OPINIÃO

Política? Tô fora

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O editor-em-chefe das forças revolucionárias, Rafael Duarte, fez-me o convite para estrear uma coluna sobre política neste Saiba Mais – o que prontamente recusei, por razões que explicarei a seguir. A primeira e talvez mais relevante é que não sou doido – ainda. Já passei altivamente por todo tipo de humilhação na vida, mas ficar conhecido como o cara que tentou substituir Adriano de Sousa seria demais para qualquer um. Um outro bom motivo é que até o colunista de jogo do bicho deste site acaba, invariavelmente, falando de política, então acho que do assunto estamos bem servidos.
Além de tudo, a política potiguar é um jogo de cartas tão marcadas e figurinhas tão repetidas que lá pelo terceiro artigo sobre José Agripino eu certamente esgotaria a lista de adjetivos depreciativos do Houaiss. Fora o fato de que, dos cinco amigos que me restam na cidade, quatro são petistas e o outro é incubado. Quem suportaria tamanha solidão?
Some-se, a isso, a ingratidão. Mirem-se no exemplo de que, ano passado, canonizaram os mártires de Cunhaú e Uruaçu e ninguém, absolutamente ninguém, lembrou de incluir Wilma de Faria na lista de santos. Não tenho estômago para isso.
Falta-me, sobretudo, a capacidade imprescindível para o articulista político de alardear meus dotes e talentos beletristas. Pois vejam: há quase uma década afastado das redações, só agora consegui uma vaguinha neste humilde puxadinho eletrônico para trocar uma palavra ou duas com um leitor ocasional. Jamais sobreviveria à sanha selvagem que domina o mercado do comentário político de hoje.
Podem me acusar de saudosista, mas, na minha época de redação, o colunismo político era uma espécie de Olimpo dos xeleléus, eram necessários anos de traquejo e puxa-saquismo para, aí sim, refestelar-se à sombra dos ovos de algum poderoso. Hoje, há uma profusão de blogs e articulistas tão grande nesta seara que eu me sentiria um ambulante da avenida dois, tentando convencer no grito um incauto a adquirir em nossa banca o mesmo produto falsificado em oferta em todos meus vizinhos de calçada. A crise tá de um jeito que um amigo próximo dirige um Uber, vende Jequiti e complementa a renda com um blog de política.
Política é um troço tão complicado, que a melhor maneira de explicar a vocês minha recusa é por meio de uma alegoria. Ou melhor, um causo, colhido diretamente com Abimael Silva, do Sebo Vermelho.
O deputado Ulisses Potiguar era uma liderança tradicional em Parelhas e, com a legalização do voto dos analfabetos na constituição de 1988, resolveu mobilizar suas bases para a campanha presidencial de 1989, aquela famosa. Dono de fazenda no Seridó, mandou avisar aos moradores de suas terras para pegarem os documentos e tirarem o título de eleitor. Algumas semanas antes do pleito, deu aquele rolé de casa em casa para lembrar o pessoal do compromisso e, claro, do candidato de sua preferência. Foi quando se deu o ocorrido:
– Bom dia, seu Chico.
– Bom dia, doutor Ulisses.
– Tirou o título de eleitor?
– Tirei sim, senhor – e correu pra dentro de casa para pegar o documento. – Agora, vou dizer uma coisa: o senhor veio para falar do candidato, não foi? Pois deu viagem perdida. Nem precisa se preocupar que a gente já sabe quem é o candidato certo!
– E quem é?
– É Collor, doutor!
– Collor? Você tá é ficando doido! Aquilo é um bandido, um cheirador de cocaína, um desqualificado! O candidato é Brizola!
– Desculpa, doutor – respondeu, meio ressabiado o morador.
(Aqui abre-se um parêntesis para as traições da memória. Na versão de Abimael, o candidato de Ulisses Potiguar era Brizola, o que causará estranhamento para quem lembrar que o deputado seridoense era um democrata dos quatro costados, desde a época em que o partido atendia pela alcunha de Arena. Logo, o candidato dele possivelmente era Aureliano Chaves, à época atendendo no Partido da Frente Liberal.)
Passadas algumas semanas, Brizola (ou, no caso, Chaves) naufragou nas urnas, restando na disputa Lula e Collor. E lá foi doutor Ulisses orientar suas bases mais uma vez.
– Bom dia, seu Chico.
– Bom dia, doutor Ulisses.
– É a eleição de novo, não é? Pois não tou dizendo que é viagem perdida? Aqui todo mundo já sabe quem é o candidato, doutor!
– E quem é?
– É o barbudo! É Lula, doutor!
– É o quê, rapaz? O candidato agora é Collor!
Na mesma hora, o morador voltou pra dentro de casa, voltou com o título de eleitor na mão e rasgou o documento na frente da visita.
– Olhe, doutor Ulisses, o senhor me desculpe, mas eu não quero mais saber dessa história de política não! Pense num negócio complicado!

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Alex de Souza é jornalista e escreve aos sábados