OPINIÃO

Pobre tem que revirar lixo e não comer camarão, segundo a elite brasileira

Em um país com inflação em alta, gasolina acima de 7 reais, desemprego, desmatamento na Amazônia e mais dezenas de outros problemas, vimos no final da semana passada um debate com tintas de ridículo e perversidade seja pela banalidade do ponto de partida do debate seja pela ideia que o debate carrega em si.

Tudo quando na noite de quinta-feira passada, o diretor do filme “Marighella”, Wagner Moura exibiu a produção aos trabalhadores que fazem parte do  Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)  na Zona Leste de São Paulo e ele foi fotografado comendo em pé uma quentinha servida ao pessoal com vatapá, caruru, camarão e salada.

A foto inocente nas redes sociais foi o bastante para uma série de polêmicas e comentários ferinos. Milhares de pessoas ironizando que o ator e diretor comia camarão em uma quentinha e ainda mais do MTST. A ironia tinha alvo direto: que Moura “posava” de simples, mas comendo um prato “chique”. Mas logo a saraivada de críticas mostrou um aspecto cruel nas entrelinhas: posto que Moura comia o prato que era servido a todos os trabalhadores no local, a mensagem cifrada das críticas passou a ser percebida: pobre não pode comer camarão.

Que a elite se aborrece com gente de “castas” inferiores tendo os mesmos privilégios que ela, é notório. Trata-se de um pessoal que tinha horror de ver gente simples em aeroportos. Ou negros em cursos de Medicina. De ver empregadas domésticas viajando para a Disney, como singelamente admitiu Paulo Guedes em um evento governamental. Não usei o termo “castas” por acaso. Para a elite, a sociedade brasileira funciona como no sistema indiano de castas, na qual direitos na verdade são privilégios de nascença e mobilidade social não apenas é uma dificuldade mas não é aceita.

E na elite brasileira (e o pobre de Direita que se considera parte dessa elite) une o ódio aos pobres com ignorância pura e simples:  camarão seco, vatapá, caruru e salada são ingredientes usados para o preparo do acarajé tradicional, frito no óleo de dendê, enfim, iguaria deliciosa vendida em qualquer rua de Salvador e espalhada pelo Brasil afora. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que pobre comendo camarão é acintoso, e ator-diretor comendo quentinha “de pobre” que contém camarão é digno de deboche e acusação de hipocrisia.

Que Wagner Moura tem condições para comer lagosta em um restaurante fino de São Paulo ou Rio, nós sabemos. Mas, sabemos também que para a elite que o criticou pobre não pode comer na quentinha “comida de rico” mas sim revirar lixo, roer osso, mendigar restos de frango. É o papel que cabe aos pobres em um país escravocrata, coronelista e latifundiário onde a pobreza sempre foi um projeto. A elite naturalizou quem pode e não pode comer bem no Brasil. Camarão, já sabemos, pobre não pode comer.

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