OPINIÃO

Perder um ente querido é triste; de forma violenta é terrível, mas politizar o luto é inadmissível

Dezembro de 2001 vai ficar marcado para sempre na minha memória. Não apenas pelo ano em que, perto do réveillon, soube da morte da cantora Cássia Eller. Nessa época eu estava passando com a família as férias de fim de ano na minha terra de nascença: Maceió, Alagoas. Já fazia dois anos que eu havia ingressado na Polícia, e na primeira boa folga, fiquei animado de poder levar meus pais e minha irmã adolescente para visitar minha avó paterna. Lembro do final de semana na bela praia de Ponta Verde, de tomar banho no mar junto com meu pai, e compartilhar da alegria dele, de estar vivendo um momento tão agradável.

Agora, imagine que, ao sair da praia, dirigindo-me ao meu carro, eu e meu pai fôssemos abordados por um assaltante. Imagine que, na violência e nervosismo inerentes ao ato, como policial, para proteger meu pai, eu reagisse ao assalto, fosse mal sucedido, e acabasse tombando morto, crivado de balas, diante de um dos cartões postais da cidade.

Foi isso que aconteceu neste final de semana, em Natal/RN, com o policial militar, Ricardo Alexandre Ferreira de Brito, sargento, lotado no 5° Batalhão, vítima de um latrocínio na Praia do Meio, nas proximidades da Ponte Newton Navarro, quando retornava da praia com seu pai. O Sargento Brito, assim como eu, tinha mais de 20 anos de corporação. O pai dele também foi baleado, permanecendo no hospital, em estado grave, enquanto os criminosos fugiram, roubando a pistola do PM. Mais um crime terrível das centenas dos que acontecem todos os anos no país, e que fazem com que o policial morto torne-se mais um número nas estatísticas, de uma Polícia brasileira tida como a que mais mata; mas também a que mais morrem policiais no mundo inteiro.

Num momento de luto, numa hora de dor, é comum, entre familiares, amigos e colegas de farda uma mistura de sentimentos: tristeza, raiva, ódio, desilusão, decepção com as instituições. É salutar o silêncio. O silêncio em respeito a quem está sofrendo a dor da perda. O abraço e o ombro amigo e consolador aos que estão sofrendo é bem vindo, como um amparo aos vivos que ficam, diante dos mortos que se foram. Mas, e a revolta? Como canalizá-la para coisas produtivas, do que se render a um populismo barato? Pois é! Ao invés de silenciar em respeito aos enlutados, parece que alguns procuram inimigos imaginários, ao invés de buscar aliados a perseguir, prender e responsabilizar os verdadeiros autores de uma tragédia. Pra que isso?

Seja como desabafo ou não, vi proliferar este final de semana nas redes diversas manifestações quanto a morte do Sargento Brito. Umas bem sensatas, de respeito ao luto dos familiares e acolhimento num momento de perda. Outras, não!

De uma forma totalmente inusitada, vi blogs, sites, memes e comentários de pessoas identificadas politicamente com a extrema-direita, que responsabilizaram o Movimento Negro (isso mesmo, repetindo, inclusive, sua palavra de ordem, que “Vidas negras importam!), diante da ausência de manifestação desse Movimento e de outros, no campo progressista, que nada falaram acerca da morte do policial, já que ele, segundo a narrativa, seria afrodescendente. Como que a comparar as extensas manifestações decorrentes da morte do soldador negro, João Alberto Freitas, em Porto Alegre, após a agressão de seguranças do Carrefour, na semana passada, alguns cobram a mesma comoção dos movimentos sociais quanto ao assassinato, a tiros, de um policial militar, em frente do pai. Eles estão errados? Não! Mas o discurso é que revela o equívoco.

Em primeiro lugar, toda a vida ceifada violentamente e impunemente merece o repúdio de qualquer movimento social. Menos do que dizer que os assassinos de Brito seriam “vítimas da sociedade”, prefiro dizer que eles são um produto. Produto de que somos feitos todos nós.

Somos produtos de uma sociedade excludente, marcada por uma polarização estúpida, em que temas como segurança e justiça social continuam desvinculados, quando, em qualquer sociedade minimamente civilizada, deveriam ser interligados. A tragédia que vitimou o policial militar morto este final de semana, não é privativa só do Brasil. Nos Estados Unidos da América, terra do vitorioso Joe Biden e do derrotado Donald Trump, a lista de policiais mortos por criminosos, dentro ou fora de serviço, é enorme, mas nem por isso você vê militantes de direita defendendo um Estado que extermine bandidos, principalmente os que são negros, armados e mal encarados. A lógica do Dirty Harry dos filmes do Clint Eastwood, ou do Death Wish (Desejo de Matar), do finado Charles Bronson, é cada vez mais cena de cinema. Não prospera o apocalipse criminal dos bandidos e o consequente oásis da tranquilidade dos “cidadãos de bem”, diante de uma realidade muito mais complexa.

Os bandidos que mataram o Sargento Brito não são coitadinhos. Muito pelo contrário, sejam eles adultos ou adolescentes infratores, merecem as medidas da lei e a responsabilização que lhes cabe. Simples assim. O que não é simples é cobrar mais segurança (óbvia, diante de tanta violência), sem cobrar outra obviedade: políticas públicas como emprego, moradia e educação para milhares de pessoas, combinadas com valorização dos efetivos e mais policiais ostensivos nas ruas, como se dá, por exemplo, em países nórdicos, desenvolvidos, com baixíssimos índices de violência criminal e que consistem no sonho de consumo de dez entre dez estudiosos de política criminal na América Latina

Por isso, não dá pra ficar no discurso de que vidas de policiais mortos não importam. Ao contrário, vidas desses profissionais, expostos diariamente ao perigo, importam, e importam muito. Aos detratores dos movimentos sociais, que tentam, de forma oportunista, acusar esses movimentos de suposta leniência com o crime, por conta de seu silêncio nas redes, é importante lembrar a quem pensa assim que não foi um militante do movimento negro, um antifascista, um defensor dos direitos humanos, uma feminista ou militante LGBT quem apertou o gatilho contra o policial militar, assassinado este final de semana em Natal.

Diante de presidentes da república que brincam de fazer “arminha” com os dedos, enquanto que milhares de policiais tombam, todas as semanas, sem que façam nada, é sempre importante informar que foi outra pessoa assassinada, uma vereadora negra, no Rio de Janeiro, quem recebia no seu gabinete famílias de policiais mortos, e desenvolvia projetos para seu acolhimento e acompanhamento, poucos anos atrás.

Por conta disso, sugiro mais bom senso e menos insensatez. Acreditando que estamos todos no mesmo barco, de vítimas da violência, manifesto toda minha solidariedade e respeito aos familiares do Sargento Brito, bem como estabeleço meu repúdio a todo aproveitamento hipócrita, ridículo e oportunista de quem quer politizar mais uma morte de policial, tão somente para reforçar um projeto autoritário, inócuo, e, principalmente, ineficaz para diminuir ou evitar que outras famílias sintam a dor que agora está sentindo, a de um policial que teve sua vida tristemente abreviada, por um ato covarde e criminoso.

O que todas as pessoas que querem viver em paz pedem, independente de suas ideologias, é apenas tomar um banho de mar com seus genitores, sem, ao final, sofrer um triste fim, sob a ação de criminosos.

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