OPINIÃO

“Perdão”, “culpa” e “eu avisei” tem a ver com religião, não com política

Toda vez, repito, agora em Caixa Alta, TODA vez que eu argumento que a eleição já passou, que muita gente (numericamente comprovado) se arrependeu em ter votado em Bolsonaro para presidente e que devemos dialogar com essas pessoas alguém aparece virtualmente ou na vida real mesmo com frases como “Ah, Cefas, você quer que a gente leve um tapa e dê a outra face?” ou “Você tem é bom coração, eu não perdoo ninguém” ou ainda “Essa culpa eu não tenho, eu avisei!”.

Perdão. Culpa. Pena. Termos que remetem à… religião. Justamente um dos pilares do atual Governo e um dos fatores que ajudou a eleger o demente hoje na Presidência.

Não se trata de “perdoar” quem votou em Bolsonaro. Eleitores não precisam de perdão de eleitores do candidato adversário, não existe isso na política. Uma vez terminada a eleição e empossado o mandatário, por bem ou por mal, ele governa (ou deveria fazê-lo) para todos, e a massa de eleitores se transforma, até a eleição seguinte, em… população. É isso que somos todos, eleitores de Haddad, Bolsonaro, Ciro, Cabo Daciolo, Amoedo e Alckmin. Além dos que se abstiveram de votar para ir a praia ou curtir um churrasco. Todos no mesmo barco. Um barco político. Não religioso. Esqueçamos os termos judaico-cristãos “culpa”e “perdão”.

O que existe é eleitor arrependido de seu voto. E os que se decepcionaram. E os que estão aturdidos, mas não sabem como processar o que estão vendo. Não são necessariamente fascistas, nem reacionários. Muitos votaram em candidatos progressistas em eleições passadas. Não precisam de perdão. Alguns precisam de diálogo. Aquilo que em idos tempos, antes do tribunal das redes sociais, das bolhas dos grupos de zap e dos famigerados memes, a militância progressista sabia fazer com brilhantismo.

Fiscalizar o voto alheio também é, além de tudo, uma maneira de afastar a outra pessoa e impedir o diálogo. Ou seja, politicamente é uma atitude inábil.

Por vezes tenho a impressão, e revelar isso já me custou discussões com gente querida, que a militância progressista desencantou em fazer política, preferindo a facilidade dos julgamentos de redes sociais. Na verdade, as redes sociais serviram muito mais aos interesses de Direita do que à Esquerda.

Política não pede julgamentos de atitudes passadas nem questiona as motivações pela qual determinada pessoa fez algo. Quem gosta dessa cultura de purgação e redenção é justamente a religião. Política é feita com possibilidades e ideias em prol de objetivos futuros.

Dia desses num fórum de debates virtual acabei sendo o antipático estraga prazeres da discussão por lembrar que Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, se aliou a Getúlio Vargas, anos após este ter entregue Olga, a esposa grávida de Prestes, para ser morta pelos nazistas na Alemanha. A história é conhecida. Monstruoso? Talvez. Mas, tratava-se de política, não de “perdoar” ou “não perdoar”.

Estamos no sétimo mês de (des)governo Bolsonaro. Que se desgasta por si só, entre ministros trapalhões, filhos disfuncionais, denúncias, vazamentos e militantes aloprados. Um prato cheio para servir de tema para os 33% da população, segundo as pesquisas, que nem aprova e nem desaprova o Governo. Desde que no diálogo se esqueça as ladainhas religiosas e cobranças para se ater ao que interessa e está em falta no país hoje: discutir política.

 

 

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