CULTURA

“Penúltimo romântico” da era do rádio, Agnaldo Timóteo morre vítima de covid-19

“Por que o Nelson Gonçalves cantando “Negue” é brega, mas a Maria Bethânia cantando “Negue” é um luxo?”. A frase é do cantor romântico Agnaldo Timóteo e está registrada no documentário “Eu vou rifar meu coração”, de Ana Rieper. O depoimento resume um pouco a luta travada por um dos maiores cantores do país contra o preconceito da crítica musical brasileira.

Natural de Caratinga (MG), conservador e torcedor apaixonado pelo Botafogo (RJ), Timóteo não aceitava que alguém classificasse de “brega” a música que ele e outros artistas populares cantavam. Achava que o rótulo menosprezava os cantores pois vinha embutido um preconceito de classe.

Agnaldo Timóteo morreu neste sábado (3) aos 84 anos de idade, vítima de covid-19. Ele havia recebido a primeira dose da vacina, mas foi diagnosticado com a doença poucos dias depois.

Internado em 17 de março, chegou a deixar a UTI, mas não resistiu. O Instituto Funjor, que vinha dando apoio à família e acompanhando o estado de saúde de Timóteo, confirmou a morte do cantor:

 – Agnaldo Timóteo viverá eternamente em nossos corações! A família agradece todo o apoio e profissionalismo da Rede Hospital Casa São Bernardo nessa batalha. A família informa que a Corrente de Fé, com pensamentos positivos e orações, permanecerá, em prol da cura final dessa doença e pelos que ainda estão lutando”, diz o comunicado.

O Botafogo emitiu uma nota de pesar em homenagem ao ilustre torcedor:

– Com muita dor, o Botafogo lamenta a morte de Agnaldo Timóteo, cantor e compositor brasileiro, botafoguense apaixonado. O Clube deseja conforto aos amigos e familiares neste momento difícil”.

Agnaldo Timóteo e Paulo César Caju: amor pelo Botafogo

Artista popular, Timóteo foi para a rua vender discos em meio à crise da indústria fonográfica

A crise da indústria fonográfica e a dificuldade de manter os shows levaram Agnaldo Timóteo para as ruas apresentar o próprio trabalho. De acordo com a assessoria de imprensar do cantor, desde 2006 ele armava uma banca na praça de uma cidade e começava a vender discos. Chegou a vender 600 exemplares em 10 dias em 2017, aos 81 anos de idade.

Cada disco era vendido a R$ 10. A margem de lucro era pequena, já que cada unidade custava R$ 5 ao cantor, que também pagava uma comissão para quem o ajudava a comercializar os CDs.

Vários artistas e jornalistas se pronunciaram sobre a morte de Timóteo. Um deles foi o sambista Neguinho da Beija Flor:

“A maior voz do país, na minha concepção. Me ajudou muito, me dava conselhos para a carreira, a voz. Muito difícil”, disse.

O jornalista Arthur Xexéo, do jornal O Globo, lembrou que, na época de Timóteo, para cantar era preciso ter voz. E lembrou dos tempos em que ia ao encontro do povo.

 “Ele era de uma tradição de cantor de rádio, de um tempo em que você não tinha muito truque, tinha que ser no gogó. Ele é um dos últimos, talvez o último. Foi para a rua de kombi vender seus discos no Largo do Machado, ficar perto do povo. Teve uma carreira confusa por conta da vida particular e do envolvimento com a política, por muito tempo deixou sua vida artística de lado. Mas o público sempre esteve ao lado dele”.

Contradições na política e e especulações sobre a vida particular 

A carreira política foi controversa. Foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro e depois por São Paulo. E vereador pelo Rio. Passou pelo PDT, PDS, PPR, PP. Em 1985, apoiou Paulo Maluf, o candidato dos militares à presidência da República derrotado por Tancredo Neves, depois se aliou a Leonel Brizola, rompeu, se filiou ao PP, elogiava Fernando Collor de Melo, e disse que gostaria de se filiar ao PT para “brigar por Lula”.

Timóteo também conviveu durante a carreira com especulações sobre sua orientação sexual. Sempre negou uma suposta homossexualidade e se dizia contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

“Junto com Agnaldo Rayol eram os últimos grandes cantores do Brasil”, diz produtor cultural potiguar

Para o pesquisador e produtor musical potiguar José Dias, Agnaldo Timóteo era o penúltimo romântico ainda vivo da geração de cantores da era do rádio:

– Um cantor espetacular. Junto com Agnaldo Rayol, eram os últimos dos grandes cantores do Brasil, assim como foram Cauby Peixoto, Augusto Calheiros, Orlando silva, Nelson Gonçalves… Agora só sobrou Agnaldo Rayol dessa grande leva de cantores. Hoje as mulheres são hegemônicas na nossa música, mas há 30 anos não era assim”, pontua o produtor, responsável pela criação de vários projetos musicais em Natal, entre eles o Seis e Meia, que fez história na cidade.

Dias conta que nunca trabalhou com Timóteo, mas admite que sentia inveja do cantor:

– Eu tinha inveja dele pela história que contavam de que foi Agnaldo quem levou Marinho Chagas do Náutico para o Botafogo. Mas essa história Marinho nunca confirmou”, diz.

Quem conheceu Agnaldo Timóteo e participou de um show ao lado dele foi o potiguar Fernando Luiz, que venceu recentemente a batalha contra a covid-19. Autor de “Garotinha”, clássico da música romântica, Fernando não poupa as palavras para falar do colega:

– Para mim foi um dos maiores cantores do mundo, no estilo popular. Essa é a minha opinião”, destacou.

Ele e Timóteo chegaram a cantar juntos num show em homenagem ao Wilson Simonal, organizado pelo amigo e empresário João Santana.

– Ele veio a Natal fazer um show em 1972 e o entrevistei no Grande Hotel junto com outro radialista, o Paulo José. Depois o reencontrei em 1990, em show em homenagem do Wilson Simonal”, conta.

Conhecedor do meio artístico, Fernando diz que Timóteo não era uma unanimidade, mas reconhece a autenticidade do artista:

– Era uma pessoa polêmica, mas muito autêntico e sincero. Algumas pessoas não gostavam dele, por ele ser sincero, era uma pessoa conservadora. Estive uma vez fazendo show na cidade ele, Caratinga, e ele passou no comércio falando com todo mundo. Então ele tinha essa coisa popular, era sério, sincero e dizia na lata o que tinha que dizer”, lembra.

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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