DEMOCRACIA

Polícia Federal acionou PM para “proteger” público de filme sobre Olavo de Carvalho

A exibição do documentário “O Jardim das Aflições”, de Josias Teófilo, sobre o filósofo Olavo de Carvalho, acabou com a Polícia Militar dentro do campus central da UFRN. O evento ocorreu na noite de terça-feira (11), convocado pelo Instituto Filipe Camarão, entidade ligada à extrema-direita que vem promovendo vários eventos semelhantes na cidade. O próximo está marcado para 7 de dezembro, com a psicóloga Marisa Lobo, defensora da “Cura Gay”. De acordo com a secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, a PM foi acionada pela corregedoria da Polícia Federal para “garantir a segurança” do público que assistia o filme. Em razão do feriado, a agência Saiba Mais não conseguiu falar com a PF sobre o caso.

Na página do facebook criada pelo Instituto Filipe Camarão para divulgar o evento, o presidente da entidade Jaufram Siqueira publicou dia 9 de novembro um texto afirmando que já estava “providenciando a segurança” em razão de informações recebidas pelo grupo de que pessoas estariam planejando “manifestação contrária às ideias de Olavo de Carvalho”. Jaufram Siqueira foi candidato a vereador pelo PMN em 2016 e ficou conhecido por criar um meme em que sugeria queimar feministas caso fosse eleito.

Embora não haja um impedimento legal para a presença da PM na universidade, como se trata de uma jurisdição federal a segurança geralmente é feita pelo próprio corpo de vigilância da UFRN e, em último caso, pela Polícia Federal. Nos casos mais graves, a reitora é sempre comunicada, o que não ocorreu desta vez. Ângela Paiva só soube da ocorrência ao ser informada por telefone pelo presidente da Adurn-Sindicato, Wellington Duarte. Assim que recebeu a informação, a reitora entrou em contato com o Governo do Estado e pediu a retirada das três viaturas e do efetivo de aproximadamente oito agentes da PM enviado ao campus. Apesar do clima hostil e das provocações do grupo simpatizante ao filme não houve registro de incidentes.

A Adurn-Sindicato divulgou uma nota na manhã desta quarta-feira (15) ressaltando a gravidade do episódio para a democracia. A entidade defendeu a realização do evento, mas alertou os riscos que a presença da Polícia Militar sem o consentimento da reitoria pode acarretar à autonomia universitária:

Embora discorde frontalmente de suas reais intenções, o ADURN-Sindicato não questiona a realização do evento, tendo ele sido realizado dentro das regras da UFRN, no entanto a forma como os acontecimentos se desenrolaram provocaram uma interferência grotesca na autonomia dessa instituição. O que já seria bizarro, tornou-se mais incompreensível pois automóveis da Polícia Militar, que pela lei só pode atuar dentro da UFRN caso seja autorizado pela Reitora, o que não ocorreu, faziam a “proteção” da película e obviamente dessa turba provocadora. A defesa da Democracia e do respeito e a legalidade sempre norteou a ação política do ADURN-Sindicato e é nesse sentido que repudiamos o ocorrido e exigimos que se apure a responsabilidade sobre o mesmo, ressaltando que não se pode chamar de “democrata” grupos de fascistas cujo pensamento trouxe ao mundo uma Guerra Mundial. Chamamos toda a comunidade acadêmica a defender a autonomia da UFRN e rechaçar as posturas autoritárias de grupos fascistas que tendem a tornar o espaço da construção do saber em um repositório de ideias medievais e anti-civilizatórias.

Professor do curso de Comunicação Social da UFRN, Ruy Alckmin estava no local e afirmou que em 20 anos nunca havia presenciado a Polícia Militar no campus da UFRN. Segundo ele, havia um grupo de simpatizantes do filósofo Olavo de Carvalho vestidos de preto e segurando símbolos nacionais, como a bandeira do Brasil. Para ele, a autonomia universitária foi colocada em risco.

– Quando há algum roubo no campus, a vigilância da universidade e a Polícia Federal são chamadas. Eu nunca vi a PM atuando dentro do campus, é um negócio completamente fora do padrão lógico. O que chama a atenção é que há uma série de reclamações no anel viário da UFRN relacionados à roubos e furtos, onde a PM poderia atuar, mas não o faz. O que houve durante a exibição do filme foi uma intervenção completa porque no momento estamos fora do estado democrático de direito.

A senadora Fátima Bezerra (PT) se associou a ADURN- Sindicato na defesa pela autonomia da universidade e destacou que a UFRN é um espaço democrático.

– Não questiono a livre manifestação ideológica. A Universidade é o espaço para o pluralismo de ideias. Mas não podemos aceitar que setores, ainda mais no âmbito da comunidade acadêmica, venham a ferir sua autonomia. É nosso dever defendê-la.

 

Polêmica é antiga

Essa não é a primeira vez que a exibição do documentário “Jardim de Aflições”, de Josias Teófilo, provoca polêmica. O filme retrata a biografia, a rotina e o pensamento de Olavo de Carvalho, filósofo controverso. Amado pela extrema-direita e odiado pela esquerda e até pela própria direita, vez por outra bate-boca pelas redes sociais com personalidades cujo pensamento ideológico se assemelha ao dele, a exemplo do ex-articulista da revista Veja Rodrigo Constantino e do jornalista Reinaldo Azevedo.

Recentemente, Heloísa Carvalho, uma das filhas de Olavo, publicou uma carta na internet fazendo várias acusações ao pai, entre elas a de ter colocado uma arma na cabeça dos filhos no passado. Carvalho atribuiu as acusações à ausência de Heloísa do filme.

Em maio deste ano, assim que “Jardim das Aflições” foi anunciado pela programação do Cine PE, cineastas de outros longas também presentes na grade do festival decidiram boicotar o evento. Em 27 de outubro, a exibição do filme sobre Olavo de Carvalho terminou em pancadaria entre grupos de esquerda e de direita, na Universidade Federal de Pernambuco.

Em Natal, na página do Facebook criada pelos grupos de extrema-direita Instituto Filipe Camarão e Endireita RN, vários comentários fizeram alusão a um provável conflito contra “esquerdopatas” sem qualquer identificação de quem poderia agredir o grupo. Os posts sobre pretensas brigas são muito vagos. Outros exaltam o filosófo. Num dos comentários, de Álisson Araújo, Olavo de Carvalho é classificado como o “o maior intelectual, educador e filósofo vivo e em atividade”.

Na manhã desta quarta-feira, simpatizantes do filme comemoravam a exibição do filme, segundo a organização, em três sessões. Grupos de extrema-direita seguem exibindo “Jardim de Aflições” pelas universidades brasileiras. Nesta quinta-feira (16) é a vez da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"