OPINIÃO

Política, ensino e humor

Leio, um tanto estarrecida (sim, ainda consigo me surpreender nestes tempos bolsomitas), a notícia do afastamento do professor Marcos Antônio Tavares da Silva do colégio Liceu de Humanidades de Campos dos Goytacazes (RJ). O afastamento se deu logo depois do professor utilizar em sua aula de português em uma turma de 3º ano a seguinte charge:

A notícia diz ainda que o professor foi “informado pela diretora que tinha sido afastado a pedido do governador Wilson Witzel.  Quando foi à Coordenadoria Regional de Educação questionar a decisão, foi informado apenas de que tinha sido afastado por “ordens superiores” para “acalmar os ânimos” (https://istoe.com.br/professor-e-afastado-de-escola-apos-usar-charge-de-bolsonaro/).

Tal exercício de poder mostra, muito claramente, o grande retrocesso que estamos vivenciando: direitos trabalhistas duramente conquistados escorrendo pelo esgoto, manifestações de uma moral medieval por todos os cantos, ataques diretos a minorias e, nesse caso específico, censura explícita e cerceamento da prática de atores sociais fundamentais para uma democracia: artistas, jornalistas, professores.

Qual foi o erro de tal professor? Por que a sala de aula não pode ser espaço de discussão e debate sobre posicionamentos políticos? E se tudo é prática discursiva, quais os critérios para determinar quais sejam as que podem ou não ser conteúdo de ensino/aprendizagem? Por que charges políticas não poderiam ser abordadas?

E ainda: por que tal charge não poderia ser utilizada como exemplo para explicar fenômenos de linguagem tais como ironias (a não equivalência – cômica não fosse trágica – entre um dizer e uma ação efetiva) e metáforas (abordar, por exemplo, a seguinte questão: o que pode vir a significar, em alguns momentos, a expressão “tomar no cu”?).

Qualquer criatura não-analfabeta (funcional e politicamente falando) percebe que esse acontecimento faz parte de um projeto de governo totalitário, que não garante o respeito à diferença e à diversidade. O afastamento do professor “subversivo” ilustra mais um episódio no processo de “aparelhamento”, para usar uma expressão althussereana, de uma ideologia de extrema direita que não é apenas elitista e tosca, é perversa: o projeto da “escola sem partido” é totalmente partidário das bancadas mais questionáveis do cenário brasileiro, as bancadas da bala, da bíblia e do boi.

Aliás, a emergência e a circulação da charge como gênero discursivo de humor já implicam um embate entre forças, visões de mundo, posições. Quando um dos lados age de modo opressor, silenciando a palavra do outro e o direito ao debate, temos um atentado contra uma sociedade que não se pretenda autoritária. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte, sabemos, acumulamos episódios similares, como a demissão de Amâncio do jornal Tribuna do Norte após ter publicado uma charge sobre a então governadora Rosalba Rosado ou ainda as ofensas que o chargista Rodrigo Brum recebe quase diariamente.

O humor e a prática professoral têm a potência de questionar as “verdades” colocadas como “naturais”, “verdades” que quase sempre escamoteiam relações de poder acionadas por interesses em que a opressão de muitos garante e tenta garantir o privilégio de poucos.

Resistamos!

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