OPINIÃO

Pistolas

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O Brasil estreia no Matutão Fifa 2018 sob o signo do ódio — ou da indiferença, que é o ódio sem vísceras e nervos. Fábricas de estatísticas atestam que metade da nação canária cospe na maratona que ora embriaga a república da vodca. Como uns Karamazov de segunda mão, exibimos a versão tropical da alma russa que gerou tantos clássicos literários do dilaceramento.

O Brasil começa a jornada de expiação daqueles 7 a 1 sem a adesão incondicional ao amarelo que vestiu o orgulho nacional em todas as copas. A culpa é de coxinhas & afins, que usurparam a cor do nosso maior movimento popular (a campanha das Diretas-Já, em 1984) para conspurcá-la como símbolo de outro vexame global: o 7 a 1 na democracia, dois anos atrás.

A camisa do escrete foi o uniforme oficial da quartelada civil, e por isso é escarnecida por tantos que jogam no time dos gol(p)eados. A intolerância política infiltrou-se na moldura e trincou um dos raros espelhos da brasilidade. Quem não é bolsominion mas devota alguma paixão pela pátria de chuteiras trata de customizá-la em vermelho, preto, azul-celeste, branco — qualquer padrão, menos o amarelo-pato que aprendemos a odiar.

E assim passamos, como torcedores, de pachecos a pistolas, com a mesma desfaçatez do mascote da CBF, que assumiu ares enfezados para simular a força que faltou aos canários fulminados em 2014 pelos teutões — e em 2016 pela direita.

Quis o acaso — esse deus que adora zombar dos traumas e perpetuá-los — que o primeiro adversário do Brasil no Matutão 2018 fosse a Suíça, de camisa tão rubra quanto a nossa indignação (ou a nossa vergonha). Assim, veremos pela tevê mais um capítulo do clássico que há quatro anos divide o país entre ‘os seus’ e ‘os meus’ intolerantes. Agora, com uma pequena variação: gentes de vermelho torcendo pelas gentes de amarelo. Coisas do futebol. Ou da política.

Os brazucas globalizados não devem passar muito apuro contra os helvéticos, que estão no máximo entre os brics europeus da bola. Nas eliminatórias para o Matutão, ganharam nove dos dez jogos, com média inédita de dois gols. Uma façanha, se considerarmos que sua grande contribuição à evolução do ludopédio é a invenção do “ferrolho suíço”, a retranca tão eficiente como o relógio que fabricam e tão inexpugnável como o sistema bancário com que lavam os dinheiros sujos globais.

A novíssima vocação ofensiva é sustentada pela predominância (dois terços do elenco) de jogadores naturalizados ou descendentes de imigrantes de países com tradição de excelência boleira, como os que perfaziam a extinta Iugoslávia. Mas é duvidoso que façam jogo aberto contra o quinteto (Neymar, Coutinho, William, Jesus, Marcelo) que dá ao sólido esquema tático do professor Adenor as notas de brasilidade que, aposto, transformarão a cor amarela na mais vermelha — mesmo que apenas por um mês. Para começar a mutação, Brasil 3 a 0.

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Jornalista e Poeta

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