. Alguém está fazendo as pequenas coisas.

Assim podemos até pensar que não, mas o último dia há de chegar. Antes dele, o penúltimo. Gosto mesmo de iludir o tempo e pensar no penúltimo. Porque esse parece mais longe, e preciso guardar os receios em terras longínquas. Trancar a casa, para quem sabe um dia voltar. Tomar uma folga do que ainda não dou conta. Enquanto isso, quero mesmo é viver os dias comuns.

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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