OPINIÃO

Pessoa e Manuela, humor, cumplicidade e afeto para formar uma escritora

Não sou um profundo conhecedor da obra de Fernando Pessoa. Longe disso. Sou apenas admirador do seu jeito de percorrer as angústias da alma humana. O bardo português, rival à altura de um Camões, também dirigiu seu olhar poético para as crianças. E uma em especial, ainda guarda hoje na memória, os tempos em que viveu com ele. Fez poemas para a sobrinha e muitas vezes brincou com ela, num jogo de personagens, que só quem tem alma de criança pode topar fazer.

Manuela virou escritora. Produziu quatro livros sobre o parente famoso, com quem conviveu até os dez anos de idade. Perto de completar 90 anos, em 2015, lembrou de um tio extremamente bem humorado e dos passeios pela rua Coelho da Rocha, 16, 1º andar direito, em Campo de Ourique, Lisboa, onde a família morava. Contou a uma plateia encantada, na 11ª Edição da FliPorto, em Pernambuco, de sua lúdica interação com Pessoa. Um dia, a menina sugeriu ao poeta que em vez de ir a barbearia do Seu Manassés, ela mesma iria fazer a barba do escritor de muitos dos mais belos poemas em língua portuguesa.

“Era um homem que gostava de colaborar com as crianças, tinha paciência e era cheio de humor”, resumiu a sobrinha ao puxar pela memória que mesmo os heróis não são perfeitos, pois o gênio fumava muito. Como um filme na cabeça e muito lúcida, Manuela contou que a mãe dela (Teca) lhe dava sempre uma missão. “Vai ver na varanda, se o Fernando vem vindo à rua”, ordenava para a filha.

A menina corria e via o tio se aproximar. Como uma repetida pantomima, de provocar gargalhadas na criança, que via tudo do primeiro andar, ele esbarrava propositalmente em um candeeiro e fazia reverências, em esmeradas desculpas, para o objeto de rua inerte. Outras vezes, procurava ao chão moedas que imaginariamente tinha perdido, fazendo até vendedores de lojas auxiliá-los na divertida busca. Manuela escreveu muito. Produziu duas dezenas de livros, inspirada pelo dom de seus familiares pela paixão em favor das palavras bem ditas.

“Ele vivia para fazer rir as crianças. Ele não podia estar ao pé de crianças sem fazer um monte de disparates. Mesmo disparates. Ele não era um educador, era um deseducador. E isso para crianças era uma maravilha”, reconstituiu Manuela Nogueira, em setembro deste ano ao recordar o tio. Adorava a maneira como o meio-irmão de sua mãe fazia para presenteá-la. Escondia mimos, como pequenas bonecas de louça ou rosas metálicas, por debaixo do guardanapo.

A mãe de Pessoa também escreveu poemas. Versos que ficaram guardados. E Fernando Pessoa tornou-se conhecido do público depois de sua morte, em 1935, aos 47 anos. “Mas que pena, Fernando. São coisas tão maravilhosas, que pena não haver possibilidade de serem vistas, de serem publicadas”, comentava a irmã Teca, após ouvir uma dos poemas dele, escritos durante uma madrugada insone.

Tipógrafo, representante comercial, crítico literário, Fernando Pessoa não teve facilidade para que as portas da fama fossem abertas em vida. Chegou a lançar quatro livros poéticos. Recluso, escrevinhava aquilo que depois seria considerado como joia rara. Infinitamente mais conhecido na posteridade do que na existência. Não vivia de seus textos. Se vestia com categoria, em loja cara. Tinha um mundo próprio, tão rico que criou outros poetas brotados de seu cerebral espírito, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, criaturas que só enriquecem ainda mais a personalidade misteriosa do poeta.

Como toda boa história, o poeta deixou muita coisa escrita, muitos papéis em uma arca. “Nós não fazíamos a mínima ideia de que o Fernando viesse a ser tão importante”, disse Teca sobre o legado que o irmão deixou para a posteridade. “Ele coitado nunca teve a felicidade de perceber o entusiasmo que gerou em tantas gerações”, observou depois a sobrinha.

Era um tímido que amava os “mais pequenos”, como dizem os portugueses.

Quem quiser se aventurar pelas poesias de Pessoa feitas para o público infantil, muitas delas concebidas para Manuela, pode ler “Fernando Pessoa – Poemas para Crianças”, publicado pela Martins Fontes.

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