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Pesquisa reencontra animais desaparecidos na caatinga potiguar

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Por Livia Cavalcanti ¹ e Paulo Henrique Marinho ²

O desconhecimento sobre as coisas da natureza tem sido uma realidade crescente, fazendo com que muitas pessoas deixem passar despercebido o meio ambiente a sua volta. Nos centros urbanos, e até mesmo na zona rural, a modernidade tem nos distanciado cada vez mais do convívio com animais e plantas que estão “ali do nosso lado”, ou seja, das espécies nativas, que são as que sobrevivem naturalmente em um lugar. Esse desconhecimento é refletido geralmente pela importância que se dá (ou não) para as florestas e seus genuínos habitantes. Só preservamos o que consideramos importante, e só damos importância àquilo que conhecemos.

Pensando em contribuir para mudanças nesta realidade, um projeto que nasceu em 2013 no Departamento de Ecologia da UFRN tem buscado identificar e mapear as espécies de mamíferos silvestres que resistem na Caatinga do estado. Ao longo de seis anos, o grupo publicou trabalhos científicos e realizou ações de divulgação dando destaque para animais como veados-catingueiros, gatos-do-mato de várias espécies (inclusive os pintados, aqueles que parecem miniaturas de onças-pintadas), raposas, guaxinins, tamanduás e até mesmo onças-pardas. Está surpreso? Mas é isso mesmo! No Rio Grande do Norte ainda existem todos esses animais e muitos outros que sequer imaginamos.

O estudo Mamíferos de médio e grande porte da caatinga do Rio Grande do Norte, Nordeste do Brasil, realizado por pesquisadores do Departamento de Ecologia da UFRN, foi publicado recentemente em uma revista científica Argentina. Leia aqui

Visão do Parque Nacional da Furna Feia (foto: Maria Luíza Falcão)

Agora, o foco tem sido uma importante área do RN, o Parque Nacional da Furna Feia. Primeiro e único do estado, esse parque nacional foi criado em 2012 com o objetivo de preservar os ecossistemas naturais da região, além de promover a educação ambiental e o turismo ecológico. A unidade de conservação se estende por mais de 8000 hectares entre os municípios de Baraúna e Mossoró, no oeste potiguar. Para se ter uma ideia, isso equivale a mais ou menos 8000 campos de futebol somados, abrigando um patrimônio espeleológico (relativo às cavernas) e arqueológico (com várias pinturas rupestres) incalculável e que hoje está protegido pelo órgão do governo federal ligado à conservação da natureza, o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Já são pelo menos 205 cavidades identificadas até o momento, tendo a principal caverna, a da furna feia, que dá nome ao parque, pelo menos 766 metros de extensão. 

Caverna Furna Feia (Foto: Paulo H. Marinho)

Abrigo do Letreiro, em cujas paredes foram localizados vestígios arqueológicos.

Abrigo do leiteiro (Foto: Paulo H. Marinho)

Projeto Felinos da Furna Feia fortalece necessidade de conservação da área do parque

Tatu-peba encontrado no Parque Furna Feia

Que o parque é rico em cavernas e pinturas rupestres já sabemos. Mistério eram dados consistentes sobre a sua biodiversidade, tais como quais espécies de animais haviam na área, especialmente em relação aos mamíferos. A escolha por esse grupo está relacionada a um importante indicativo de “saúde” da natureza na região, uma vez que esses animais realizam funções ecológicas como a dispersão de sementes e controle da vegetação e de outras espécies.

Neste contexto, o Projeto Felinos da Furna Feia veio em 2018 com objetivo principal de identificar quais espécies de felinos silvestres existem na região e o quanto as suas populações estão saudáveis na área, considerando a relevância do parque em abrigar bichos tão importantes e ameaçados de extinção, como é o caso do gato-do-mato-pintado.

O projeto já soma número expressivos. Ao todo já foram registrados no parque 14 espécies de mamíferos terrestres silvestres (que se deslocam pelo chão, já que os morcegos também são mamíferos), das quais 11 são espécies de médio ou grande porte, aquelas com mais de 1 kg de peso, geralmente mais ameaçadas e raras, incluindo três espécies de felinos silvestres que existem na área.

É possível encontrar no parque animais como o veado-catingueiro, o macaco-prego, o tamanduá-mirim, e claro, os gatos-do-mato, foco principal do estudo, que são três: gato-do-mato-pintado (peso médio de 2,5 kg), gato-mourisco (peso médio 4,5 kg), conhecido na área como gato-vermelho ou gato-azul, já que naturalmente podem haver indivíduos da espécie com coloração laranja/avermelhada ou cinzenta, e por fim, a jaguatirica ou gato-açu (peso médio 8 kg). Desses, o gato-do-mato-pintado e o gato-mourisco estão ameaçados de extinção no Brasil, reforçando a importância do Parque para preservar espécies que estão vulneráveis.

Como funciona o projeto e quem são seus beneficiados

Macaco-prego também foi mapeado na caatinga do Rio Grande do Norte

Atuando em três diferentes frentes de trabalho, o projeto tomou algumas iniciativas, com apoio da gestão do parque, dos moradores locais, além do fundo internacional de conservação The Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund. Em primeiro lugar, foi feito o levantamento dos dados das espécies em campo, tentando identificar os seus habitats preferenciais e o tamanho das suas populações com ajuda de câmeras especiais instaladas na floresta. Esses equipamentos possuem sensores de calor e movimento que permitem o registro automático de todos os animais que passam na sua frente. Em seguida, realizaram-se mais de 90 entrevistas com os moradores locais para saber seus conhecimentos e suas relações com os felinos silvestres e com o parque.

Por fim, promoveram-se ações de divulgação e valorização desses animais e da biodiversidade do parque em escolas da região, envolvendo mais de 1000 crianças e adolescentes que ouviram, por pouco mais de uma hora, sobre os animais que existem logo ali, muitas vezes a poucos quilômetros de casa, mas que muitos deles nunca tinham visto, ou sequer ouvido falar, e agora puderam vê-los em imagens e vídeo.

Para a analista ambiental do Parque, Lúcia Guaraldo, “conhecer o Parque e seu rico ecossistema é fundamental para a eficiência da preservação, que passa por todos nós, de população residente do entorno à equipe gestora da unidade de conservação.”

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De novembro de 2018 a fevereiro de 2019 foram realizadas palestras em seis escolas de Baraúna e Mossoró, principalmente na zona rural.

O trabalho realizado nas comunidades do entorno do parque, que somam mais de 10 localidades, ajudará a entender como as pessoas se relacionam com os felinos e com o parque, contribuindo assim para o sucesso da unidade de conservação. A próxima etapa do projeto é a compilação e análise dos dados coletados para gerar informações relevantes para os gestores ambientais. Sobre isso, Lúcia revela que “o estudo será, inevitavelmente, incluído no Plano de Manejo, em elaboração, do Parque Nacional da Furna Feia.

Para além da contribuição com o parque, o grupo de pesquisadores da UFRN, liderado pelo doutorando Paulo Henrique Marinho e pelo professor Eduardo Venticinque, pretende continuar estudando e divulgando a rica e subestimada biodiversidade da Caatinga potiguar para os cientistas e para os moradores do sertão, afinal é preciso conhecimento para o engajamento ambiental e é preciso um meio ambiente saudável para uma vida de qualidade, seja na cidade ou no campo.

¹ Jornalista, graduanda em Ecologia na UFRN
² Biólogo, doutorando em Ecologia na UFRN

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