OPINIÃO

Pobres moços do mundo do futebol

Sempre tive vergonha do posicionamento político de meus colegas e ex-colegas de profissão. Não, não quero ser melhor que eles, e, no caso de muitos, compreendo. A falta de instrução, leitura e o envolvimento dos profissionais da arte de enganar fazia e faz com que muitos tomem caminhos absolutamente opostos às suas origens. Sorrisos, tapinhas nas costas (muitos dirigentes de futebol), promessas, atenções e convites, tratamento íntimo era o bastante para enganar.
Me lembro, bem, dos meus tempos de atleta profissional, ainda, quando em 1985, talvez um pouco antes, chamei a atenção, alguns até me olharam enviesado, porque, concentrado para um clássico de domingo, vesti uma camisa do PT na domingueira da Sede Campestre do Alecrim. Tenho essa foto em que estou ao lado de Odilon, companheiro e ídolo, querido amigo sempre.
Os caras passavam, falavam, tapinhas nas costas, olhavam para o símbolo da camisa, reparavam de novo, mas, Alecrim em alta, eu titular, peça importante do time, ainda mais em tempos de abertura, nada falavam. Os que se identificavam com o partido, com a democracia, se chegavam, me parabenizavam surpreendidos. Normal ainda hoje muita gente acha que todo jogador é analfabeto. Antes,  em 1982, o meu voto foi um dos poucos mais de 3 mil e setecentos que obteve o candidato Rubens Lemos, na eleição para governador do RN, vencida por José Agripino, apoiado pelos generais, na disputa contra Aluizio Alves.
Estou misturando jogador com eleição porque, essa semana, o noticiário foi sobre Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo despachados do Barcelona por fazer apologia ao sanguinário, nazista, criminoso Jair Bolsonaro. Uma lição da equipe de um país que sabe muito bem o perigo que o fascismo representa. Antes, nada mais óbvio, Felipe Melo, talvez no futebol o retrato  mais fiel do eleitor do Coiso, já havia dedicado gol e voto a ele. Essas adesões estapafúrdias não param. A gente sabe que Neymar, Ronaldo Nazário, Bebeto e quase 90% dos atletas e ex-atletas se identificam muito mais com a besta. Eles querem esquecer, talvez, não sei, pode que não tenha sequer tomado conhecimento,  que um dia foram massacrados por governos representados por esses mesmos hoje.
Voltando no tempo, lembro das tentativas absolutamente infrutíferas que fiz, sei lá, talvez tenha garimpado alguns votos para Rubão em 1982, mas acho difícil. E foi assim nas eleições seguintes, Aldo Tinôco (PDT), em 1986; Salomão Gurgel (PT), em 1990, ano em que já havia encerrado minha carreira futebolista. Nem precisa dizer que meus candidatos, de vereador a senador, todos, sempre de esquerda, PT e PC do B, na maioria das vezes.
Uma passagem muito engraçada ainda das eleições de 1982, a esposa de “seu” Zé Dantas, que era o administrador da Sede Campestre, “Dona” Tininha (acho que era esse o nome) tinha verdadeiro horror a Aluízio Alves, era toda amor por José Agripino. A casa deles era no meio do terrenão de Macaíba, e passávamos diante nos nossos treinamentos aeróbicos. Eu, sob os protestos do goleiro Índio (você vai matar a veinha, advertia) pegava o maior galho verde que encontrasse, me juntava com outros dois ou três gaiatos e cantávamos a música de campanha candidato do PMDB ao mesmo tempo que balançávamos os galhos em sua janela.
Ela descobriu que eu era o mentor e me proibiu, mandou recado pelo goleiro, de ir na casa dela comprar os deliciosos bolos de batata e macaxeira que fazia. E mais: depois da eleições, mandou o mesmo emissário me entregar um pacote. Recebi, estranhei, perguntei se havia sido mesmo ela que me enviara. Abri, coisa mole, pensei que fosse algo de comer, mas, para minha surpresa,  era uma bandeira branca, enorme, enrolada, com o símbolo JA. A veinha se vingou legal, meus colegas tiraram meu “couro”.
