OPINIÃO

Perverso

João Victor escreve aos sábados

A cena é grotesca, mas é um retrato do Brasil que se diverte com a maldade. Agentes públicos usam armas de choque e torturam presos em penitenciária de Goiás. Não é a primeira denúncia desse tipo. O cárcere no Brasil já banalizou a atrocidade faz tempo. Resultado: quantos ressocializaram após passar pelas masmorras do esquecimento? Parte “subconsciente” do país segue aplaudindo a tortura, por achar que assim vinga a violência que encontra na rua. Acaba apenas retroalimentando essa violência.

Na Líbia, homens negros vendem outros homens negros em leilões. Em Myanmar, uma minoria apátrida sofre limpeza étnica, com requintes de crueldade, e foge. Com fome, milhares acabam ficando pelo caminho. Na Europa, o Mediterrâneo todos os dias vela os corpos daqueles que fugiam, mas não tiveram a sorte de alcançar terra firme. Enquanto isso, os que estão em terra firme, avançam seus movimentos de limitar a entrada de refugiados. As pessoas sem medo continuam tentando a travessia perigosa enquanto piratas lucram absurdos com a tragédia humanitária.

A pergunta que me faço é se a perversidade é algo indissociável de nossa natureza. Avançamos socialmente para conquistas importantes, estabelecemos democracias, sistemas de justiça e controle, mas ainda assim, nos nossos dias e tempo, vivemos ladeados com a barbárie primitiva que desafia nossos códigos e nosso senso de humanidade.

Hannah Arendt defende a ideia de que a massificação da sociedade criou uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, assim aceitam e cumprem ordens, tratando como normal a maldade, banalizando o terrível e naturalizando o mal.

O discurso de ódio é revelador nesse sentido. Cada vez mais presente em nossa vida, ele é a conexão entre o pensamento e ação. É ele que autoriza a desumanização violenta, libertando o ódio da mente, transformando esse ódio em dor física e sofrimento para minorias.

Uma população que não encontra representatividade em suas alternativas políticas, já perdidas em tantos escândalos e na briga por sugar a estrutura, acaba abrindo espaço para discursos que suportam o recrudescimento autoritário, punindo os indivíduos e absolvendo o estado das suas responsabilidades estruturais.

Nesse estado de ódio, é fundamental seguirmos firmes na defesa da dignidade humana, dos nossos direitos inalienáveis. Vivenciando a barbárie, mas não silenciando diante dela. A luta na defesa dos direitos humanos é a nossa única garantia de que a nossa natureza perversa não vai encontrar ainda mais espaço para se sofisticar.

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Jornalista e militante de direitos humanos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *