OPINIÃO

Perdemos

A cena de Luciano Hang, o “Véio da Havan” correndo em uma plataforma devidamente envidraçada saudando os consumidores ávidos em entrar de forma aglomerada em sua loja então inaugurada em Belém é séria candidata a momento mais constrangedor e incivilizado do ano, em um 2020 repleto deles.

Outro momento asqueroso de nossa realidade recente foi o show de horrores da entrevista que o vice-presidente Hamilton Mourão concedeu ao programa de tv Conflit Zone, da DW, da Alemanha, onde entre negação da realidade, devaneios e não-admissão de erros do Governo ainda elogiou Brilhante Ustra, o herói de Bolsonaro e torturador durante a Ditadura Militar, conhecido por, entre outras barbaridades, colocar ratos em vaginas de mulheres torturadas.

Lendo as notícias deste fim de semana, descubro que no Guarujá (SP), um homem em um bar sacou de uma arma, olhou três desconhecidos numa mesa ao lado e atirou em um deles, que morreu na hora. O assassino fugiu.

2020 não está fácil e a pandemia é um problema mundial, mas o Brasil começou seu processo de sofrimento e horrores antes mesmo do vírus e de maneira muito particular, com o empoderamento de monstros.

Perdemos. Não sou do time dos pessimistas natos, mas, enquanto possibilidade de civilização, perdemos o jogo. Nunca fomos lá exatamente civilizados e a história de que o melhor do Brasil é o brasileiro sempre foi conto da carochinha em um país escravocrata-racista e profundamente contraditório e conservador.

O brasileiro nunca foi exemplo de civilidade nem de convivência coletiva. Os poucos momentos históricos onde minimizamos as imensas diferenças sociais e subimos alguns degraus civilizatórios foram sucedidos por desastres políticos-econômicos. Cada vitória coletiva é sucedida por uma série de derrotas de maneira geral.

Perdemos. Para a milícia, a violência, a ignorância, a obscuridade, o negacionismo, a incivilidade. Perdemos para os vendilhões do tempo e para os fariseus e falsos profetas quem se pudessem crucificariam Jesus novamente. Perdemos para uma religiosidade fascinada pelas armas. Para os hipócritas de plantão, sempre prontos para apontar o dedo para os outros cheios de esqueletos no armário.

Podemos reverter o jogo? Talvez. Mas, dificilmente a curto prazo. O dano civilizatório foi feito, com a eleição de um racista-misógino-homofóbico assumido e com ligações com milicianos, para a presidência da República. Um país não faz isso impunemente, por mais explicado que seja o contexto (Lava Jato, narrativa de criminalização da Esquerda, prisão de Lula etc).

Perdemos também para o Covid-19. Com um presidente que jogou a favor do vírus. 150 mil mortos pela doença. Chances de haver uma segunda onda de contaminação sem que sequer tenhamos saído da primeira. Perdemos para o negacionismo, para os canalhas que se recusam a usar máscaras em ambientes públicos fechados.

Espero queimar a língua e nos próximos anos reler esse texto pessimista e ver que errei nas avaliações e no desânimo. Mas, a preço de hoje, é o que temos. Um país que optou por desistir do processo civilizatório. E que parece fascinado em perder o pouco que conquistou, Direitos, cidadania, potencialidades, pré-sal, autonomia. Seria positivo terminar esse texto vaticinando que não perdemos a esperança, que é a última que morre. Mas a leitura do noticiário não nos permite manter a chama da esperança acesa frequentemente. Natural que a percamos também. Ou que Paulo Guedes a queira privatizar. Quem sabe.

 

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