Fui ganhando no futebol essa pecha de polêmico, revolucionário, claro, quase sem dimensão nenhuma, pois rádios e jornais nunca tratavam dos assuntos de política. Sempre fui fã de Afonsinho, toda vida, e ainda hoje; Reinaldo por sua comemoração afrontando o criminoso Ernesto Geisel; Sócrates e toda democracia corintiana, mas os repórteres adoravam me entrevistar em tempos de crises, pois falava mesmo e criticava presidente, diretor de futebol sem dó nem piedade. Claro, por isso, minha vida curta na carreira, pois parei de jogar com 30 anos incompletos, absolutamente descrente da classe dirigente e sem saco para tantas safadezas.
Um outro episódio muito marcante, esse talvez o mais polêmico, hoje engraçado, de todos, aconteceu no comecinho da minha carreira, acho que 1979 ou 1980. A diretoria do Alecrim completara quase 60 dias sem pagar um vale sequer a nós jogadores. No sábado, domingo seria um jogo diante do Riachuelo, esperamos, todos nós jogadores, depois do recreativo da manhã, até às 15h e não apareceu ninguém do clube. Havia a promessa de pagamento de um bom vale naquele dia. Nem precisa dizer que todos ficaram enfurecidos. Nos reunimos, falei, outros falaram, combinados que não iríamos ao campo no domingo, declarada a greve e só voltaríamos quando houvesse uma solução. O Alecrim perderia por WO.
Amanheceu o domingo. Como todos os outros, fiquei em casa, na esquina com os amigos as mesmas conversas e brincadeiras de sempre. Alguns me questionavam: “Pepa, tu não vai não?”. Eu, inocente, respondia que “ninguém ia”. Chega o horário da partida, deixei o  tempo passar, na verdade nem estava querendo escutar a confusão que devia estar provocando o “WO” nos prefixos que transmitiam a partida, mesmo assim, por desencargo, liguei o aparelho. Para minha surpresa, a narração de uma partida de futebol rolando. Pensei ser um jogo do Rio, substituição de última hora, apurei meu ouvido. Gelei ao escutar claramente os nomes de meus companheiros. Depois, fiquei sabendo, fui o único a cumprir a promessa de greve, os outros todos estavam lá.
E foi assim. Essa minha falta gerou grande confusão, suspensão, ameaça de rescisão contratual, imaginei até que minha carreira estaria encerrada tal a virulência das entrevistas de alguns dirigentes do Alecrim antes da partida começar quando perguntados sobre minha ausência. Para minha sorte, acho, o Alecrim perdeu de 2 a 0. A torcida, claro, quase toda se passou para o meu lado. Na segunda-feira, na Rádio Trairi, comando de Assis de Paula, juntou gente na calçada, na frente e dentro da rádio, para ouvir o programa de esporte mais ouvido naquela época, e que sempre falava das coisas da rodada do domingo.
Naquele dia, o assunto já havia gerado muita discussão durante o dia, ao vivo, os convidados (a produção do programa ligou pra mim umas dez vezes, acho que eles pensavam que eu não teria coragem de aparecer para falar diante de todos e da direção do time verde) eu, um dirigente (já falecido, e pessoa que depois se tornaria muito querida) e Rocha, autor dos dois gols da vitória do RAC, que iria receber prêmio. AudIência total. Claro, sem rodeios, sem medo, aliás, como sempre agi, falei dos atrasos, das combinações de nós jogadores, disse claramente que estava triste e me sentindo traído, critiquei o descaso da direção, a falta de palavra do cartola que estava no programa, fui chamado de “subversivo”, o interrompi aconselhando ele a chamar o exército (muitos risos e até palmas no estúdio), enfim, tudo que o dirigente não queria ouvir. Resultado: as coisas serenaram, eles conseguiram dinheiro para pagar o plantel e eu acabei reintegrado.
O mundo do futebol.
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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos